a pior metade

pandora

Publicado em Uncategorized por nelsonnetto em Agosto 26, 2009

Garota dona do mundo andava feliz. Não que ela realmente fosse a dona do mundo, mas era assim que ela se sentia. Era dona apenas de tudo que sempre quis e isso a fizera se tornar assim. Era pouco antes dona de somente algumas dessas coisas, ainda agora encontrara todo o resto junto. Queria para si, mas essas coisas não se encontram todas juntas jogadas por aí. Elas tinham dono.

Garota dona do mundo vira em tal rapaz tudo o que ela mais queria (até porque as outras coisas que ela queria já as tinha, logo, não as queria tanto assim), mas garota dona do mundo não queria tal rapaz. Na verdade queria, mas mais pelo que ele tinha do que propriamente pelo o que ele era. Não, não era interesse. Bem, era interesse sim, mas não um interesse material, porque o que ela queria nele fazia parte dele, não havia compra ou divórcio que trouxesse isso para ela, era algo que fazia dele ele. Então você deve estar se dizendo (ou não) “se ela gosta do que faz dele ele, ela gosta dele!”, mas a questão é que o que ela gosta nele, o que ela quer nele, ela poderia ter encontrado em qualquer um, o que faz de tal rapaz um qualquer – como se diz, substituível, assim como todas as pessoas – pensava garota dona do mundo, seja isso bom ou não. Se ela tivesse encontrado tais coisas em outro alguém, qualquer um seria tal e tal rapaz não seria ninguém. É mais ou menos isso.

Garota dona do mundo se dirigiu a tal rapaz, alegando que ele a faria completa, feliz. Tal rapaz disse a ela que isso era o que ele mais queria. Então os dois se amancebaram em um lugar qualquer e garota dona do mundo se preencheu de tudo que sempre quis. Estava realizada.

Nada dura para sempre. Nem a eternidade conheceu o pra sempre, sendo o futuro apenas uma abstração, um sonho dissolvido a cada instante pelo presente. Tal rapaz estava se sentindo mal. Se sentia mal porque garota dona do mundo queria ser dona de coisas que ele até tinha, mas não podia dar para não deixar de ser. Tal rapaz sentia que se doava cada vez mais e garota dona do mundo não abria mão do que tinha, nem do que era, para ser com ele. Era como se ela fechasse em si, trancando-se em uma caixa junto à suas glórias exclusivas – e o excluindo disso – fazendo tal rapaz se sentir sugado. Tal rapaz estava se perdendo num mundo não seu. Quase não se reconhecia mais.

Tal rapaz decidiu ir embora. Declarou para garota dona do mundo que era dono de si – ou pelo menos era o que ele queria ser – e ela o tomou como sua propriedade, de modo que suas particularidades eram algo ordinário num universo que pertencia somente a ela. Garota dona do mundo esbravejou, ele não podia ir embora, não podia privá-la dele, tal rapaz disse que isso era egoísmo, ela chorava nervosa. Ele queria ser com ela, viver no mundo dela. Ela queria tê-lo para sí, possuí-lo. Ele queria ser deus com ela, ter um lugar nesse Olimpo. Ela queria ele venerando-a como cego fiel, pois ela era absoluta. Onde os dois queriam só ela podia ter.

Tal rapaz foi embora em busca de algo seu e garota dona do mundo acabou por ficar sem o que mais prezava. Percebeu que sem isso, o que lhe ficou já não tinha valor, eram sobras, não era nada. Percebeu que ilusão é nesse mundo querer ser dono de alguém, via agora em tal rapaz indo embora alguém, mas quando olhava para si não se reconhecia mais. O seu mundo desmoronou. Lugar qualquer era agora lugar nenhum e o que sobrou para ela foi uma semente verde, que ela plantou – no que já fora reino e castelo e virou um imenso deserto de sal – e esperou seus rebentos.

10 Respostas

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  1. v. disse, em Agosto 26, 2009 às 6:40 pm

    “Nada dura para sempre. Nem a eternidade conheceu o pra sempre, sendo o futuro apenas uma abstração, um sonho dissolvido a cada instante pelo presente.”
    fodafodafodafodafodafoda
    “Lugar qualquer era agora lugar nenhum”

    os erros de querer ser dono de alguém… os erros de se entregar a alguém que só quer ser dono e de forma alguma se doar, os erros dos relacionamentos…

    muito bom o texto, man. acho foda como você usa umas palavras que me atingem de uma maneira que eu paro e penso: putamerda, queria lembrar de coisas assim quando estou escrevendo. tipo em “Então os dois se amancebaram em um lugar qualquer e garota dona do mundo se preencheu de tudo que sempre quis.” amancebar-se, véi… acho isso foda, mas eu nunca lembraria.

    FH, man.

  2. Marden disse, em Agosto 27, 2009 às 2:03 am

    Bom, man, apesar de pedir um bocado a mais de aprofundamento.
    E (incrivelmente eu te dizendo isso) tem uns erros de potuguês.
    Mas a citação de Raimundos foi otima.

  3. ritamoura disse, em Agosto 27, 2009 às 5:33 am

    isso ae é uma mistura de clarice lispector com um “discutir relação”, menino, ela volta pra ele, certeza plena, eles não vão encontrar nada tão intenso quanto tinham, e só, simplesmente só essa certeza vai uni-los novamente, ela vai ser dona dele, até um limite, e ele que a tem no pedestal será servo até um limite, porém se caso remoto para esse caso, se meu caro nelson, não existir a volta, ele vai superar antes dela!

    *li, e indiquei pra uma amiga, q tava precisando dessas palavras. rs

    Ei letrado, tais rajaando hein.
    =)

  4. Tay disse, em Agosto 27, 2009 às 1:40 pm

    Meu veterano escreve bem demais *-*

  5. Lud disse, em Agosto 29, 2009 às 6:11 am

    FILHO DA PUTA. GOSTO DE VOCÊ NÃO.

    “Nada dura para sempre. Nem a eternidade conheceu o pra sempre, sendo o futuro apenas uma abstração, um sonho dissolvido a cada instante pelo presente.”

    Como você se atreve a escrever de uma forma tão sutil e delicadamente verdadeira? Não sei explicar. Os sentimentos do texto não são assim tão incomuns… Posso arriscar dizer que talvez tenha sentido algo parecido ao que garota dona do mundo sentiu em relação ao rapaz… Minha sorte é que eu me dei conta do erro e tratei de me ocupar com outros sentimentos. O sentimento não é raro, mas você é tão hábil na seleção das palavras, tão simples e tão completo, como quem tece uma renda… Que raivaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! Um dia eu terei ideias assim. Um dia. Me aguarde!

    :**

  6. Tony disse, em Agosto 29, 2009 às 6:54 am

    ninguem é dono de ninguem. ninguem possui ninguem. o melhor amor é o amor livre… engraçado q quando mais se confia, mais livre pode ser, e mais melhor de bom ainda pode ficar. fico incrivel com quem diz que confia, mas vive ligando, querendo saber onde ta, tentando controlar. porra! num confia? entao pra que tudo isso? quem confia se garante. as pessoas nao conhecem os reais significados das palavras e falam mta, mas mta coisa a esmo e em vão…

    enfim, nada a ver esse meu comentario, mas, foi o q deu vontade de falar.

    flw, man.

  7. Larissa disse, em Setembro 1, 2009 às 1:52 am

    É complicado o querer pra si. Desse jeito. Palavras intrigantes. :)

  8. Sarah Mendes disse, em Setembro 3, 2009 às 2:22 am

    Pandora. Esse texto me ganhou no título. ai ai, Pandora e sua caixa.
    Já te disse que A caixa de Pandora é o mito que mais me encanta na mitologia grega??

    “Garota dona do mundo se dirigiu a tal rapaz, alegando que ele a faria completa, feliz.”
    é a maior ilusão que temos… a de que alguém vai completar a gente!

    :*!

  9. Lah disse, em Setembro 21, 2009 às 8:52 pm

    “Tal rapaz foi embora em busca de algo seu e garota dona do mundo acabou por ficar sem o que mais prezava. Percebeu que sem isso, o que lhe ficou já não tinha valor, eram sobras, não era nada. Percebeu que ilusão é nesse mundo querer ser dono de alguém, via agora em tal rapaz indo embora alguém, mas quando olhava para si não se reconhecia mais.”

    me fez lembrar de um trocinho que eu escrevi há milhooooes de anos e que quase não encontrava agora:

    “Que saia de mim a dor de não conhecer-me
    E que o véu se esvaneça diante de tua face,
    através do teu reconhecimento eu me veja:
    despida, diante de mim mesma;
    uma alma sem encantos, desejos, ou nada.”

    porque a gente só se reconhece a partir do olhar de quem nos compreenda, eu penso assim. e se não há ninguém pra nos ajudar no reconhecimento, falta o sentido de encontrar o “eu”. porque acho que o “eu” só existe por existir todo o resto. se não houvesse mais nada ninguém precisaria do “eu” indiviualizador, né? não teria uso ser diferente, ser você em sua plenitude se não houvesse um outro que percebesse a diferença, as idiossincrasias do “eu” oposto.

    =*

  10. nelsonnetto disse, em Setembro 22, 2009 às 2:11 am

    uau!


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