e o verbo se fez carne…

Havia um tempo no qual o homem não sabia falar. Enquanto povo, a raça humana começou a existir na forma mais animalesca possível. O homem era uma pedra e um monte de homens, um punhado de pedras. Pode ser que a humanidade tenha se feito humana depois da descoberta do instrumento, ilustrada em “2001: uma odisséia no espaço”, num momento onde até a trilha sonora dá um ar apoteótico, enquanto o macaco descobre a maneira mais simplória de ser homem.

A partir de então o grande salto do ser-macaco até sua humanização pode-se dizer que foi a descoberta da linguagem.

Tanto fala como escrita, gestos, desenhos, rascunhos, barulhos, enfim. O esforço físico já era desprezado. O trabalho para os escravos, as lutas para os selvagens. E a cúpula pensante da sociedade (antes da palavra veio a sociedade) fazia da palavra um artifício para se firmar no poder. Através da comunicação o homem percebe que pode perpetuar o conhecimento, e assim/também se eternizar no tempo.

Tempo que foi passando e o homem, deixando o seu lado bárbaro e instintivo, aprendendo mais formas de utilizar a palavra. Percebeu que dizer “obrigado” não era só falar obrigado – mesmo que por livre e espontânea vontade -, mas uma atitude de agradecimento. Que perguntar é querer saber e ditar é querer impor. Então a linguagem foi ganhando novas funções para o domínio do homem sobre o ser homem (mas sobre o outro que sobre si). As palavras foram ganhando força e peso, e claro, conseqüências. Dizer não era mais apenas dizer. E poder dizer tudo o que se pensa é poder ter poder. As palavras se tornaram armas.

O problema é quando as palavras se escondem dentro do peito, perto da barriga e não querem nunca sair, com medo de não serem suficientes e de machucar. Com medo de certos olhos que as conseguem ler no ar, antes delas se fazerem pronunciar. Mas elas nunca são suficientes e acabam machucando do mesmo jeito.  Assim, martírio calado é sempre mais bem vindo que o tiro que é dito. É quando falar dói e calar machuca. As palavras também são lâminas que cortam de dentro pra fora. E espero que você sinta o peso da dor de cada palavra minha.

Eu te amo.

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