a pior metade

à deriva

Publicado em Uncategorized por nelsonnetto em Setembro 22, 2009

A mente humana é algo complexo. Imagina quantas coisas podemos pensar e fazer e quantos músculos comandar e células e todas essas coisas, e ainda dizem que a gente não usa nada do potencial do cérebro. Por que então, nesses oito ou dez por cento que a gente usa da nossa mente tem coisas que não se esquecem? Coisas as quais não conseguimos nos livrar.

Por que escrever sobre isso? Por que escrever sobre outra coisa? Por que escrever sobre qualquer coisa? O que na mente nos movimenta? Nos faz querer fazer? Nos faz querer não fazer, deixar de fazer ou simplesmente deixar de querer? Será algo perdido nesse mundo desconhecido da mente ou solto no ar? Será a água que a gente bebe ou a água que a gente não bebe que influencia? Se meu filho for metade meu metade do que eu tenho metade do que eu sou, se meu filho tiver metade da minha dor de cabeça do meu medo da vida… não sei se ele vai gostar desse lugar, mas espero que ele seja ao menos meio feliz, metade satisfeito  ou precise da metade do que eu preciso pra sorrir… mas que ele ainda seja exigente porque não é por não se precisar de muito que se tem de querer pouco…  espero conseguir amá-lo, espero conseguir criá-lo da melhor maneira possível, porque é o mínimo que a gente deveria fazer por quem não pediu pra vir pra esse lugar, essa existência, esse tédio.

Espero que ele goste desse lugar… e a outra metade? Se ele tem uma metade minha tem que ter outra metade… espero que outra metade diferente de mim igual a mim que me complete que me encaixe ou até nada disso mas que apenas me faça querer juntar metades em filhos e coisas assim, ou que tenha algo que nem se os dez por cento do cérebro procurassem nos outros obscuros noventa encontrariam e me confunda eternamente, descobrindo a cada dia um pouco e a cada noite um tanto mais.

Abri três caixas de texto e tentei escrever nas três alternadamente mas não consigo fazer isso direito… acho que não consegui separar bem as coisas… na verdade nunca separei bem nada e foi aí que as coisas começaram a se misturar e se complicar – porque antes disso elas eram simples coisas – e então eu não sei mais o que fazer… eu nunca sei o que fazer… por isso agora não misturo mais nada. Isolei tudo de mim e agora me vejo num barco a vela no meio do mar… longe de tudo, de todo, de mim.

amor e morte

Publicado em Uncategorized por nelsonnetto em Setembro 12, 2009

Hoje eu acordei querendo muito te ver. Querendo você. Chovia bastante e sem parar, mas quem se importa? Mas aí veio uma notícia: algo maior aconteceu e eu não podia mais te ver hoje. Agora o dia era apenas mais um dia que se arrastava por esse tempo todo sem te ver. Por um momento, ainda antes de acordar, eu pensei que seria um dia diferente.

O fato é que hoje nem a morte me trouxe tristeza assim como você. Os túmulos tranqüilos e as pessoas chorosas pareciam distantes nesse jardim tão verde, florido e sem vida. E eu ria no meio delas. Não como louco, histérico ou qualquer coisa assim. Nem comigo mesmo, de uma alegria de viver. Ria de poucas bobagens que me surgiam a cada instante, mesmo o ritual me querendo fazer sério. As coroas de flores, com mensagens. O “eu te amo”, o “me perdoe” tarde demais, tudo isso faz da morte algo mais estranho. O momento certo pode até não se saber quando é. Homenagens póstumas são o que me aturdem. Pra que uma rua com o meu nome se eu não posso passar? Pra que um discurso pra mim, se ler nem ouvir já não posso? E quem vive? Como eu poderia chegar e dizer “sinto muito” para alguém que não me toca? Alguém que não me é digno de sentimentos? Educação? Acho que quem perde uma relação ou um contato desse nível, não se preocupa muito com educação. E só quem perde sentiu realmente o que é perder. Essas coisas acabam deixando o momento da morte mais aparente. A morte é real. A dor, de quem sente.

Mas aí eu saí do enterro e comecei a me sentir mal. Era como se sair do cemitério me fizesse voltar a realidade. Continuava chovendo, as pessoas continuavam morrendo, eu ainda tinha contas pra pagar e você não estava ali.

Mas aí você apareceu e eu te vi.

Diferente? Mais bonita.

Linda de doer.

E doeu.

[Texto velho]

pandora

Publicado em Uncategorized por nelsonnetto em Agosto 26, 2009

Garota dona do mundo andava feliz. Não que ela realmente fosse a dona do mundo, mas era assim que ela se sentia. Era dona apenas de tudo que sempre quis e isso a fizera se tornar assim. Era pouco antes dona de somente algumas dessas coisas, ainda agora encontrara todo o resto junto. Queria para si, mas essas coisas não se encontram todas juntas jogadas por aí. Elas tinham dono.

Garota dona do mundo vira em tal rapaz tudo o que ela mais queria (até porque as outras coisas que ela queria já as tinha, logo, não as queria tanto assim), mas garota dona do mundo não queria tal rapaz. Na verdade queria, mas mais pelo que ele tinha do que propriamente pelo o que ele era. Não, não era interesse. Bem, era interesse sim, mas não um interesse material, porque o que ela queria nele fazia parte dele, não havia compra ou divórcio que trouxesse isso para ela, era algo que fazia dele ele. Então você deve estar se dizendo (ou não) “se ela gosta do que faz dele ele, ela gosta dele!”, mas a questão é que o que ela gosta nele, o que ela quer nele, ela poderia ter encontrado em qualquer um, o que faz de tal rapaz um qualquer – como se diz, substituível, assim como todas as pessoas – pensava garota dona do mundo, seja isso bom ou não. Se ela tivesse encontrado tais coisas em outro alguém, qualquer um seria tal e tal rapaz não seria ninguém. É mais ou menos isso.

Garota dona do mundo se dirigiu a tal rapaz, alegando que ele a faria completa, feliz. Tal rapaz disse a ela que isso era o que ele mais queria. Então os dois se amancebaram em um lugar qualquer e garota dona do mundo se preencheu de tudo que sempre quis. Estava realizada.

Nada dura para sempre. Nem a eternidade conheceu o pra sempre, sendo o futuro apenas uma abstração, um sonho dissolvido a cada instante pelo presente. Tal rapaz estava se sentindo mal. Se sentia mal porque garota dona do mundo queria ser dona de coisas que ele até tinha, mas não podia dar para não deixar de ser. Tal rapaz sentia que se doava cada vez mais e garota dona do mundo não abria mão do que tinha, nem do que era, para ser com ele. Era como se ela fechasse em si, trancando-se em uma caixa junto à suas glórias exclusivas – e o excluindo disso – fazendo tal rapaz se sentir sugado. Tal rapaz estava se perdendo num mundo não seu. Quase não se reconhecia mais.

Tal rapaz decidiu ir embora. Declarou para garota dona do mundo que era dono de si – ou pelo menos era o que ele queria ser – e ela o tomou como sua propriedade, de modo que suas particularidades eram algo ordinário num universo que pertencia somente a ela. Garota dona do mundo esbravejou, ele não podia ir embora, não podia privá-la dele, tal rapaz disse que isso era egoísmo, ela chorava nervosa. Ele queria ser com ela, viver no mundo dela. Ela queria tê-lo para sí, possuí-lo. Ele queria ser deus com ela, ter um lugar nesse Olimpo. Ela queria ele venerando-a como cego fiel, pois ela era absoluta. Onde os dois queriam só ela podia ter.

Tal rapaz foi embora em busca de algo seu e garota dona do mundo acabou por ficar sem o que mais prezava. Percebeu que sem isso, o que lhe ficou já não tinha valor, eram sobras, não era nada. Percebeu que ilusão é nesse mundo querer ser dono de alguém, via agora em tal rapaz indo embora alguém, mas quando olhava para si não se reconhecia mais. O seu mundo desmoronou. Lugar qualquer era agora lugar nenhum e o que sobrou para ela foi uma semente verde, que ela plantou – no que já fora reino e castelo e virou um imenso deserto de sal – e esperou seus rebentos.

tão doce quanto sal

Publicado em Uncategorized por nelsonnetto em Julho 31, 2009

A caminhada pelo centro da cidade foi pior do que eu havia planejado durante a noite. Não pensei que fosse chover hoje. O chato de deixar as coisas para depois é que elas se tornam inadiáveis nos piores momentos. Estava devidamente equipado. Tênis, calça, guardachuva, contas pra pagar e uma mochila, para não molhar o papel e os livros que pensei em comprar. Acabei sem comprar os livros e o papel, o que deixou tudo um degrau mais irritante. Caminhava com os pés na lama, pensando em como seria lavar aqueles tênis por nada, tirar a sujeira da calça e botar ela pra secar num dia de chuva. E olha que a chuva só veio cair de repente; quando eu saí de casa, vi o céu borrando a cor e apostei no azar. Dei sorte.

Já ia mirando a faixa de pedestres na corrida para atravessar a rua quando me dei conta do carro que vinha em velocidade. “Esse porra vai me dar um banho”, pensei e, apesar de já estar bastante sujo e molhado, recuei uns três passos. A água veio e não me atingiu. Já tinha decidido esperar o sinal fechar de onde estava quando – pensando no almoço que não havia comido e me esperava – percebi que havia uma moça ao lado do meu antigo lugar. Me olhou com cara de quem tinha tomado banho e com os olhos levemente cerrados pelas gotas da chuva que caiam. Seus olhos me diziam “poxa… né?” e seus lábios sorriam. Lindos olhos, lindos lábios, lindo sorriso. Respondi com meu melhor sorriso de estoque, que apesar do esforço para sair, se fez notar facilmente no que eu percebi que ela não havia saído preparada para a chuva. Estava de sandálias e deveria calçar trinta e seis (você deve estar me perguntando o motivo de tanta exatidão, mas algumas coisas a gente tira de olho). Estava com um short preto, que não era pequeno, mas me dizia muito sobre belas pernas e o que mais um short daqueles pode dizer, que pode até não se cumprir a olho nu, mas promete ser linda assim, vestida. Subindo pela cintura ela não era dona da magreza, mas ainda sim era uma barriguinha que eu queria ver mais de perto, ver com as mãos. Camisa preta de alça fina. Nada de umbigo de fora, mas não cobria toda a barriga, havia aquele phi de Da Vinci, o tal do um vírgula seiscentos e dezoito à mostra denunciando a falta de sol naquela região mais branca, mas perfeita. O decote não existia, nada se mostrava para aqueles que não enxergam mais além, mas para os bem aventurados os ventos sussurram o que há de bom e a direção da estrada de tijolos amarelos. Ideal para uma cidade quente em dia de sol. Ideal para uma primeira vista. O seu rosto era bonito, mas as mãos meio na frente segurando a ponta de um guardachuva que não era seu, esticando pra si um e mal cobria a grande legítima dona. Abrigo inútil, me impediam de ver por completo. Olhei de volta em seus olhos como quem diz “poxa…”. Decidi voltar para ficar ao seu lado e então percebi que ela não conhecia a dona do guardachuva.

“Te garanto uma carona até a lanchonete do outro lado da rua”, “fechado”, você era realmente linda, de tão perto percebi melhor, “você sempre dá carona a estranhos?”, “não não”, “a estranhas, não é?”, “só as bonitas”, o seu sorriso deixou o meu sair mais confortável, nunca tinha dado carona a ninguém, quanto mais a uma garota (mais de perto você parece mais nova, mesmo que digam que aparentas ser mais velha, a mim você não engana) tão bonita, devo estar sonhando. “Chegamos”, “é chegamos”, na porta da lanchonete a chuva parecia mais forte, “te garanto um lanche”, “sério?”, o olhar dela estava surpreso e ao mesmo tempo desafiador, e ao mesmo tempo lindo, “se você não comer a lanchonete inteira”, você ria fácil, um riso fácil e bonito, “e se eu comer?”, “lavo uns dois pratos pra te ajudar enquanto a chuva não passar”, você estava gostando da minha conversa fiada e meu comentário fez lembrar a chuva, “nem tenho pra onde correr mesmo”, “então vamos sentar e escolher o pedido”, você se sentou primeiro e, antes de sentar fui ao banheiro escovar os dentes, a bolsa servira para algo, sempre guardo minha escova nela e um creme dental, pode parecer bobagem, mas escovar os dentes é relaxante para mim, voltei e você olhava o cardápio compenetrada, “vou querer um sonho”, um doce, “e eu vou querer um salgado desses”, pedi, “me diz”, “o quê”, “você já me garantiu uma carona e um lanche”, “tô me saindo bem, né?”, “até que sim, mas quero ver se você me garante mais algo”, “pra tomar?”, “hã?”, “o garçom quer saber”, “há, quero sim, suco de maracujá”, “saudável demais, refrigerante pra mim”, o silêncio pairou até a volta do garçom com o lanche da gente, “você vai me engordar”, “sonhos não engordam, alegram”, “podem iludir”, “pode ser”, “…”, “nem sei seu nome ainda”, “nem precisou saber até agora”, “e como eu vou te chamar?”, “você pretende me chamar?”, minhas mãos estavam nervosas sobre a mesa, as dela repousavam tranqüilas, eram belas e suaves, mãos pequenas que poderiam acolher todo amor do universo, “se eu souber que você vai atender, sim”, “é preciso de nomes pra isso?”, “tá bom então… vou te chamar com um daqueles apelidinhos bem cafonas…”, “tipo o quê”, “tipo rainha”, “sem comentários”, “é, realmente é muita moral pra você”, me analisou de canto de olho com uma falsa reprovação, “princesa”, “não acho que homens fiquem bem chamando mulheres de princesa, ou fica pedreiro ou afetado demais”, “deixa pra lá”, “…”, “chuchu”, “odeio chuchu”, “eu também”, “quem gosta de chuchu?”, “ééééé”, exclamei socando a mesa e desistindo da idéia de culpá-la pelo apelido vegetal-frutífero-amoroso-a-que-todos-chamam-de-legume-mas-ninguém-gosta-de-comer por ser uma atitude agressiva que chama os olhares quase assustados dos outros, mas você apenas ria, “e você ainda queria me chamar assim”, “algum rei na história da humanidade deveria ser a única pessoa a gostar de chuchu, popularizou o apelido e obrigou o consumo pelos súditos”, “ou então algum país desses desenvolvidos passou a idade média com as pessoas sobrevivendo à base de chuchu”, “daí a igreja decidiu que ele era fonte de vida e associaram ao amor”, “ou então os franceses ironizavam as pessoas que não gostavam chamando de chuchu”, “e o resto do mundo por não compreender os incompreensíveis franceses acharam que era um alcunha carinhosa”, eu dizia com uma voz afeminada enquanto você já ria, “sempre os franceses”, “e a gente divagando sobre essas besteiras já deu a volta ao mundo, né chuchu?”, rimos bastante e demorou um tempinho para retomar o fôlego, “mas nada de chuchu”, “tá bom, tá bom”, “quero ver o que você vai me aprontar agora”, “docinho?”, “genérico demais”,  “…”, “paixão”, “paixões duram pouco”, “você quer ser mais, amor?”, “posso ser somente agora”, “pode ser pra sempre”, nossas mãos se juntaram e as tuas, quietas, acalmaram as minhas, pude ver seus olhos mais de perto e cada vez mais de perto, e percebi então que são de um castanho que eu nunca vi, bem claro, meio esverdeado,  me focando, se fechando, me fechando, tudo muito lentamente, como se fazendo o mundo silenciar e a chuva cair devagarinho para que eu pudesse ouvir as gotas caindo uma por vez e as visse com cuidado, de um jeito totalmente outro, numa sensação nunca antes despertada, ao abrir dos olhos, te encarei por mais um desses eternos instantes, “bom esse sonho heim”, “idiota”, disse você da minha frase de efeito, da minha cara de sonso, de tudo isso, ou apenas da minha intenção, seu sorriso era tão seu, mas a cada um deles era um mais novo e eu queria estar ao seu lado pelo tempo que fosse para poder ver todos eles, não precisava tê-los, bastava apenas ver, “amor não”, conclui, “tem que ser algo menos…”, “menos”, “é, menos”, “…”, enquanto o silêncio voltava a pairar sobre a mesa voltamos a comer, as vezes nos olhando, nem sempre ao mesmo tempo, as vezes eu te olhava entretida no seu sonho, e quando eu pensava nos meus sentia você me olhando, acabei primeiro, fiquei a bebericar o refrigerante enquanto olhava você, dessa vez o pescoço, se o vampiro pode morder a vítima em qualquer lugar para beber seu sangue por que eles escolhem o pescoço?, as respostas não são palavras, mas visões como essa, “que foi”, “nada não”, você sorriu de novo e limpou dos lábios os farelos do sonho que devorara, “o sonhou acabou”, “a chuva parou”, “e agora José?”, “e agora você?”, sorrimos um pro outro e nos levantamos, fomos para a porta da lanchonete e então dissestes, “ainda vou andar um bocado”, “e eu vou pra casa”, “a gente se vê então”, “a gente se vê”, na hora da despedida foi a primeira vez que sua presença pareceu a de uma estranha, nos abraçamos sem jeito, nos beijamos sem jeito, você sorriu sem jeito, virou e partiu, eu segui também para o meu caminho.

Andava distraído, pensando. Como o dia, com todos os contratempos do mundo, me foi generoso. Até sol eu tinha agora! Guardachuva fechado na mão, fiz uma retrospectiva da última hora, “para quem saiu de casa numa chuva pra pagar umas contas e não comprar uns livros me dei bem”. A imagem daquela moça linda não saía mais da cabeça, era algo que eu não esqueceria. Até que eu parei no meio da rua. Me lembrei de um detalhe. Eu não sabia o nome dela. Não peguei o telefone, não sei o nome, não sei quem ela é. Agora eu era só um idiota com um guardachuva em pleno dia de sol. E ela, é um sonho.

das negativas

Publicado em Uncategorized por nelsonnetto em Julho 20, 2009

Não entendo esse lugar. As pessoas se falam, não se falam, se esbarram, se evitam, roubam, matam, fingem que amam. Cada vez mais parece que a verdade das pessoas é apenas fingir; a mentira seria então a peça fundamental para a manutenção do caos que são as pessoas. Manutenção porque esse caos é organizado, fingimento, mentira. Por isso, mesmo sem entender as pessoas, não me surpreendo mais. É um ciclo vicioso. Tudo acontece sempre igual. Não me excluo desse lugar, apenas não há mais o que me prenda. Sou uma peça solta na engrenagem, que gira a volta dos outros. Ocupo um lugar que não é meu. É como se eu fosse eternamente uma visita, um hóspede que quer ir embora por incomodar, mas que não tem pra onde ir e, por não ter pra onde ir, acaba incomodado por estar incomodando.  Um tumor benigno. Quase não faz mal a ninguém, mas quem quer ter um? Não pertenço a nenhum lugar.

Não entendo o tempo. O fato do sol “nascer” no leste todos os dias e sempre ir em direção ao amanhã é um estigma da própria rotina. Calendário, televisão… Coisas que fazem o tempo ser algo superficial; passam tão lentos os dias que a gente nem se dá conta que eles acabam aos montes e os anos correm cada vez mais. Montes de horas mortas, dias mortos, semanas mortas. Esperar, esperança, desespero. Não há tempo perdido, o que existe é a morte, pois a cada instante que se vive, se morre.

Não tenho paz, não tenho silêncio. Ninguém tem. Se o silêncio existe de verdade, antes de chegar nele os ruídos transformam-se em um inferno auditivo. Quando a noite cala as vozes e silencia todas as almas, quando dormem as luzes e os carros, o meu silêncio começa a gritar alto e ecoar pela casa. Um relógio de parede na sala e outro no quarto, um dos dois estava meio segundo adiantado – ou atrasado, que seja – em relação ao outro, num descompasso que me açoitava os ouvidos a cada meio segundo. Eu nunca soube qual dos dois marcava a metade. Faz diferença? Não creio. O relógio da sala caiu na limpeza e se espatifou no chão, o do quarto parou. Os segundos corriam para serem primeiros, mas sucumbiram ao tempo. O tempo não melhora as coisas. Ele as conforma ou as finda.

Não me pertenço. Nem me pertencem as coisas que digo minhas. Me sinto como a casca de um inseto. Eu era um verme. Um verme desses que não se mata por não se notar ou por preguiça. Me fechei numa casca que mais parecia um casulo. Tentei me libertar e ser o que eu realmente era: um inseto. Mas não tive coragem. Meu não-eu, inseto, fugiu de mim, enquanto eu fiquei na casca, vazio, fantasma. Na verdade eu não sei se fui eu quem virou o inseto e me mandei, e aqui ficou este que não sei, ou se fiquei as paredes de uma vida vazia e foi-se o inseto dentro de mim. Talvez nenhum dos dois. Talvez nem o verme eu tenha sido. Eu sou apenas o vazio que o inseto evita e a casca acolhe.

Não pertenço a lugar nenhum, não pertenço a ninguém, não pertenço a este tempo, meus pensamentos não me pertencem, nem eu pertenço a mim, e deve ser isso que me faz sentir vazio. Se tudo o que fosse meu estivesse dentro de uma garrafa, pra eu beber de uma vez, sobraria sede, e sede não é algo que eu tenho, é tudo o que falta. Desapego de tudo é só o que tenho, o que me resta. E se liberdade é isso, o que vem depois?

coisas frágeis

Publicado em Uncategorized por nelsonnetto em Julho 1, 2009

- Por que você faz isso? – Berenice perguntou com a voz trêmula, tentando entender a cena com a qual acabara de se deparar.  A cozinha toda suja de sangue, com grãos, biscoitos e condimentos espalhados pelo chão. Os frascos que os guardavam estavam manchados com as marcas das mãos ensangüentadas. A manga direita da camisa, apesar de desabotoada, tinha sangue no punho arregaçado e em todo o antebraço. O suor encharcava o que da camisa não era mais vermelho. Ele se destacava na cozinha de tons pastéis e suavemente coloridos.

- Porque é preciso – ele responde com as mãos sujas e nervosas terminando de fechar um frasco que estava na mesma cadeira em que ele estava sentado. Segurava o frasco entre as pernas. A mão livre o fechava, na outra, uma faca com sangue ainda recente. Tudo naquele lugar era muito recente.

- Você podia ter pedido minha ajuda – havia um tom de culpa na voz – se você tivesse pedido, eu faria alguma coisa… qualquer coisa…

- Você não faria – ele interrompe com pesar – nem há nada que você pudesse fazer. Não há nada que ninguém pudesse fazer aqui. – Contorna notando que ela tentou se mostrar contrariada. – Era algo que tinha que ser feito só por mim. Não suportaria que alguém me ajudasse a me livrar disso – ele fala agora jogando a faca para longe e apanhando uma linha e agulha que estavam previamente preparadas ao alcance de sua mão.  Ele arfa de dor e põe a mão sobre a barriga. Ela percebe que existe um corte e pela quantidade de sangue deve ser profundo.

- Ainda acho que você deveria ter alguém ao seu lado num momento desses… – a voz dela falha ao ver que ele começou a costurar a sua própria barriga. Ele começa a gemer de dor e quase gritar. Ela tenta se aproximar dele.

- JÁ DISSE QUE NÃO! – Ele grita – se você me ajudar agora, a próxima a me fazer passar por tudo isso será você! Será que não entende? – ele tinha um olhar que misturava ódio e complacência.

Na verdade não era ódio propriamente dito. Era apenas dor. Mas não era uma dor qualquer. Era como se aquela agulha costurasse a sua alma. Era como se aquela linha atasse algo mais além que sua pele, carne, e chegasse aos seus sentimentos, emoções, desejos, todos reverberando dentro de si, os furasse com a agulha e depois os prendesse na linha com resignação e amor próprio. Ela não o entendera tão profundamente, mas resolveu não contrariar. Havia uma grande garrafa de álcool quase vazia e panos limpos ao lado, mas ela não esboçou tentativa nenhuma de usá-los para limpar o suor e o sangue, pois ela não sentia essa liberdade, não naquele momento.

Ela agora virou-se para os frascos de condimentos que ele outrora havia esvaziado: – Sabe Berenice – ele dizia agora com resiliência – os sentimentos falam e calam – disse ao terminar o último ponto e cortar a linha nas mãos. – Eles berram, hibernam, emudecem – ela chegou mais perto dos frascos, tomou um em sua mão e começou a limpar o vidro. – de um jeito ou de outro estão sempre lá. Mas as pessoas, meu bem, elas mudam.

E foi o que ele disse enquanto Berenice fintava a borboleta azul, agora morta imersa em etanol.

2:37

Publicado em Uncategorized por nelsonnetto em Junho 28, 2009

Ele se levantou da mesa para se afastar do trabalho sobre o qual se debruçara a algumas horas e foi fechar as janelas do lar. Era normal que todas as noites ele fechasse as portas e depois de um tempo as janelas, já que era o último na casa a dormir; na sua infância as portas começaram a ser fechadas, mas as janelas eram mantidas abertas para que o ar circulasse. Janelas fechadas naquele tempo eram motivo de casa desocupada ou desconfiança.

Mas os tempos mudaram.

Ele não era mais criança e agora portas e janelas dormiam fechadas. E haviam grades nas janelas e muros com cerca de alta voltagem. Ele vivia seguro no seu mundo e agora era a segurança no mundo de sua mulher e do pequeno que há pouco tiveram. Ele era a segurança. Mas não se sentia seguro disso. Para isso terceirizou o próprio serviço. Mudou-se para um apartamento alto. Na reunião de condomínio exigiu muros mais altos com grades, tirar o velho arame farpado e por uma cerca elétrica. Ele dera a idéia e pedira os votos. Também o alarme, o segurança, as câmeras. Se sentia orgulhoso de oferecer tal proteção.

Mas antes de fechar a porta da varanda se deteve na sacada e reparou algo que nunca vira em nenhuma outra noite. Um nevoeiro pairava sobre a vizinhança. E a neblina chegava as alturas, pois ele, da sacada do sexto andar e a via cobrir muita coisa. Não lhe tirava totalmente a visão das coisas próximas, mas a limitava roubando detalhes.

Ele jurava que podia ver a neblina quase se mexer, no que lembrava vagamente uma respiração. Só que tudo tão rápido que parecia lento. Quando ele esperava a pulsação, ela se perdia no piscar dos olhos. A névoa parecia a cada momento mais próxima, mas não avançava. E isso o inquietou. Ele não conseguia mais desviar os olhos da névoa. Era algo simples e efêmero, mas que ele não podia conter nem prever. Não sabia de onde surgiu nem porque estava lá. Talvez pelo tempo frio. Fazia parte da natureza das coisas, do fluxo da vida. E não se tem controle sobre essas coisas. Não se tem controle sobre nada.

Agora ele pensa que não é tão seguro viver. Nunca foi. A segurança tanto estimada era apenas mais uma prisão. Então o perigo existe dentro ou fora da prisão? Claro que em todo lugar. E ele e sua família estavam presos onde ele era a segurança. Ele então olha para baixo e vê poucas luzes acesas e seus sonhos caindo ao som do caminhão de lixo que passa.

estação das chuvas

Publicado em Uncategorized por nelsonnetto em Maio 15, 2009

Chove torrencialmente. Apesar do cinza cobrir o céu, já está um pouco mais claro. Mesmo assim não é hora de se levantar. Não sei a hora exata pois o relógio marca dez e trinta e quatro desde a semana passada, mas não amanheceu suficientemente para se estar acordado. Quem mora na rua teve uma noite difícil, pois choveu a noite inteira. Dizem que a chuva lava, limpa; mas a chuva mata, suja, destrói.

Chove muito na cidade e desde então tragédias tomaram conta dos noticiários. Deslizamento de morros, casas desabando, alagamentos, acidentes de carro, mortes, blecautes. Na semana passada, na noite que marcou o início da estação das chuvas, houve uma queda de energia causada pela água que insistia em desabar do céu. O gerador de um hospital aqui perto explodiu. Foi como um flash gigante que gravou na mente das pessoas por perto o retrato de tamanho acontecimento. O problema só foi resolvido depois das dez. Depois do relógio parar. Eram seis da noite quando houve a explosão. Quatro horas. Quatro horas para quem tem cada minuto sustentado pela corrente elétrica que corre em seus fios  de máquina. Isso o noticiário não passou.

O fato é que hoje a tempestade é a pior desde que se possa lembrar, mesmo pra esses dias. Começou ontem por volta das dez e meia; no meu relógio – talvez em outros – e perdura até agora. O fato é que eu não consigo dormir. Coberto dos pés a cabeça ainda sinto o frio. O frio me impede de sair do calor das cobertas. Só de imaginar o toque frio do chão  puxando meus pés para a realidade como um lago congelado, um arrepio me passa pela espinha. Com o travesseiro sobre a cabeça não dá pra ver muito além da parede do relógio. E essa é a única imagem que eu tenho.

Eu vejo da cama o relógio na parede em frente, iluminado pela pálida luz do sol que passa timidamente pela fresta da cortina e se esforça por entre densas nuvens num sorriso amarelo, esboço mal feito de esperança. É sob essa luz que eu vejo os meus problemas. Eu vejo as pessoas ao meu redor caídas, frágeis, doentes. Às vezes me vejo assim também. A chuva deixa as pessoas doentes, e o que é a doença senão a fragilidade humana perante os menores dos seres? A chuva nos faz cair e nos destrói até a mais concreta das bases. Vão passando pela mente como através de uma janela embaçada o trabalho mal feito, os estudos inacabados, amores vãos, e as contas para pagar. E eu não posso fazer nada por mim, nem pelas pessoas ao meu redor. Mas o que seria dos problemas se eu pudesse resolvê-los? Até me levantar se tornou um problema. Levantar implica em enfrentar toda essa chuva. Mesmo com todos os problemas do mundo, os meus problemas insistem em querer fazer essa chuva parecer um copo d’água. Mesmo meus problemas teimando em trovejar e chover cá em mim, beber um copo de chuva seria me afogar em meu próprio dilúvio.

Mesmo tendo um teto e eletricidade à disposição eu me sinto desabrigado e sem forças, apático quanto ao mundo, como se eu não pertencesse a ele. Uma vez ouvi de algum idiota qualquer que um relógio parado consegue estar certo pelo menos duas vezes ao dia ou algo do tipo. Será a passividade não uma conseqüência, mas uma preparação para a estagnação total? Se eu morresse agora pelo menos já estaria deitado, será esse o significado?

Continua chovendo. Continua dez e trinta e quatro. Continua tudo onde estava. O que me faz querer levantar. Não é porque as coisas permanecem nos lugares que elas pertençam a eles. Não é vontade de devolver as coisas aos seus lugares de origem, afinal, seria certo? Não é disposição de enfrentar a tempestade cinzenta que me faz – mesmo relutante – encarar o frio da manhã. É que talvez contar as gotas da chuva seja pior que a própria tempestade.

desabafo

Publicado em Uncategorized por nelsonnetto em Maio 3, 2009

“Eu não falo em paixão porque ela é uma palavra piegas e efêmera para mim. Eu poderia dizer que te amo, porque afinal… eu te amo. Mas as coisas não funcionam bem assim. Você me diz que o amor é vulgar. Por que será que o amor é vulgar? Porque não se ama metade das pessoas que diz. Eu queria amar todo mundo, mas eu não amo meus inimigos – que apesar de não os tê-los não dou valor a quem não vou com a cara, o que é difícil, porém não raro. Eu tento não amar pessoas que vão sumir de mim, mas não consigo. Eu queria citar alguém, uma das milhares de frases fodas que existem sobre o amor e que certamente se encaixariam na situação, mas isso aqui só cabe a nós dois e vai além de nós. Acho que amar é querer um ‘bem’ pra alguém que independa do seu ‘bem’, mas como se esse ‘bem’ fosse seu, porque na verdade é seu, afinal, te faz ‘bem’ ver o ser amado ‘bem’… bem, um pouco mais que isso… na verdade muito mais que isso… mas simplesmente por aí…

Eu amo minha família, ou o que eu entendo de família. Meus amigos que parecem muitos, mas não são. Eu amo você… e você me diz ‘e daí?’, as coisas não funcionam bem assim… você sempre pensa em como as coisas funcionam, mas as coisas sempre funcionam de uma forma não-linear-caótica que foge ao seu pensamento e você fica pensando nisso… e eu gosto de te ver pensar, sem querer adivinhar em quê, mas eu acho você linda pensando calada, falando sem pensar, pensando nas palavras, pensando em besteiras, pensando na vida, pensando no nada. No fim das contas eu gosto de te ver. Gosto de você com lentes ou sem. Gosto de você com o cabelo preso com aquele charme só seu ou somente solto. Gosto de te ver tranqüila e gosto também do outro lado, apesar de que eu nunca vi, nem consigo imaginar. Gosto da sua caretice singular. Gosto de cada maneira da mesma maneira. Da sua maneira. Gosto de te ver sorrindo, do seu sorriso. Gosto de você. Mas as coisas não funcionam bem assim…

Então fica tudo do jeito que está.

Um dia sem cor, uma terça-feira. Outro e outro mais na frente. No fim, a semana toda vai ser terça-feira, o ano todo vai ser terça-feira, minha vida será só terça-feira e o céu borrará a cor pra me lembrar de você.”

Então ele larga a faca com o sangue que era a ação de uns instantes atrás ao lado dela.

Ela chora baixo.

Ele se levanta.

Ela implora pela vida que agora foge de si.

Ele sorri.

Ela começa a não sentir mais dor.

Ele enxuga as lágrimas em sua face, manchando-as agora de sangue.

Ela recebe o seu beijo de morte perde o olhar.

Ele vai embora levando seu último suspiro.

ameaça fantasma

Publicado em Uncategorized por nelsonnetto em Abril 3, 2009

Me sinto ameaçado. A partir do momento – esse agora que escrevo pela ameaça do esquecimento – que percebi que a terra é azul por causa da água que é azul por causa do céu, que o mundo é redondo e gira, o açúcar é doce e a vida não tão bela assim. Me senti ameaçado por essa simplicidade nas coisas e a partir de então cada “bom dia” passou a ser recebido com receio e cuidado.

Pensei em quando acordei pela manhã e me senti ameaçado ao abrir os olhos na cama, antes de me levantar, e nem sei se ameaçado por isso. Pensar no que me aguardava no próximo instante até o fim do dia, na mensagem que chegara no celular, até o fim da vida, era uma ameaça constante.

Continuei uma rápida retrospectiva da semana anterior até perceber que pensar no passado seria se sentir ameaçado pelo que já passou. O futuro é muito mais ameaçador do que qualquer coisa. Então deixei ele pra lá, mesmo ele incomodando com flashs de possibilidades pepitantes e ameaçadoras.

Me sinto ameaçado pelos meus sentimentos. Pelos meus sentimentos e pelos sentimentos alheios. Não os sentimentos das pessoas-figurantes nas filas dos bancos ou no ponto de ônibus, mas das pessoas que estão suficientemente perto de mim para conseguir acertar uma pedrada. Ameaçado por pessoas que penso não serem capazes de me fazer mal. Ameaçado pelo bem que elas fazem. A ameaça é o bem maior que elas podem fazer e podem não fazer pra mim.

Me sinto ameaçado por um dia de sol. Não pelo calor, mas pela simples possibilidade de que irá anoitecer. É como se sentir ameaçado pela chuva. Não por ela molhar, mas pela chance de pegar uma gripe.

A ameaça é o fantasma que me persegue. Um fantasma vivo pertencente a várias almas de pessoas que estão ligadas a mim apenas pelo fato de existirem. Um fantasma. Pessoas próximas, ameaças próximas, meu fantasma.

Sinto-me ameaçado pelos meus amores.

Sinto-me ameaçado pelos meus amigos.

Sinto muito ter que ser assim.