Alegria Alegria!

 

Alegria tenta sempre ser feliz. Isso sem preocupações, pois ela não as tem. Ela dá bom dia a todos. Até quem não conhece bem, ela dá um tchauzinho nem que seja de longe. Ela não sabe bem o que quer. Parece ser falsa, mas longe disso. Ela é até um tanto educada. Pede licença quando chega, e não demorar a passar. Ela quer conhecer o mundo e todo mundo. Ela não sabe bem onde quer ficar. Na verdade ela não quer ficar. E quando ela vai embora tudo fica como antes… não. Nada pode ser igual. Fica pior.

Daí começa-se a achar que ela não presta e desconfiam dela sempre, achando até que ela não seja verdadeira. Talvez porque ela sempre chega com cara de quem vai morar. Mas isso nunca acontece.

E porque ninguém simplesmente fecha a porta e “alegria nunca mais?” Alguns até o fazem e morrem de arrependimento, de ver o que realmente é, de desgosto ou de catarro. Mas ela consegue amolecer o coração dos homens, se entende muito bem com as mulheres e cativa totalmente as crianças. As crianças. Ela passa mais tempo com as crianças porque elas parecem ter mais tempo pra ela. Quanto a isso Alegria parece ser bastante afetada, porque as crianças quando crescem, querem Felicidade.

Essa sim é boa, estável, fiel. Acha tudo bonito e ama tudo de verdade. Essa sim vai vir pra ficar, e não ser apenas uma visita casual. Ela vai se casar com todos, deitar na cama com todos, ter filhos de todos, ir ao supermercado fazer compras com todos, levar café da manhã na cama de todos aos domingos; e os domingos serão menos domingos por estarem com ela. E o céu nunca vai escurecer, a chuva só vai cair no momento certo, o chocolate vai ser mais doce, a coca-cola mais gelada, os sonhos – que antes só eram mais bonitos – agora vão ser mais reais, mais possíveis.

E dessa esperança, de tanto esperar por Felicidade, Alegria é jogada pra escanteio. E aí ninguém se dá conta que Alegria não vai embora porque quer, ela sempre é esquecida no canto e sua voz abafada por quem não tem nada o que fazer e pouco a falar. Mesmo se Alegria falasse, quem a entenderia? Quem sabe o que ela tem a dizer? Se alguém soubesse o que ela tem a dizer e entendesse o que ela diz, viveriam um tanto melhor. Mas ninguém se importa e Alegria vai embora.

Não que Felicidade seja inexistente e nós devêssemos nos preocupar em “se virar com o que temos”, aprisionando Alegria na despensa e consumindo-a como se ela fosse uma barra de cereal. Alegria não se prende, ela sabe bem fugir. E o faz tão languidamente – como um espreguiçar ou um bocejo – que só se dá conta dela quando já se foi. E quando o mundo não consegue ter Alegria ou encontrar Felicidade, eles vasculham e destroem todos os lugares, pessoas suspeitas (chegadas da Alegria), a vida dos outros, enfim. E Alegria, diferente de todos, não procura Felicidade. Procura diversão.

Então se Felicidade – vendo todo esse caos que o homem causa em sua procura – falasse uma frase ao mundo inteiro, que cada um enfim entendesse, seria:

– Alegria, meu bem, eu tô chegando!

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a vida em preto e branco

Xeque.

Lá se vai a minha última torre. Agora só me restam os peões. Se não há vantagem em dar o primeiro passo ou esperar o movimento do outro, porque começar um jogo onde a vantagem será do oponente? Vai saber. Talvez o ímpeto trazido pela falsa confiança que brilha nos olhos que nos iludem com tantas verdades falíveis, ou apenas a vontade de ganhar ou quem sabe até o prazer de arriscar.

Bem… eu comecei. Tento não me recordar por qual motivo agora, mas o fato é que fiquei com as peças brancas. E eu era peão. Era peão até alguém achar que eu deveria ser rei. Qual o futuro de um rei sem reino e sem posses? Um rei que caminha sem alma? Como pode ser sustentado um cargo vitalício e hereditário por um ser sem vida e sem cria? Renunciar? Agora é tarde para esse tipo de atitude. Já sou desacreditado pelos outros, não mereço isso de mim.

Além dos peões, existe um bispo. Mas ele não ousa andar pelo lado negro. Enquanto do outro lado as peças pretas são quase todas. O rei ainda não saiu do lugar – nem acredito que o vá fazer – desde que o massacre começou. Enquanto a Rainha me arrancou quase tudo. Ela só perdeu uma torre (logo no início), quase todos os peões (quem se importa com eles?), e o bispo do lado branco. Esperanças? Pretendo sacrificar os meus peões para me proteger e resgatar minha rainha. Parece simples, objetivo.

Não dá.

Não posso deixar que os peões sirvam apenas de peões para os meus objetivos. Isso é ser muito canalha e a única pessoa com quem consigo ser canalha é comigo mesmo. Talvez esse seja o problema. Sacrifícios devem ser feitos em nome da paz e da felicidade, mas não posso deixar que o sacrifício dos outros seja o meu alimento. Deve ser por isso que não vejo paz no mundo, nem felicidade, só o amor. O amor é tudo o que eu vejo quando eu não vejo. É a dor que eu sinto. É o que me faz ser mais idiota.

Pronto. Eis meu movimento. Logo em seguida o movimento das peças pretas acontece como uma resposta imediata. Perco meu bispo e fico sem ação ou resposta de novo. Os intervalos entre meus movimentos demoram cada vez mais e mais. Defender não mais adianta, e já não há mais como atacar. Isso me faz pensar apenas em como sobreviver. Se eu me for, o jogo acaba; se um peão se for, o jogo acaba para ele, mas continua porque sempre existem outros peões – e ainda que não exista nenhum o jogo há de continuar! Parece óbvio. Mas se cada peão for rei de si, de que me vale governar por todos? Sempre alguém que nem de si mesmo sabe.

Não adianta mais. Faço os meus movimentos a caminho de uma nova morte – sempre seguido de um movimento da parte negra – e isso nem me faz sentir tão mal. Pode ser um novo começo. Então eu me movimento em busca do fim. E a resposta vem imediata, só que eu demoro a entender. Eu não estou em xeque, mas pra onde quer que eu me mova a morte é como a noite após o dia. Não somos iguais e ninguém pode mais agir. O jogo termina, mas não acaba. E isto não é um empate nem uma trégua. Piedade? E o diabo é que eu não posso mais com isso.

à conta gotas

“…você espera?”

Começa aqui de fato… na verdade não começa aqui. Muito tempo atrás já havia uma luta de palavras sem letras nem sentido que são os sentimentos dentro do ser que sente. Eles tentam enganar uns aos outros e acabam por confundir a mente que pensa horas e dias e noites no que diz respeito ao coração. Daí o ser que sente e o ser pensante duelam numa batalha que dilacera a alma, até o ser que sente pensar numa maneira – que ninguém explica, porém sempre funciona – de fazer o ser pensante sentir sem pensar ou usar os sentidos.

Então, o homem-alma-dilacerada, que já não falando o que pensa (sabe-se lá por qual motivo), vai sendo dominado por um sentimento que (mais que os outros) não tem palavras, dando continuidade à introspecção de algo tão não dele. Algo que vem de alguém, consumindo a razão e germinando a loucura enraizante, que vai se arborizando no que eram só idéias – e agora são lampejos de uma fingida lucidez. Algo que permanece a esse alguém, mas não quer sair dele.

A loucura, fruto do silêncio, passível de não amadurecer, faz sentir que os pés não estão mais tocando o chão. Isso trás a flor da pele a adrenalina que sua frio pelos poros, para conter o calor que emana o corpo, que treme pelo aparente choque de vários opostos. E faz sentir que finalmente está se achando o ponto certo e que talvez não haja certeza. E faz sentir uma força que nunca fora dele e ainda sim não é capaz de levantar a voz a um tom audível.

E então essa vontade de falar vai se debatendo do lado de dentro, fazendo o ar acabar. Só conseguindo por toda vez pegar o que ela jogou fora por um momento e soltar de volta logo após, pois não parece ser tão saudável assim…

“Espero”