estação das chuvas

Chove torrencialmente. Apesar do cinza cobrir o céu, já está um pouco mais claro. Mesmo assim não é hora de se levantar. Não sei a hora exata pois o relógio marca dez e trinta e quatro desde a semana passada, mas não amanheceu suficientemente para se estar acordado. Quem mora na rua teve uma noite difícil, pois choveu a noite inteira. Dizem que a chuva lava, limpa; mas a chuva mata, suja, destrói.

Chove muito na cidade e desde então tragédias tomaram conta dos noticiários. Deslizamento de morros, casas desabando, alagamentos, acidentes de carro, mortes, blecautes. Na semana passada, na noite que marcou o início da estação das chuvas, houve uma queda de energia causada pela água que insistia em desabar do céu. O gerador de um hospital aqui perto explodiu. Foi como um flash gigante que gravou na mente das pessoas por perto o retrato de tamanho acontecimento. O problema só foi resolvido depois das dez. Depois do relógio parar. Eram seis da noite quando houve a explosão. Quatro horas. Quatro horas para quem tem cada minuto sustentado pela corrente elétrica que corre em seus fios  de máquina. Isso o noticiário não passou.

O fato é que hoje a tempestade é a pior desde que se possa lembrar, mesmo pra esses dias. Começou ontem por volta das dez e meia; no meu relógio – talvez em outros – e perdura até agora. O fato é que eu não consigo dormir. Coberto dos pés a cabeça ainda sinto o frio. O frio me impede de sair do calor das cobertas. Só de imaginar o toque frio do chão  puxando meus pés para a realidade como um lago congelado, um arrepio me passa pela espinha. Com o travesseiro sobre a cabeça não dá pra ver muito além da parede do relógio. E essa é a única imagem que eu tenho.

Eu vejo da cama o relógio na parede em frente, iluminado pela pálida luz do sol que passa timidamente pela fresta da cortina e se esforça por entre densas nuvens num sorriso amarelo, esboço mal feito de esperança. É sob essa luz que eu vejo os meus problemas. Eu vejo as pessoas ao meu redor caídas, frágeis, doentes. Às vezes me vejo assim também. A chuva deixa as pessoas doentes, e o que é a doença senão a fragilidade humana perante os menores dos seres? A chuva nos faz cair e nos destrói até a mais concreta das bases. Vão passando pela mente como através de uma janela embaçada o trabalho mal feito, os estudos inacabados, amores vãos, e as contas para pagar. E eu não posso fazer nada por mim, nem pelas pessoas ao meu redor. Mas o que seria dos problemas se eu pudesse resolvê-los? Até me levantar se tornou um problema. Levantar implica em enfrentar toda essa chuva. Mesmo com todos os problemas do mundo, os meus problemas insistem em querer fazer essa chuva parecer um copo d’água. Mesmo meus problemas teimando em trovejar e chover cá em mim, beber um copo de chuva seria me afogar em meu próprio dilúvio.

Mesmo tendo um teto e eletricidade à disposição eu me sinto desabrigado e sem forças, apático quanto ao mundo, como se eu não pertencesse a ele. Uma vez ouvi de algum idiota qualquer que um relógio parado consegue estar certo pelo menos duas vezes ao dia ou algo do tipo. Será a passividade não uma conseqüência, mas uma preparação para a estagnação total? Se eu morresse agora pelo menos já estaria deitado, será esse o significado?

Continua chovendo. Continua dez e trinta e quatro. Continua tudo onde estava. O que me faz querer levantar. Não é porque as coisas permanecem nos lugares que elas pertençam a eles. Não é vontade de devolver as coisas aos seus lugares de origem, afinal, seria certo? Não é disposição de enfrentar a tempestade cinzenta que me faz – mesmo relutante – encarar o frio da manhã. É que talvez contar as gotas da chuva seja pior que a própria tempestade.

desabafo

“Eu não falo em paixão porque ela é uma palavra piegas e efêmera para mim. Eu poderia dizer que te amo, porque afinal… eu te amo. Mas as coisas não funcionam bem assim. Você me diz que o amor é vulgar. Por que será que o amor é vulgar? Porque não se ama metade das pessoas que diz. Eu queria amar todo mundo, mas eu não amo meus inimigos – que apesar de não os tê-los não dou valor a quem não vou com a cara, o que é difícil, porém não raro. Eu tento não amar pessoas que vão sumir de mim, mas não consigo. Eu queria citar alguém, uma das milhares de frases fodas que existem sobre o amor e que certamente se encaixariam na situação, mas isso aqui só cabe a nós dois e vai além de nós. Acho que amar é querer um ‘bem’ pra alguém que independa do seu ‘bem’, mas como se esse ‘bem’ fosse seu, porque na verdade é seu, afinal, te faz ‘bem’ ver o ser amado ‘bem’… bem, um pouco mais que isso… na verdade muito mais que isso… mas simplesmente por aí…

Eu amo minha família, ou o que eu entendo de família. Meus amigos que parecem muitos, mas não são. Eu amo você… e você me diz ‘e daí?’, as coisas não funcionam bem assim… você sempre pensa em como as coisas funcionam, mas as coisas sempre funcionam de uma forma não-linear-caótica que foge ao seu pensamento e você fica pensando nisso… e eu gosto de te ver pensar, sem querer adivinhar em quê, mas eu acho você linda pensando calada, falando sem pensar, pensando nas palavras, pensando em besteiras, pensando na vida, pensando no nada. No fim das contas eu gosto de te ver. Gosto de você com lentes ou sem. Gosto de você com o cabelo preso com aquele charme só seu ou somente solto. Gosto de te ver tranqüila e gosto também do outro lado, apesar de que eu nunca vi, nem consigo imaginar. Gosto da sua caretice singular. Gosto de cada maneira da mesma maneira. Da sua maneira. Gosto de te ver sorrindo, do seu sorriso. Gosto de você. Mas as coisas não funcionam bem assim…

Então fica tudo do jeito que está.

Um dia sem cor, uma terça-feira. Outro e outro mais na frente. No fim, a semana toda vai ser terça-feira, o ano todo vai ser terça-feira, minha vida será só terça-feira e o céu borrará a cor pra me lembrar de você.”

Então ele larga a faca com o sangue que era a ação de uns instantes atrás ao lado dela.

Ela chora baixo.

Ele se levanta.

Ela implora pela vida que agora foge de si.

Ele sorri.

Ela começa a não sentir mais dor.

Ele enxuga as lágrimas em sua face, manchando-as agora de sangue.

Ela recebe o seu beijo de morte; perde o olhar.

Ele vai embora levando seu último suspiro.