a pior metade

a palavra é fascista?

Publicado em cartas por nelsonnetto em Março 20, 2009

Bem,

Outro dia a voz feminina de L me falou:

“A palavra é fascista.”

Será?

Ouvi, entendi, discordei, resolvi deixar pra lá. Meu cérebro estava à beira de um colapso então resolvi não pensar muito no mundo externo. Minha mente chamou a audição e a atenção – na intenção de me livrar de tais filosofias – para longe.

Depois de um dia ou dois abri a janela. Dava para ver noite escura de lá. E de lá eu ouvi a mesma frase em letras brancas como brilho de estrelas.

“A palavra é fascista.”

A palavra nos prende ao seu significado? A palavra nos limita? A palavra nos obriga a falar? Poder ser. Mas vejo isso como o feitiço que se volta contra o feiticeiro.

Lá na idade da pedra, antes do nascimento de Cristo, Barack Obama, Platão, Monica Mattos o raio que o parta, o alfabeto não existia. Não existia letra nem palavra escrita. Mas o homem existia. Existia e se comunicava. Talvez ele não tivesse um nome e pudesse ser qualquer um (entendam bem ou mal). Ou talvez tivesse um nome que significasse exatamente o que ele é, alheio a qualquer convenção vocabular.

Um cara que escreve bem sobre isso é Arnaldo Antunes. Ele diz que “a origem da poesia se confunde com a origem da própria linguagem”. Que a linguagem verbal é puramente utilitária podando toda riqueza da palavra. A poesia então aparece para devolver a palavra o que é dela. O ser. Imagina se separassem seu Ser de você num mero verbo de “ligação”?

O homem atribui funções a palavra de modo que ela não é mais o que diz, mas o que falamos em determinado contexto. Cabe a poesia dar voz à palavra. Fazer que a escutemos nela mesma. Não foram as palavras que decidiram morar em comunidade e criaram o dicionário. Se um olhar diz um tanto, se um breve momento de olhos fechados pode dizer mais, por que falar? Porque ACHAMOS necessário ter de falar. Se limitar ao pobre “eu te amo”. Pobre porque já o gastaram em quase todo o seu valor. E o Amor? Seria este fascista por nos prender a uma só pessoa? Fascista é o homem que não sabe amar e se limita a sentimentos mesquinhos pelo medo.

O homem que criou utilidades para a palavra limitando  seu significado. O homem criou sua própria cela. E Pierce reforça essa prisão com os grilhões da semiótica, que potencializa a força da palavra em dissociação de significante e significado.

O homem é ditador do seu próprio sistema e o poeta libertário. O homem é o limite da alma. A poesia é a chave.

7 Respostas

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  1. Ludmila disse, em Março 20, 2009 às 11:54 am

    É como se a palavra fosse o regime totalitário e a poesia, a revolução. Revolução no sentido de quebrar os grilhões que acorrentam a palavra à sua limitação. Poesia é quebrar regras, é ir contra, é, simplesmente, ver o pôr-do-sol… Tens toda a razão. :)

    “Fascista é o homem que não sabe amar e se limita a sentimentos mesquinhos pelo medo.”

    Posso concordar com você?
    E posso te mandar aonde o sol não bate por esse texto fantástico? n_n

    :*

  2. JH disse, em Março 20, 2009 às 9:24 pm

    Oia, gostaria de lhe dizer um enorme e sincero “vá tomar no cú”.

    Além de tudo que já foi dito, acrescento:

    Como poderia a palavra ser facista se pessoas como você a dominam tão bem?

    chupessamanga.
    F&H!

  3. lnatesta disse, em Março 20, 2009 às 9:31 pm

    tudoédedeus. \o/

  4. Marden disse, em Março 21, 2009 às 2:04 am

    É a velha questão das ferramentas.
    Somos nós que a usamos ou ela que nos usa ?
    No fim não importa.

  5. Sarah disse, em Março 21, 2009 às 6:06 pm

    “Talvez ele não tivesse um nome e pudesse ser qualquer um (entendam bem ou mal).”
    vai ver ele era um número. :x
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    acrediito muito no poder da palavra mas não acredito, e não quero acreditar, que ela nos prende. no fim é o homem e que deixa tudo assim… confuso! :/
    viva a poesia. ela, de fato é a chave.:p
    :*:*

  6. Sarah disse, em Março 21, 2009 às 6:09 pm

    eu acredito muuito no poder da palavra. e no final é o homem que sempre complica tudo. esse tal de Pierce aí eu nem comento! (meu 1° ano de facul) :x

    a poesia é, de fato, a chave.
    adorei o texto. :*!

  7. pideto disse, em Março 30, 2009 às 6:26 am

    o homem cria palavras, dá sentido a essas palavras, diz o que elas são, associa sentimentos a elas, o homem sente o que as palavras dizem, o homem esquece palavras que o homem criou porque elas já não parecem dizer a ele tudo o que um dia disse para outro homem e então o homem resolve criar uma nova palavra para alguma outra coisa.
    o homem resolve juntar palavras para falar com outros homens, e outros homens entendem outras palavras no lugar das palavras ditas. o problema nunca foram as palavras, e isso está claro para qualquer um com dois olhos que possam ver (ou até com 1 só, mas sem o senso de profundidade), o problema são os homens.

    somos nós. e nós damos o poder a nomes, o poder a palavras, o poder a tudo. nós que deixamos o poder escapar de nós mesmos, sabe.

    e isso daria um post, se não fosse meu comentário sincero a você, man.

    força e honra.

    porque o que temos aí não são só palavras e nunca foram.


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