monólogo
- Sabe quando você acha que aquele é o momento certo, e que se ele passar você nunca vai ter de novo um igual? E que mesmo que exista outra chance, não vai ser a mesma coisa?
- Sei.
- E sabe quando ele passa e você tem certeza que era aquele o momento?
-…
- Pois é… E assim tudo acabou.
- Mas nunca acaba.
- É. Deve ser porque a guerra só acaba pra quem vence.
- Guerra?
- Loucura minha.
-…
- Você já sentiu ter errado em fazer a coisa certa?
- Eu já. Vive acontecendo. E eu me sinto um idiota por não querer acertar errando.
- Acertar errando?
- É. Se eu erro fazendo o certo, acho que deveria tentar acertar errando… Pra ver se funciona.
- Bobagem. Qual a garantia disso dar certo?
- Que garantia? Garantia de quê?! Qual garantia que se tem nessa vida além da morte?
-…
- Viu? Isso de garantia é apenas receio de viver.
- Quem garante?
- Tá vendo?! Essa coisa de querer ter certeza de tudo é medo de tentar. Se privar pra não perder é perder sempre a cada dia um novo porvir. Se você poupa com medo de perder, você não perde, mas nunca ganha.
- E por que então você não quer “acertar errando”?
-…
- O medo é uma merda mesmo.
- Bah! Merda mesmo é o amor.
- Não! O Amor é maravilhoso. O problema mesmo está em amar.
-…?
- Tipo. O amor não vai deixar de ser Amor só por a gente não conseguir amar e ser amado e ser completo com isso.
- Como é?
- Não sei explicar direito, mas pensa naquele poema do Drummond*, que um ama outro que ama outro e assim vai. Todo mundo ama alguém, o amor existe e tal, mas acaba que ninguém ama ninguém. Adianta?
- Acho que entendi.
- Pois é…
- Só acho que isso não acaba.
- Hã?
- Você disse “acaba que ninguém ama ninguém”, eu discordo. Se existe amor, ele não acaba.
- Sim.
- Mas você disse que acabava.
- Mas eu não quis dizer que acabava de “acabar”, era mais tipo que a história terminava daquele jeito.
- Mas a história pode acabar. O amor não.
- Eu sei! Já entendi! Me expressei mal.
- Isso é mal de que ama.
- Bora acabar com isso?
- Acabar? Mas eu já te falei que…
- Acabar com essa conversinha! Além do que eu já disse isso.
- Já?
- Foi. Não sei como ainda agüento…
-…
-…
- É… Isso de amar acaba com a pessoa…
- Cara, não acaba.
- QUE SEJA! Não é acabar, mas vai consumindo pouco a pouco.
- Como se eu não soubesse.
- E eu que achei que era um pecado não amar alguém como Ela.
- Pecado deve ser amar alguém assim.
- Pecado é tentar esquecer.
- É. Mas inútil tentar porque não adianta. Quem ama não esquece.
- E se faz o quê com o amor?
- Hã?
- Se não acaba, não morre nem se esquece… O que se faz?
- Sufoca.
mas lembre-se man, que na quadrilha tinha alguém que não amava ninguém.
Melhor seguir o que o Guia diz sobre o amor: “Evite a todo custo.” Isso sim é sabedoria.
verdade, man.
havia alguém que não amava ninguém e se deu bem.
mas se deu bem com alguém que não tinha nada haver com a história.
você prefere amar o alguém que você quer ou tentar a sorte com alguém que até então é ninguém e não tem nada haver?
acho que todos preferem amar quem quer, mas no fim se contenta de ser amado por alguém que nao tinha nada haver com a história.
é.
sorria, estamos vivendo.
Eu sempre me senti o J. Pinto Fernandes.
E, sim, sufoca.
=***
“Essa coisa de querer ter certeza de tudo é medo de tentar. Se privar pra não perder é perder sempre a cada dia um novo porvir. Se você poupa com medo de perder, você não perde, mas nunca ganha.”
Ui!
a tua cara… engraçado, profundo e até lógico