coisas frágeis
- Por que você faz isso? – Berenice perguntou com a voz trêmula, tentando entender a cena com a qual acabara de se deparar. A cozinha toda suja de sangue, com grãos, biscoitos e condimentos espalhados pelo chão. Os frascos que os guardavam estavam manchados com as marcas das mãos ensangüentadas. A manga direita da camisa, apesar de desabotoada, tinha sangue no punho arregaçado e em todo o antebraço. O suor encharcava o que da camisa não era mais vermelho. Ele se destacava na cozinha de tons pastéis e suavemente coloridos.
- Porque é preciso – ele responde com as mãos sujas e nervosas terminando de fechar um frasco que estava na mesma cadeira em que ele estava sentado. Segurava o frasco entre as pernas. A mão livre o fechava, na outra, uma faca com sangue ainda recente. Tudo naquele lugar era muito recente.
- Você podia ter pedido minha ajuda – havia um tom de culpa na voz – se você tivesse pedido, eu faria alguma coisa… qualquer coisa…
- Você não faria – ele interrompe com pesar – nem há nada que você pudesse fazer. Não há nada que ninguém pudesse fazer aqui. – Contorna notando que ela tentou se mostrar contrariada. – Era algo que tinha que ser feito só por mim. Não suportaria que alguém me ajudasse a me livrar disso – ele fala agora jogando a faca para longe e apanhando uma linha e agulha que estavam previamente preparadas ao alcance de sua mão. Ele arfa de dor e põe a mão sobre a barriga. Ela percebe que existe um corte e pela quantidade de sangue deve ser profundo.
- Ainda acho que você deveria ter alguém ao seu lado num momento desses… – a voz dela falha ao ver que ele começou a costurar a sua própria barriga. Ele começa a gemer de dor e quase gritar. Ela tenta se aproximar dele.
- JÁ DISSE QUE NÃO! – Ele grita – se você me ajudar agora, a próxima a me fazer passar por tudo isso será você! Será que não entende? – ele tinha um olhar que misturava ódio e complacência.
Na verdade não era ódio propriamente dito. Era apenas dor. Mas não era uma dor qualquer. Era como se aquela agulha costurasse a sua alma. Era como se aquela linha atasse algo mais além que sua pele, carne, e chegasse aos seus sentimentos, emoções, desejos, todos reverberando dentro de si, os furasse com a agulha e depois os prendesse na linha com resignação e amor próprio. Ela não o entendera tão profundamente, mas resolveu não contrariar. Havia uma grande garrafa de álcool quase vazia e panos limpos ao lado, mas ela não esboçou tentativa nenhuma de usá-los para limpar o suor e o sangue, pois ela não sentia essa liberdade, não naquele momento.
Ela agora virou-se para os frascos de condimentos que ele outrora havia esvaziado: – Sabe Berenice – ele dizia agora com resiliência – os sentimentos falam e calam – disse ao terminar o último ponto e cortar a linha nas mãos. – Eles berram, hibernam, emudecem – ela chegou mais perto dos frascos, tomou um em sua mão e começou a limpar o vidro. – de um jeito ou de outro estão sempre lá. Mas as pessoas, meu bem, elas mudam.
E foi o que ele disse enquanto Berenice fintava a borboleta azul, agora morta imersa em etanol.