a pior metade

Alegria Alegria!

Publicado em Uncategorized por nelsonnetto em Agosto 27, 2008

 

Alegria tenta sempre ser feliz. Isso sem preocupações, pois ela não as tem. Ela dá bom dia a todos. Até quem não conhece bem, ela dá um tchauzinho nem que seja de longe. Ela não sabe bem o que quer. Parece ser falsa, mas longe disso. Ela é até um tanto educada. Pede licença quando chega, e não demorar a passar. Ela quer conhecer o mundo e todo mundo. Ela não sabe bem onde quer ficar. Na verdade ela não quer ficar. E quando ela vai embora tudo fica como antes… não. Nada pode ser igual. Fica pior.

Daí começa-se a achar que ela não presta e desconfiam dela sempre, achando até que ela não seja verdadeira. Talvez porque ela sempre chega com cara de quem vai morar. Mas isso nunca acontece.

E porque ninguém simplesmente fecha a porta e “alegria nunca mais?” Alguns até o fazem e morrem de arrependimento, de ver o que realmente é, de desgosto ou de catarro. Mas ela consegue amolecer o coração dos homens, se entende muito bem com as mulheres e cativa totalmente as crianças. As crianças. Ela passa mais tempo com as crianças porque elas parecem ter mais tempo pra ela. Quanto a isso Alegria parece ser bastante afetada, porque as crianças quando crescem, querem Felicidade.

Essa sim é boa, estável, fiel. Acha tudo bonito e ama tudo de verdade. Essa sim vai vir pra ficar, e não ser apenas uma visita casual. Ela vai se casar com todos, deitar na cama com todos, ter filhos de todos, ir ao supermercado fazer compras com todos, levar café da manhã na cama de todos aos domingos; e os domingos serão menos domingos por estarem com ela. E o céu nunca vai escurecer, a chuva só vai cair no momento certo, o chocolate vai ser mais doce, a coca-cola mais gelada, os sonhos – que antes só eram mais bonitos – agora vão ser mais reais, mais possíveis.

E dessa esperança, de tanto esperar por Felicidade, Alegria é jogada pra escanteio. E aí ninguém se dá conta que Alegria não vai embora porque quer, ela sempre é esquecida no canto e sua voz abafada por quem não tem nada o que fazer e pouco a falar. Mesmo se Alegria falasse, quem a entenderia? Quem sabe o que ela tem a dizer? Se alguém soubesse o que ela tem a dizer e entendesse o que ela diz, viveriam um tanto melhor. Mas ninguém se importa e Alegria vai embora.

Não que Felicidade seja inexistente e nós devêssemos nos preocupar em “se virar com o que temos”, aprisionando Alegria na despensa e consumindo-a como se ela fosse uma barra de cereal. Alegria não se prende, ela sabe bem fugir. E o faz tão languidamente – como um espreguiçar ou um bocejo – que só se dá conta dela quando já se foi. E quando o mundo não consegue ter Alegria ou encontrar Felicidade, eles vasculham e destroem todos os lugares, pessoas suspeitas (chegadas da Alegria), a vida dos outros, enfim. E Alegria, diferente de todos, não procura Felicidade. Procura diversão.

Então se Felicidade – vendo todo esse caos que o homem causa em sua procura – falasse uma frase ao mundo inteiro, que cada um enfim entendesse, seria:

- Alegria, meu bem, eu tô chegando!