ameaça fantasma

Me sinto ameaçado. A partir do momento – esse agora que escrevo pela ameaça do esquecimento – que percebi que a terra é azul por causa da água que é azul por causa do céu, que o mundo é redondo e gira, o açúcar é doce e a vida não tão bela assim. Me senti ameaçado por essa simplicidade nas coisas e a partir de então cada “bom dia” passou a ser recebido com receio e cuidado.

Pensei em quando acordei pela manhã e me senti ameaçado ao abrir os olhos na cama, antes de me levantar, e nem sei se ameaçado por isso. Pensar no que me aguardava no próximo instante até o fim do dia, na mensagem que chegara no celular, até o fim da vida, era uma ameaça constante.

Continuei uma rápida retrospectiva da semana anterior até perceber que pensar no passado seria se sentir ameaçado pelo que já passou. O futuro é muito mais ameaçador do que qualquer coisa. Então deixei ele pra lá, mesmo ele incomodando com flashs de possibilidades pepitantes e ameaçadoras.

Me sinto ameaçado pelos meus sentimentos. Pelos meus sentimentos e pelos sentimentos alheios. Não os sentimentos das pessoas-figurantes nas filas dos bancos ou no ponto de ônibus, mas das pessoas que estão suficientemente perto de mim para conseguir acertar uma pedrada. Ameaçado por pessoas que penso não serem capazes de me fazer mal. Ameaçado pelo bem que elas fazem. A ameaça é o bem maior que elas podem fazer e podem não fazer pra mim.

Me sinto ameaçado por um dia de sol. Não pelo calor, mas pela simples possibilidade de que irá anoitecer. É como se sentir ameaçado pela chuva. Não por ela molhar, mas pela chance de pegar uma gripe.

A ameaça é o fantasma que me persegue. Um fantasma vivo pertencente a várias almas de pessoas que estão ligadas a mim apenas pelo fato de existirem. Um fantasma. Pessoas próximas, ameaças próximas, meu fantasma.

Sinto-me ameaçado pelos meus amores.

Sinto-me ameaçado pelos meus amigos.

Sinto muito ter que ser assim.