em ligação

“Alô”?

Depois que o telefone é atendido é que você se pergunta o por quê de ter ligado. Por que o arrependimento só vem depois que o telefone é atendido? Por que as outras vezes que eu liguei e desliguei antes que começasse a chamar não me bastaram para desistir logo?

“Olha… é que… a saudade tá apertando o coração. Então eu te liguei”.

Toda vez que toca o telefone eu penso que é você. Essa frase agora parece mais do que com qualquer música. Ela é mais do que a música. É a minha realidade. Eu passo o dia ao lado do telefone e as noites ele fica tão ligado quanto eu, que não consigo dormir. Volta e meia eu me lembro que você não dá notícias – o que era normal todos os dias e agora me faz uma falta de dar nó no peito – e ao invés de te esquecer eu fico imaginando como você está.

“Foi o que me fez ter coragem de te ligar de novo”.

Mesmo já tendo te ligado tanto e sem você ter me atendido. Mesmo com todas as mensagens que eu mando sem resposta. Sem aquele toque que você me dava nas horas mais inesperadas do dia, só pra eu te dar um toque de volta, era o que fazia do supermercado um lugar mais feliz. Fazia o meu trabalho parecer prazeroso. A fila do banco parecia repleta de amigos de infância numa brincadeira ou ciranda qualquer. O céu parecia mais claro quando eu o olhava. Hoje o céu borrou a cor. Hoje eu olho para o chão pra lembrar a realidade.

“A verdade é que sem você tudo anda sem graça…”

Mesmo olhando no chão eu acho que ainda não caiu a ficha. Ainda não sinto meus pés tocando o chão. É como se você tivesse levado minhas asas embora e eu estivesse descendo lentamente desse vôo. Acho que quando eu me der conta do que é estar sem você de verdade vai doer mais do que já doeu até agora. Até a hora em que não vai haver mais dor.

“…é como se a vida fugisse do tempo.”

Não como superação, mas uma anestesia. Um coma. Uma prisão em mim mesmo. Uma jaula onde os grilhões são feitos da Indiferença e as chaves podem ser até mesmo de mentiras. Uma jaula que me faça contar as horas como se fossem dias, até que eu tenha um outro motivo mais forte pra pagar uma conta de telefone ou até eu me convencer de que tudo não passou de um engano.

“Alô”?

roads

Um som de muito longe, leve gemido, chega aos meus ouvidos numa dessas noites que beiram a madrugada. Numa dessas noites que os meus sentidos – ou a falta que eu sinto – se fazem mais presente.

“ohh”

Tanta sofreguidão e esse algo que eu ouso chamar de amor naquela voz lánguida que dança no vento sorvida pelo ar, fazem a alma do mais sem-alma dos homens sentir o frio arrepio que vai a pele pela espinha até a nuca, numa carícia de fazer sonhar. Sensações que o simples monossilabar de sua voz traz até mim, me traz de volta a vida.

Nesse momento eu até posso enxergar. Enxergar de verdade, como se fosse palpável e possível todo o sentido da vida. E travar guerras não seria nada diante do que poderia ser só em ter você aqui. Ter você comigo em cada gota de chuva e todos raios de sol. E poder ouvir o seu sussurro delirante que me livra de toda treva, a menos que a treva fosse você.

Se me render a tuas vontades for o que se chama de derrota, eu chamo pelo nome. De verdade ou de batismo. Eu chamo o seu nome.

“can’t anybody see?”