coisas frágeis
Julho 1, 2009
- Por que você faz isso? – Berenice perguntou com a voz trêmula, tentando entender a cena com a qual acabara de se deparar. A cozinha toda suja de sangue, com grãos, biscoitos e condimentos espalhados pelo chão. Os frascos que os guardavam estavam manchados com as marcas das mãos ensangüentadas. A manga direita da camisa, apesar de desabotoada, tinha sangue no punho arregaçado e em todo o antebraço. O suor encharcava o que da camisa não era mais vermelho. Ele se destacava na cozinha de tons pastéis e suavemente coloridos.
- Porque é preciso – ele responde com as mãos sujas e nervosas terminando de fechar um frasco que estava na mesma cadeira em que ele estava sentado. Segurava o frasco entre as pernas. A mão livre o fechava, na outra, uma faca com sangue ainda recente. Tudo naquele lugar era muito recente.
- Você podia ter pedido minha ajuda – havia um tom de culpa na voz – se você tivesse pedido, eu faria alguma coisa… qualquer coisa…
- Você não faria – ele interrompe com pesar – nem há nada que você pudesse fazer. Não há nada que ninguém pudesse fazer aqui. – Contorna notando que ela tentou se mostrar contrariada. – Era algo que tinha que ser feito só por mim. Não suportaria que alguém me ajudasse a me livrar disso – ele fala agora jogando a faca para longe e apanhando uma linha e agulha que estavam previamente preparadas ao alcance de sua mão. Ele arfa de dor e põe a mão sobre a barriga. Ela percebe que existe um corte e pela quantidade de sangue deve ser profundo.
- Ainda acho que você deveria ter alguém ao seu lado num momento desses… – a voz dela falha ao ver que ele começou a costurar a sua própria barriga. Ele começa a gemer de dor e quase gritar. Ela tenta se aproximar dele.
- JÁ DISSE QUE NÃO! – Ele grita – se você me ajudar agora, a próxima a me fazer passar por tudo isso será você! Será que não entende? – ele tinha um olhar que misturava ódio e complacência.
Na verdade não era ódio propriamente dito. Era apenas dor. Mas não era uma dor qualquer. Era como se aquela agulha costurasse a sua alma. Era como se aquela linha atasse algo mais além que sua pele, carne, e chegasse aos seus sentimentos, emoções, desejos, todos reverberando dentro de si, os furasse com a agulha e depois os prendesse na linha com resignação e amor próprio. Ela não o entendera tão profundamente, mas resolveu não contrariar. Havia uma grande garrafa de álcool quase vazia e panos limpos ao lado, mas ela não esboçou tentativa nenhuma de usá-los para limpar o suor e o sangue, pois ela não sentia essa liberdade, não naquele momento.
Ela agora virou-se para os frascos de condimentos que ele outrora havia esvaziado: – Sabe Berenice – ele dizia agora com resiliência – os sentimentos falam e calam – disse ao terminar o último ponto e cortar a linha nas mãos. – Eles berram, hibernam, emudecem – ela chegou mais perto dos frascos, tomou um em sua mão e começou a limpar o vidro. – de um jeito ou de outro estão sempre lá. Mas as pessoas, meu bem, elas mudam.
E foi o que ele disse enquanto Berenice fintava a borboleta azul, agora morta imersa em etanol.
2:37
Junho 28, 2009
Ele se levantou da mesa para se afastar do trabalho sobre o qual se debruçara a algumas horas e foi fechar as janelas do lar. Era normal que todas as noites ele fechasse as portas e depois de um tempo as janelas, já que era o último na casa a dormir; na sua infância as portas começaram a ser fechadas, mas as janelas eram mantidas abertas para que o ar circulasse. Janelas fechadas naquele tempo eram motivo de casa desocupada ou desconfiança.
Mas os tempos mudaram.
Ele não era mais criança e agora portas e janelas dormiam fechadas. E haviam grades nas janelas e muros com cerca de alta voltagem. Ele vivia seguro no seu mundo e agora era a segurança no mundo de sua mulher e do pequeno que há pouco tiveram. Ele era a segurança. Mas não se sentia seguro disso. Para isso terceirizou o próprio serviço. Mudou-se para um apartamento alto. Na reunião de condomínio exigiu muros mais altos com grades, tirar o velho arame farpado e por uma cerca elétrica. Ele dera a idéia e pedira os votos. Também o alarme, o segurança, as câmeras. Se sentia orgulhoso de oferecer tal proteção.
Mas antes de fechar a porta da varanda se deteve na sacada e reparou algo que nunca vira em nenhuma outra noite. Um nevoeiro pairava sobre a vizinhança. E a neblina chegava as alturas, pois ele, da sacada do sexto andar e a via cobrir muita coisa. Não lhe tirava totalmente a visão das coisas próximas, mas a limitava roubando detalhes.
Ele jurava que podia ver a neblina quase se mexer, no que lembrava vagamente uma respiração. Só que tudo tão rápido que parecia lento. Quando ele esperava a pulsação, ela se perdia no piscar dos olhos. A névoa parecia a cada momento mais próxima, mas não avançava. E isso o inquietou. Ele não conseguia mais desviar os olhos da névoa. Era algo simples e efêmero, mas que ele não podia conter nem prever. Não sabia de onde surgiu nem porque estava lá. Talvez pelo tempo frio. Fazia parte da natureza das coisas, do fluxo da vida. E não se tem controle sobre essas coisas. Não se tem controle sobre nada.
Agora ele pensa que não é tão seguro viver. Nunca foi. A segurança tanto estimada era apenas mais uma prisão. Então o perigo existe dentro ou fora da prisão? Claro que em todo lugar. E ele e sua família estavam presos onde ele era a segurança. Ele então olha para baixo e vê poucas luzes acesas e seus sonhos caindo ao som do caminhão de lixo que passa.
estação das chuvas
Maio 15, 2009
Chove torrencialmente. Apesar do cinza cobrir o céu, já está um pouco mais claro. Mesmo assim não é hora de se levantar. Não sei a hora exata pois o relógio marca dez e trinta e quatro desde a semana passada, mas não amanheceu suficientemente para se estar acordado. Quem mora na rua teve uma noite difícil, pois choveu a noite inteira. Dizem que a chuva lava, limpa; mas a chuva mata, suja, destrói.
Chove muito na cidade e desde então tragédias tomaram conta dos noticiários. Deslizamento de morros, casas desabando, alagamentos, acidentes de carro, mortes, blecautes. Na semana passada, na noite que marcou o início da estação das chuvas, houve uma queda de energia causada pela água que insistia em desabar do céu. O gerador de um hospital aqui perto explodiu. Foi como um flash gigante que gravou na mente das pessoas por perto o retrato de tamanho acontecimento. O problema só foi resolvido depois das dez. Depois do relógio parar. Eram seis da noite quando houve a explosão. Quatro horas. Quatro horas para quem tem cada minuto sustentado pela corrente elétrica que corre em seus fios de máquina. Isso o noticiário não passou.
O fato é que hoje a tempestade é a pior desde que se possa lembrar, mesmo pra esses dias. Começou ontem por volta das dez e meia; no meu relógio – talvez em outros – e perdura até agora. O fato é que eu não consigo dormir. Coberto dos pés a cabeça ainda sinto o frio. O frio me impede de sair do calor das cobertas. Só de imaginar o toque frio do chão puxando meus pés para a realidade como um lago congelado, um arrepio me passa pela espinha. Com o travesseiro sobre a cabeça não dá pra ver muito além da parede do relógio. E essa é a única imagem que eu tenho.
Eu vejo da cama o relógio na parede em frente, iluminado pela pálida luz do sol que passa timidamente pela fresta da cortina e se esforça por entre densas nuvens num sorriso amarelo, esboço mal feito de esperança. É sob essa luz que eu vejo os meus problemas. Eu vejo as pessoas ao meu redor caídas, frágeis, doentes. Às vezes me vejo assim também. A chuva deixa as pessoas doentes, e o que é a doença senão a fragilidade humana perante os menores dos seres? A chuva nos faz cair e nos destrói até a mais concreta das bases. Vão passando pela mente como através de uma janela embaçada o trabalho mal feito, os estudos inacabados, amores vãos, e as contas para pagar. E eu não posso fazer nada por mim, nem pelas pessoas ao meu redor. Mas o que seria dos problemas se eu pudesse resolvê-los? Até me levantar se tornou um problema. Levantar implica em enfrentar toda essa chuva. Mesmo com todos os problemas do mundo, os meus problemas insistem em querer fazer essa chuva parecer um copo d’água. Mesmo meus problemas teimando em trovejar e chover cá em mim, beber um copo de chuva seria me afogar em meu próprio dilúvio.
Mesmo tendo um teto e eletricidade à disposição eu me sinto desabrigado e sem forças, apático quanto ao mundo, como se eu não pertencesse a ele. Uma vez ouvi de algum idiota qualquer que um relógio parado consegue estar certo pelo menos duas vezes ao dia ou algo do tipo. Será a passividade não uma conseqüência, mas uma preparação para a estagnação total? Se eu morresse agora pelo menos já estaria deitado, será esse o significado?
Continua chovendo. Continua dez e trinta e quatro. Continua tudo onde estava. O que me faz querer levantar. Não é porque as coisas permanecem nos lugares que elas pertençam a eles. Não é vontade de devolver as coisas aos seus lugares de origem, afinal, seria certo? Não é disposição de enfrentar a tempestade cinzenta que me faz – mesmo relutante – encarar o frio da manhã. É que talvez contar as gotas da chuva seja pior que a própria tempestade.
desabafo
Maio 3, 2009
“Eu não falo em paixão porque ela é uma palavra piegas e efêmera para mim. Eu poderia dizer que te amo, porque afinal… eu te amo. Mas as coisas não funcionam bem assim. Você me diz que o amor é vulgar. Por que será que o amor é vulgar? Porque não se ama metade das pessoas que diz. Eu queria amar todo mundo, mas eu não amo meus inimigos – que apesar de não os tê-los não dou valor a quem não vou com a cara, o que é difícil, porém não raro. Eu tento não amar pessoas que vão sumir de mim, mas não consigo. Eu queria citar alguém, uma das milhares de frases fodas que existem sobre o amor e que certamente se encaixariam na situação, mas isso aqui só cabe a nós dois e vai além de nós. Acho que amar é querer um ‘bem’ pra alguém que independa do seu ‘bem’, mas como se esse ‘bem’ fosse seu, porque na verdade é seu, afinal, te faz ‘bem’ ver o ser amado ‘bem’… bem, um pouco mais que isso… na verdade muito mais que isso… mas simplesmente por aí…
Eu amo minha família, ou o que eu entendo de família. Meus amigos que parecem muitos, mas não são. Eu amo você… e você me diz ‘e daí?’, as coisas não funcionam bem assim… você sempre pensa em como as coisas funcionam, mas as coisas sempre funcionam de uma forma não-linear-caótica que foge ao seu pensamento e você fica pensando nisso… e eu gosto de te ver pensar, sem querer adivinhar em quê, mas eu acho você linda pensando calada, falando sem pensar, pensando nas palavras, pensando em besteiras, pensando na vida, pensando no nada. No fim das contas eu gosto de te ver. Gosto de você com lentes ou sem. Gosto de você com o cabelo preso com aquele charme só seu ou somente solto. Gosto de te ver tranqüila e gosto também do outro lado, apesar de que eu nunca vi, nem consigo imaginar. Gosto da sua caretice singular. Gosto de cada maneira da mesma maneira. Da sua maneira. Gosto de te ver sorrindo, do seu sorriso. Gosto de você. Mas as coisas não funcionam bem assim…
Então fica tudo do jeito que está.
Um dia sem cor, uma terça-feira. Outro e outro mais na frente. No fim, a semana toda vai ser terça-feira, o ano todo vai ser terça-feira, minha vida será só terça-feira e o céu borrará a cor pra me lembrar de você.”
Então ele larga a faca com o sangue que era a ação de uns instantes atrás ao lado dela.
Ela chora baixo.
Ele se levanta.
Ela implora pela vida que agora foge de si.
Ele sorri.
Ela começa a não sentir mais dor.
Ele enxuga as lágrimas em sua face, manchando-as agora de sangue.
Ela recebe o seu beijo de morte perde o olhar.
Ele vai embora levando seu último suspiro.
ameaça fantasma
Abril 3, 2009
Me sinto ameaçado. A partir do momento – esse agora que escrevo pela ameaça do esquecimento – que percebi que a terra é azul por causa da água que é azul por causa do céu, que o mundo é redondo e gira, o açúcar é doce e a vida não tão bela assim. Me senti ameaçado por essa simplicidade nas coisas e a partir de então cada “bom dia” passou a ser recebido com receio e cuidado.
Pensei em quando acordei pela manhã e me senti ameaçado ao abrir os olhos na cama, antes de me levantar, e nem sei se ameaçado por isso. Pensar no que me aguardava no próximo instante até o fim do dia, na mensagem que chegara no celular, até o fim da vida, era uma ameaça constante.
Continuei uma rápida retrospectiva da semana anterior até perceber que pensar no passado seria se sentir ameaçado pelo que já passou. O futuro é muito mais ameaçador do que qualquer coisa. Então deixei ele pra lá, mesmo ele incomodando com flashs de possibilidades pepitantes e ameaçadoras.
Me sinto ameaçado pelos meus sentimentos. Pelos meus sentimentos e pelos sentimentos alheios. Não os sentimentos das pessoas-figurantes nas filas dos bancos ou no ponto de ônibus, mas das pessoas que estão suficientemente perto de mim para conseguir acertar uma pedrada. Ameaçado por pessoas que penso não serem capazes de me fazer mal. Ameaçado pelo bem que elas fazem. A ameaça é o bem maior que elas podem fazer e podem não fazer pra mim.
Me sinto ameaçado por um dia de sol. Não pelo calor, mas pela simples possibilidade de que irá anoitecer. É como se sentir ameaçado pela chuva. Não por ela molhar, mas pela chance de pegar uma gripe.
A ameaça é o fantasma que me persegue. Um fantasma vivo pertencente a várias almas de pessoas que estão ligadas a mim apenas pelo fato de existirem. Um fantasma. Pessoas próximas, ameaças próximas, meu fantasma.
Sinto-me ameaçado pelos meus amores.
Sinto-me ameaçado pelos meus amigos.
Sinto muito ter que ser assim.
a palavra é fascista?
Março 20, 2009
Bem,
Outro dia a voz feminina de L me falou:
“A palavra é fascista.”
Será?
Ouvi, entendi, discordei, resolvi deixar pra lá. Meu cérebro estava à beira de um colapso então resolvi não pensar muito no mundo externo. Minha mente chamou a audição e a atenção – na intenção de me livrar de tais filosofias – para longe.
Depois de um dia ou dois abri a janela. Dava para ver noite escura de lá. E de lá eu ouvi a mesma frase em letras brancas como brilho de estrelas.
“A palavra é fascista.”
A palavra nos prende ao seu significado? A palavra nos limita? A palavra nos obriga a falar? Poder ser. Mas vejo isso como o feitiço que se volta contra o feiticeiro.
Lá na idade da pedra, antes do nascimento de Cristo, Barack Obama, Platão, Monica Mattos o raio que o parta, o alfabeto não existia. Não existia letra nem palavra escrita. Mas o homem existia. Existia e se comunicava. Talvez ele não tivesse um nome e pudesse ser qualquer um (entendam bem ou mal). Ou talvez tivesse um nome que significasse exatamente o que ele é, alheio a qualquer convenção vocabular.
Um cara que escreve bem sobre isso é Arnaldo Antunes. Ele diz que “a origem da poesia se confunde com a origem da própria linguagem”. Que a linguagem verbal é puramente utilitária podando toda riqueza da palavra. A poesia então aparece para devolver a palavra o que é dela. O ser. Imagina se separassem seu Ser de você num mero verbo de “ligação”?
O homem atribui funções a palavra de modo que ela não é mais o que diz, mas o que falamos em determinado contexto. Cabe a poesia dar voz à palavra. Fazer que a escutemos nela mesma. Não foram as palavras que decidiram morar em comunidade e criaram o dicionário. Se um olhar diz um tanto, se um breve momento de olhos fechados pode dizer mais, por que falar? Porque ACHAMOS necessário ter de falar. Se limitar ao pobre “eu te amo”. Pobre porque já o gastaram em quase todo o seu valor. E o Amor? Seria este fascista por nos prender a uma só pessoa? Fascista é o homem que não sabe amar e se limita a sentimentos mesquinhos pelo medo.
O homem que criou utilidades para a palavra limitando seu significado. O homem criou sua própria cela. E Pierce reforça essa prisão com os grilhões da semiótica, que potencializa a força da palavra em dissociação de significante e significado.
O homem é ditador do seu próprio sistema e o poeta libertário. O homem é o limite da alma. A poesia é a chave.
em ligação
Janeiro 21, 2009
“Alô”?
Depois que o telefone é atendido é que você se pergunta o por quê de ter ligado. Por que o arrependimento só vem depois que o telefone é atendido? Por que as outras vezes que eu liguei e desliguei antes que começasse a chamar não me bastaram para desistir logo?
“Olha… é que… a saudade tá apertando o coração. Então eu te liguei”.
Toda vez que toca o telefone eu penso que é você. Essa frase agora parece mais do que com qualquer música. Ela é mais do que a música. É a minha realidade. Eu passo o dia ao lado do telefone e as noites ele fica tão ligado quanto eu, que não consigo dormir. Volta e meia eu me lembro que você não dá notícias – o que era normal todos os dias e agora me faz uma falta de dar nó no peito – e ao invés de te esquecer eu fico imaginando como você está.
“Foi o que me fez ter coragem de te ligar de novo”.
Mesmo já tendo te ligado tanto e sem você ter me atendido. Mesmo com todas as mensagens que eu mando sem resposta. Sem aquele toque que você me dava nas horas mais inesperadas do dia, só pra eu te dar um toque de volta, era o que fazia do supermercado um lugar mais feliz. Fazia o meu trabalho parecer prazeroso. A fila do banco parecia repleta de amigos de infância numa brincadeira ou ciranda qualquer. O céu parecia mais claro quando eu o olhava. Hoje o céu borrou a cor. Hoje eu olho para o chão pra lembrar a realidade.
“A verdade é que sem você tudo anda sem graça…”
Mesmo olhando no chão eu acho que ainda não caiu a ficha. Ainda não sinto meus pés tocando o chão. É como se você tivesse levado minhas asas embora e eu estivesse descendo lentamente desse vôo. Acho que quando eu me der conta do que é estar sem você de verdade vai doer mais do que já doeu até agora. Até a hora em que não vai haver mais dor.
“…é como se a vida fugisse do tempo.”
Não como superação, mas uma anestesia. Um coma. Uma prisão em mim mesmo. Uma jaula onde os grilhões são feitos da Indiferença e as chaves podem ser até mesmo de mentiras. Uma jaula que me faça contar as horas como se fossem dias, até que eu tenha um outro motivo mais forte pra pagar uma conta de telefone ou até eu me convencer de que tudo não passou de um engano.
“Alô”?
roads
Janeiro 11, 2009
Um som de muito longe, leve gemido, chega aos meus ouvidos numa dessas noites que beiram a madrugada. Numa dessas noites que os meus sentidos - ou a falta que eu sinto - se fazem mais presente.
“ohh”
Tanta sofreguidão e esse algo que eu ouso chamar de amor naquela voz lánguida que dança no vento sorvida pelo ar, fazem a alma do mais sem-alma dos homens sentir o frio arrepio que vai a pele pela espinha até a nuca, numa carícia de fazer sonhar. Sensações que o simples monossilabar de sua voz traz até mim, me traz de volta a vida.
Nesse momento eu até posso enxergar. Enxergar de verdade, como se fosse palpável e possível todo o sentido da vida. E travar guerras não seria nada diante do que poderia ser só em ter você aqui. Ter você comigo em cada gota de chuva e todos raios de sol. E poder ouvir o seu sussurro delirante que me livra de toda treva, ao menos que a treva fosse você.
Se me render a tuas vontades for o que se chama de derrota, eu chamo pelo nome. De verdade ou de batismo. Eu chamo o seu nome.
“can’t anybody see?”
mazEla
Dezembro 26, 2008
é tempestade agora lá fora
mas não importa o quanto caia a chuva
uma hora ela vai parar
e quando eu pensei que a água
fosse curar as feridas…
fosse regar a alegria…
mas Ela me afogou e acabou com meus sonhos
os bueiros entupidos
cheios da nossa sujeira
fazendo um rio imundo
de toda essa mágoa esse lixo
e quando eu pensei que a água
fosse lavar essa alma…
fosse levar esse medo…
mas Ela só me deixou mais fraco e doente
vai terminar tudo enxarcado
e ainda não vai terminar
enquanto os meus pés não sairem da lama
e o céu ainda for cinza
profecia
Dezembro 16, 2008
E as mãos que me apertam
docemente o coração,
hão de queimar de tanto amor.