a pior metade

brussel

Publicado em Uncategorized por nelsonnetto em abril 7, 2010

Faz muito tempo. Mais. Parece uma eternidade. Muito tempo que a gente se viu, que a gente se teve. Você sempre levando os olhares dos outros, cativando os homens com sua beleza e as mulheres com sua força. Ou ao contrário, ou os dois.

Agora que eu estou aqui de novo, é como se eu fosse invisível nesse lugar. As pessoas nem me notam mais. Não que eu me importe e você sabe que eu não me importo. São poucas as coisas que eu penso serem importantes.

Eu gostava de ir a praça com você. Apenas para olhar. Antes ela parecia um lugar perfeito, como se existissem lugares perfeitos e ainda como se, se lugares perfeitos existissem, eles pudessem por alguma razão ser praças. Hoje eu reparo no monte de lixo no chão e bosta de cachorro na grama maltratada, nessa cidade cinza de gente porca. O barulho do trânsito só me faz atravessar a praça mais depressa. Até a fonte secou. Nem lembro se a fonte um dia funcionou, mas parecia que ela nunca ia parar de jorrar água quando a gente estava lá. O cheiro de merda não existia, o que havia era um cheiro bom. Não se ouvia barulho de carros nem som nenhum. A grama não era maltratada, era viva. E você era a vida. Você era o som dos pássaros, o silêncio e a música que tocava. Você era o perfume e as cores do lugar.

Foi lá que você me conquistou, como conquista a todas as pessoas ao redor. Ninguém gostava de mim, nem me suportavam, pra falar a verdade. Mas o seu desejo é o meu desejo e o desejo de todos. Eu cheguei calado, sem confiar em ninguém. Todos respeitavam, e ainda respeitam você. Eles me aceitaram contagiados pela sua vontade. Se não fosse você talvez essas pessoas nem me dissessem bom dia. Não foi das melhores coisas, mas facilitou o convívio por aqui. Sua aprovação valia o aval de todos. Por pouco tempo, claro.

Mas era mais fácil chegar na praça e esperar. Você aparecia com um vestido. Sempre um vestido. E a gente namorava na praça. Nunca soube se era por causa dos seus pais mesmo ou por causa de você, mas na época não importava. Foi uma semana. Todos os dias na praça, com você. Sentindo seu rosto, seu gosto, sua boca. Tinha um gosto de fruta, mas de uma que eu nunca achei em canto nenhum. E o seu olhar. Era somente para mim. Como se não houvesse mais nada. Era uma mania estranha, mas que eu gostava demais.

No último dia, sábado, foi tudo como havia sido. Eu esperando você na praça. Sempre chegava primeiro. Você vinha no seu vestido deliciante. Mas naquele dia não havia ninguém em casa. Você me chamou pra subir, me levou pela mão. E aquele lance de escadas era como a distância da terra para o céu, não porque demorou para acabar, mas cada degrau era mais perto do paraíso. Foi lá que aconteceu a entrega. Não a sua, a minha. E você foi o anjo que me levou e que me fez anjo também. O seu olhar me fez sentir a Glória, voar. Naquele dia não senti mais o chão. Me senti invencível. E você, foi tudo.

Nada do que não seja hoje. Mas hoje é apenas um tudo que eu consigo lembrar. Porque depois daquele dia eu nunca mais te vi. Você se mudou, sumiu, morreu. Eu não sei de mais nada de você. As pessoas que parecem ter se esquecido de mim, se esqueceram de você também. Mas eu não esqueci. Certas coisas não se consegue simplesmente esquecer. É estranho como parece tanto tempo. Como parecem séculos. Pois está fazendo um ano e meio.

6 Respostas

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  1. v. disse, em abril 7, 2010 às 1:48 am

    muito bom, man. sensível sem ser piegas. destaco o terceiro parágrafo inteiro. muito bom isso de ela ser a vida logo depois de descrever como era a vida ao redor.
    “E aquele lance de escadas era como a distância da terra para o céu” muito bom isso. do tipo muito foda.
    volte a escrever, man. preciso de inspiração e você e o marden são bons exemplos.
    FH

  2. Marden disse, em abril 7, 2010 às 2:02 am

    Fodão,man!

    As descrições do ambiente e da relação com as pessoas ficou fodastica. E o paragrafo do lance das escadas foi sensacional.

    Voltasse em grande estilo,man!

  3. Lah disse, em abril 9, 2010 às 1:55 am

    amei o texto. muito.
    tem coisas, sabe, que a gente carrega por todos os anos. descobri isso um dia desses. só não consigo decidir se é bom ou ruim.

    saudades, chato!
    ;*

  4. Tony disse, em abril 12, 2010 às 10:53 pm

    Estou a uns 15 minutos lendo e lendo e lendo de novo… e não consigo pensar em algo pra comentar. esse texto me atingiu de uma forma estranha demais. e me fez pensar nao só nele em si, como fez minha mente sair viajando e me levando a outros lugares e outras pessoas. me fez ir longe. quase que como uma reflexão da vida. sem exagero nenhum.

    num certo ponto, fez até mal. e fez bem tambem, em outros. nao por ser foda (e é foda foda), nao por ter ficado mto bonito, real… sensivel, como disse o pv. mas por ser como um tapa na cara em relaçao ao que é importante ou deixa de ser. e eu nao consigo chegar a uma conclusao do que é importante.

    porra.

  5. Vevel disse, em abril 17, 2010 às 3:06 am

    muito, muito, muito bom mesmo meu amigo!
    fiquei impressionada…
    tava com saudade de ler seus textos!
    bju

  6. Lud disse, em maio 31, 2010 às 2:08 pm

    vc é minha eterna inveja literária, sabia? :) inveja literária do tipo boa. só pra constar.
    as figuras que os meninos destacaram foram as mesmas que me saltaram aos olhos. nem vale repetir, o que eu queria dizer já foi dito. no mais, não nos abandone por muito tempo… vc é uma inspiração e tanto pra escrever! :) )

    :*


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