mazEla

é tempestade agora lá fora
mas não importa o quanto caia a chuva
uma hora ela vai parar

e quando eu pensei que a água
fosse curar as feridas…
fosse regar a alegria…
mas Ela me afogou e acabou com meus sonhos

os bueiros entupidos
cheios da nossa sujeira
fazendo um rio imundo
de toda essa mágoa esse lixo

e quando eu pensei que a água
fosse lavar essa alma…
fosse levar esse medo…
mas Ela só me deixou mais fraco e doente

vai terminar tudo enxarcado
e ainda não vai terminar
enquanto os meus pés não sairem da lama

e o céu ainda for cinza

tocaia

Ele se aproximou do carrinho de sanduíches da praça e comprou um x qualquer coisa. Não tinha fome de verdade. Só queria a comida pra ver se ajudava a passar o tempo. Tinha sede. Mas não uma sede que se mata com alguma ou toda água que possa ser bebida. Era uma vontade que nem mesmo ele explicava.

Mordeu o sanduíche pensando que estava ali fazia uns quarenta minutos e daí a mais meia hora mais ou menos ele poderia encontrar o que tanto procurara. Pensou também que essa busca era mais uma perseguição na verdade. Ele já estava cansado de não ter o que nem lhe era de direito, nem ao menos prometido. Era algo que ele queria e portanto e simplesmente fazia questão que fosse seu. É claro que não funciona assim. Se toda a forma fosse da forma que a gente quer, a vida seria geométrica e não haveria mais sentido, se vida ainda houvesse. O sino da igreja lá perto bateu e ele pensou “faltam mais vinte minutos” ao mesmo tempo que reparou que na existência da pequena igreja.

A igreja era bem miúda comparada aos grandes edifícios que se amontoavam por perto, tomando aos poucos o lugar dos pequeninos. Uma loja de instrumentos musicais, uma lan house, uma farmácia de manipulação, um centro comercial… era o sinal do progresso. Pouco a pouco os grandes prédios iam engolindo o que representava o passado ao redor daquela praça, mas a pequena igreja – que parecia menor ao redor de tantos andares de concreto, mas não menos bonita – resistira a tudo isso. Ela e a praça, com seus velhos bancos e os velhos que ocupam os bancos. Suas velhas árvores – algumas feneceram nas mãos dos novos homens, mas a maioria continuava por ali, talvez por não poderem ir para outro lugar – frondosas e vivas e cambaleantes. Algumas repletas de folhas e outras apenas galhos retorcidos. Postes daqueles antigos que lembram o tempo de criança. Crianças brincavam lá. O menino mais alto olhou pra menina que parecia a mais velha, que falava no celular, e estes se olharam por um instante. Instante suficiente para ele perceber que não eram tão crianças assim e como ainda eram crianças. Perceber como as crianças conseguem ser tão infantis deixando a infância de lado. Perceber que ele daria tudo para ser criança de novo, por mais infantil que ainda fosse. Por mais irresponsável que ainda fosse. Por mais maturidade que lhe faltasse, ele não se sentia mais criança. Já era tarde.

Olhara no relógio e viu que faltavam nove minutos. O devaneio não deixara que comesse o sanduíche frio ainda pela metade. Olhou a procura de um lixeiro e viu um vira-lata olhando fixamente os seus olhos ou o sanduíche. As pessoas e os cachorros… todos os bichos devem sofrer desse mal de não conseguir esconder os seus desejos. Ele se abaixou e deixou que o cachorro comesse o resto de comida talvez com um pensamento de igualdade entre os iguais. Lambeu as pontas dos dedos e depois limpou as mãos em um guardanapo. Olhou novamente o relógio em seu pulso e viu que era hora. Passou a mão no rosto barbado para tirar o suor da testa, verificou se estava mesmo lá o revólver que pusera na parte de trás das calças e enxugou-a no casaco que cobria a arma.

“É…”

Ele caminhou até a calçada onde ficou esperando o sinal vermelho.