águeda

tocar nos teus dedos
suaves, de unhas roídas
e poder contar neles
de um por cada, os dias
que foram-se em meses
que me fiz esperar

entrelaço entre os teus
meus fracos dedos até
alcançar a tua mão
que pequena ela é
e ainda cabe na palma
todo o meu coração

te pego pelo pulso
pulsando sem se sentir
e sigo pela pele
meio incerto num arroubo
pelo apelo em teu braço
que me enlaça em nó frouxo

chego aos longos cabelos
que ondulam sobre nós
nessa nossa maré
que se faz sob lençóis
e ergue-se em redemoinhos
ao auto da redenção

e no movimento esguio
se faz em câmera lenta
para ver-se axila
e sentir-lhe o cheiro
de paixão e de mentira
que te faz arfar o seio

corro para o ombro
teu, que hoje vejo
pois antes se fechavam
– de tristeza sobejos –
os olhos que te riem
hoje para não chorar

vou te serpenteando
pelo mais novo presente
solto de qualquer amarra
sem cordão, nem corrente
o pescoço que te entrega
nesses pêlos eriçados

à orelha o sussurro
se fazia entender
ainda que fosse mudo
a bochecha, os caninos
que mordiam com carinho
são sorrisos amarelos

e a boca cheia de notas
mesmo quando não se toca
me faz querer cantar
engole minha palavra
e ainda me tira o chão
para depois me derrubar

eu não sei o que percebes
quanto me olha, o receio
se esconde e revela
que o amor é fardo nosso
e te olho atrás de uma saída
mas esses olhos…

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monólogo

– Sabe quando você acha que aquele é o momento certo, e que se ele passar você nunca vai ter de novo um igual? E que mesmo que exista outra chance, não vai ser a mesma coisa?

– Sei.

– E sabe quando ele passa e você tem certeza que era aquele o momento?

-…

– Pois é… E assim tudo acabou.

– Mas nunca acaba.

– É. Deve ser porque a guerra só acaba pra quem vence.

– Guerra?

– Loucura minha.

-…

– Você já sentiu ter errado em fazer a coisa certa?

– Eu já. Vive acontecendo. E eu me sinto um idiota por não querer acertar errando.

– Acertar errando?

– É. Se eu erro fazendo o certo, acho que deveria tentar acertar errando… Pra ver se funciona.

– Bobagem. Qual a garantia disso dar certo?

– Que garantia? Garantia de quê?! Qual garantia que se tem nessa vida além da morte?

-…

– Viu? Isso de garantia é apenas receio de viver.

– Quem garante?

– Tá vendo?! Essa coisa de querer ter certeza de tudo é medo de tentar. Se privar pra não perder é perder sempre a cada dia um novo porvir. Se você poupa com medo de perder, você não perde, mas nunca ganha.

– E por que então você não quer “acertar errando”?

-…

– O medo é uma merda mesmo.

– Bah! Merda mesmo é o amor.

– Não! O Amor é maravilhoso. O problema mesmo está em amar.

-…?

– Tipo. O amor não vai deixar de ser Amor só por a gente não conseguir amar e ser amado e ser completo com isso.

– Como é?

– Não sei explicar direito, mas pensa naquele poema do Drummond, que um ama outro que ama outro e assim vai. Todo mundo ama alguém, o amor existe e tal, mas acaba que ninguém ama ninguém. Adianta?

– Acho que entendi.

– Pois é…

– Só acho que isso não acaba.

– Hã?

– Você disse “acaba que ninguém ama ninguém”, eu discordo. Se existe amor, ele não acaba.

– Sim.

– Mas você disse que acabava.

– Mas eu não quis dizer que acabava de “acabar”, era mais tipo que a história terminava daquele jeito.

– Mas a história pode acabar. O amor não.

– Eu sei! Já entendi! Me expressei mal.

– Isso é mal de que ama.

– Bora acabar com isso?

– Acabar? Mas eu já te falei que…

– Acabar com essa conversinha! Além do que eu já disse isso.

– Já?

– Foi. Não sei como ainda agüento…

-…

-…

– É… Isso de amar acaba com a pessoa…

– Cara, não acaba.

– QUE SEJA! Não é acabar, mas vai consumindo pouco a pouco.

– Como se eu não soubesse.

– E eu que achei que era um pecado não amar alguém como Ela.

– Pecado deve ser amar alguém assim.

– Pecado é tentar esquecer.

– É. Mas inútil tentar porque não adianta. Quem ama não esquece.

– E se faz o quê com o amor?

– Hã?

– Se não acaba, não morre nem se esquece… O que se faz?

– Sufoca.