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Ele se levantou da mesa para se afastar do trabalho sobre o qual se debruçara a algumas horas e foi fechar as janelas do lar. Era normal que todas as noites ele fechasse as portas e depois de um tempo as janelas, já que era o último na casa a dormir; na sua infância as portas começaram a ser fechadas, mas as janelas eram mantidas abertas para que o ar circulasse. Janelas fechadas naquele tempo eram motivo de casa desocupada ou desconfiança.

Mas os tempos mudaram.

Ele não era mais criança e agora portas e janelas dormiam fechadas. E haviam grades nas janelas e muros com cerca de alta voltagem. Ele vivia seguro no seu mundo e agora era a segurança no mundo de sua mulher e do pequeno que há pouco tiveram. Ele era a segurança. Mas não se sentia seguro disso. Para isso terceirizou o próprio serviço. Mudou-se para um apartamento alto. Na reunião de condomínio exigiu muros mais altos com grades, tirar o velho arame farpado e por uma cerca elétrica. Ele dera a idéia e pedira os votos. Também o alarme, o segurança, as câmeras. Se sentia orgulhoso de oferecer tal proteção.

Mas antes de fechar a porta da varanda se deteve na sacada e reparou algo que nunca vira em nenhuma outra noite. Um nevoeiro pairava sobre a vizinhança. E a neblina chegava as alturas, pois ele, da sacada do sexto andar e a via cobrir muita coisa. Não lhe tirava totalmente a visão das coisas próximas, mas a limitava roubando detalhes.

Ele jurava que podia ver a neblina quase se mexer, no que lembrava vagamente uma respiração. Só que tudo tão rápido que parecia lento. Quando ele esperava a pulsação, ela se perdia no piscar dos olhos. A névoa parecia a cada momento mais próxima, mas não avançava. E isso o inquietou. Ele não conseguia mais desviar os olhos da névoa. Era algo simples e efêmero, mas que ele não podia conter nem prever. Não sabia de onde surgiu nem porque estava lá. Talvez pelo tempo frio. Fazia parte da natureza das coisas, do fluxo da vida. E não se tem controle sobre essas coisas. Não se tem controle sobre nada.

Agora ele pensa que não é tão seguro viver. Nunca foi. A segurança tanto estimada era apenas mais uma prisão. Então o perigo existe dentro ou fora da prisão? Claro que em todo lugar. E ele e sua família estavam presos onde ele era a segurança. Ele então olha para baixo e vê poucas luzes acesas e seus sonhos caindo ao som do caminhão de lixo que passa.

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