a vida em preto e branco
Xeque.
Lá se vai a minha última torre. Agora só me restam os peões. Se não há vantagem em dar o primeiro passo ou esperar o movimento do outro, porque começar um jogo onde a vantagem será do oponente? Vai saber. Talvez o ímpeto trazido pela falsa confiança que brilha nos olhos que nos iludem com tantas verdades falíveis, ou apenas a vontade de ganhar ou quem sabe até o prazer de arriscar.
Bem… eu comecei. Tento não me recordar por qual motivo agora, mas o fato é que fiquei com as peças brancas. E eu era peão. Era peão até alguém achar que eu deveria ser rei. Qual o futuro de um rei sem reino e sem posses? Um rei que caminha sem alma? Como pode ser sustentado um cargo vitalício e hereditário por um ser sem vida e sem cria? Renunciar? Agora é tarde para esse tipo de atitude. Já sou desacreditado pelos outros, não mereço isso de mim.
Além dos peões, existe um bispo. Mas ele não ousa andar pelo lado negro. Enquanto do outro lado as peças pretas são quase todas. O rei ainda não saiu do lugar – nem acredito que o vá fazer – desde que o massacre começou. Enquanto a Rainha me arrancou quase tudo. Ela só perdeu uma torre (logo no início), quase todos os peões (quem se importa com eles?), e o bispo do lado branco. Esperanças? Pretendo sacrificar os meus peões para me proteger e resgatar minha rainha. Parece simples, objetivo.
Não dá.
Não posso deixar que os peões sirvam apenas de peões para os meus objetivos. Isso é ser muito canalha e a única pessoa com quem consigo ser canalha é comigo mesmo. Talvez esse seja o problema. Sacrifícios devem ser feitos em nome da paz e da felicidade, mas não posso deixar que o sacrifício dos outros seja o meu alimento. Deve ser por isso que não vejo paz no mundo, nem felicidade, só o amor. O amor é tudo o que eu vejo quando eu não vejo. É a dor que eu sinto. É o que me faz ser mais idiota.
Pronto. Eis meu movimento. Logo em seguida o movimento das peças pretas acontece como uma resposta imediata. Perco meu bispo e fico sem ação ou resposta de novo. Os intervalos entre meus movimentos demoram cada vez mais e mais. Defender não mais adianta, e já não há mais como atacar. Isso me faz pensar apenas em como sobreviver. Se eu me for, o jogo acaba; se um peão se for, o jogo acaba para ele, mas continua porque sempre existem outros peões – e ainda que não exista nenhum o jogo há de continuar! Parece óbvio. Mas se cada peão for rei de si, de que me vale governar por todos? Sempre alguém que nem de si mesmo sabe.
Não adianta mais. Faço os meus movimentos a caminho de uma nova morte – sempre seguido de um movimento da parte negra – e isso nem me faz sentir tão mal. Pode ser um novo começo. Então eu me movimento em busca do fim. E a resposta vem imediata, só que eu demoro a entender. Eu não estou em xeque, mas pra onde quer que eu me mova a morte é como a noite após o dia. Não somos iguais e ninguém pode mais agir. O jogo termina, mas não acaba. E isto não é um empate nem uma trégua. Piedade? E o diabo é que eu não posso mais com isso.
piedade é para os fracos.
o mal menor para o bem maior. é assim que a vida funciona. só que a gente não funciona como a vida. a gente não acredita que o mal menor possa, de forma alguma, fazer o bem maior. porque, afinal de contas, como o mal pode fazer bem?
quando cada um é o rei de si não há reinos que se sustentem tentando conquistar todos. quando todos são um… fica-se mais poderoso.
texto foda man, foda foda.
força e honra
” Ela só perdeu uma torre (logo no início), quase todos os peões (quem se importa com eles?).”
MUITO BOM! adorei esse jogo com o xadrez! adorei muito esse texto!
:* Zito!
“Não somos iguais e ninguém pode mais agir.”
puutss, nersu! ameeii!! de verdade verdadeira ;D
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