a palavra é fascista?

Bem,

Outro dia a voz feminina de L me falou:

“A palavra é fascista.”

Será?

Ouvi, entendi, discordei, resolvi deixar pra lá. Meu cérebro estava à beira de um colapso então resolvi não pensar muito no mundo externo. Minha mente chamou a audição e a atenção – na intenção de me livrar de tais filosofias – para longe.

Depois de um dia ou dois abri a janela. Dava para ver noite escura de lá. E de lá eu ouvi a mesma frase em letras brancas como brilho de estrelas.

“A palavra é fascista.”

A palavra nos prende ao seu significado? A palavra nos limita? A palavra nos obriga a falar? Poder ser. Mas vejo isso como o feitiço que se volta contra o feiticeiro.

Lá na idade da pedra, antes do nascimento de Cristo, Barack Obama, Platão, Monica Mattos o raio que o parta, o alfabeto não existia. Não existia letra nem palavra escrita. Mas o homem existia. Existia e se comunicava. Talvez ele não tivesse um nome e pudesse ser qualquer um (entendam bem ou mal). Ou talvez tivesse um nome que significasse exatamente o que ele é, alheio a qualquer convenção vocabular.

Um cara que escreve bem sobre isso é Arnaldo Antunes. Ele diz que “a origem da poesia se confunde com a origem da própria linguagem”. Que a linguagem verbal é puramente utilitária podando toda riqueza da palavra. A poesia então aparece para devolver a palavra o que é dela. O ser. Imagina se separassem seu Ser de você num mero verbo de “ligação”?

O homem atribui funções a palavra de modo que ela não é mais o que diz, mas o que falamos em determinado contexto. Cabe a poesia dar voz à palavra. Fazer que a escutemos nela mesma. Não foram as palavras que decidiram morar em comunidade e criaram o dicionário. Se um olhar diz um tanto, se um breve momento de olhos fechados pode dizer mais, por que falar? Porque achamos necessário ter de falar. Se limitar ao pobre “eu te amo”. Pobre porque já o gastaram em quase todo o seu valor. E o Amor? Seria este fascista por nos prender a uma só pessoa? Fascista é o homem que não sabe amar e se limita a sentimentos mesquinhos pelo medo.

O homem que criou utilidades para a palavra limitando  seu significado. O homem criou sua própria cela. E Pierce reforça essa prisão com os grilhões da semiótica, que potencializa a força da palavra em dissociação de significante e significado.

O homem é ditador do seu próprio sistema e o poeta, libertário. O homem é o limite da alma. A poesia é a chave.

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