tão doce quanto sal

A caminhada pelo centro da cidade foi pior do que eu havia planejado durante a noite. Não pensei que fosse chover hoje. O chato de deixar as coisas para depois é que elas se tornam inadiáveis nos piores momentos. Estava devidamente equipado. Tênis, calça, guardachuva, contas pra pagar e uma mochila, para não molhar o papel e os livros que pensei em comprar. Acabei sem comprar os livros e o papel, o que deixou tudo um degrau mais irritante. Caminhava com os pés na lama, pensando em como seria lavar aqueles tênis por nada, tirar a sujeira da calça e botar ela pra secar num dia de chuva. E olha que a chuva só veio cair de repente; quando eu saí de casa, vi o céu borrando a cor e apostei no azar. Dei sorte.

Já ia mirando a faixa de pedestres na corrida para atravessar a rua quando me dei conta do carro que vinha em velocidade. “Esse porra vai me dar um banho”, pensei e, apesar de já estar bastante sujo e molhado, recuei uns três passos. A água veio e não me atingiu. Já tinha decidido esperar o sinal fechar de onde estava quando – pensando no almoço que não havia comido e me esperava – percebi que havia uma moça ao lado do meu antigo lugar. Me olhou com cara de quem tinha tomado banho e com os olhos levemente cerrados pelas gotas da chuva que caiam. Seus olhos me diziam “poxa… né?” e seus lábios sorriam. Lindos olhos, lindos lábios, lindo sorriso. Respondi com meu melhor sorriso de estoque, que apesar do esforço para sair, se fez notar facilmente no que eu percebi que ela não havia saído preparada para a chuva. Estava de sandálias e deveria calçar trinta e seis (você deve estar me perguntando o motivo de tanta exatidão, mas algumas coisas a gente tira de olho). Estava com um short preto, que não era pequeno, mas me dizia muito sobre belas pernas e o que mais um short daqueles pode dizer, que pode até não se cumprir a olho nu, mas promete ser linda assim, vestida. Subindo pela cintura ela não era dona da magreza, mas ainda sim era uma barriguinha que eu queria ver mais de perto, ver com as mãos. Camisa preta de alça fina. Nada de umbigo de fora, mas não cobria toda a barriga, havia aquele phi de Da Vinci, o tal do um vírgula seiscentos e dezoito à mostra denunciando a falta de sol naquela região mais branca, mas perfeita. O decote não existia, nada se mostrava para aqueles que não enxergam mais além, mas para os bem aventurados os ventos sussurram o que há de bom e a direção da estrada de tijolos amarelos. Ideal para uma cidade quente em dia de sol. Ideal para uma primeira vista. O seu rosto era bonito, mas as mãos meio na frente segurando a ponta de um guardachuva que não era seu, esticando pra si pouco do que mal cobria a grande e legítima dona. Abrigo inútil, me impediam de ver por completo. Olhei de volta em seus olhos como quem diz “poxa…”. Decidi voltar para ficar ao seu lado e então percebi que ela não conhecia a dona do guardachuva.

“Te garanto uma carona até a lanchonete do outro lado da rua”, “fechado”, você era realmente linda, de tão perto percebi melhor, “você sempre dá carona a estranhos?”, “não não”, “a estranhas, não é?”, “só as bonitas”, o seu sorriso deixou o meu sair mais confortável, nunca tinha dado carona a ninguém, quanto mais a uma garota (mais de perto você parece mais nova, mesmo que digam que aparentas ser mais velha, a mim você não engana) tão bonita, devo estar sonhando. “Chegamos”, “é chegamos”, na porta da lanchonete a chuva parecia mais forte, “te garanto um lanche”, “sério?”, o olhar dela estava surpreso e ao mesmo tempo desafiador, e ao mesmo tempo lindo, “se você não comer a lanchonete inteira”, você ria fácil, um riso fácil e bonito, “e se eu comer?”, “lavo uns dois pratos pra te ajudar enquanto a chuva não passar”, você estava gostando da minha conversa fiada e meu comentário fez lembrar a chuva, “nem tenho pra onde correr mesmo”, “então vamos sentar e escolher o pedido”, você se sentou primeiro e, antes de sentar fui ao banheiro escovar os dentes, a bolsa servira para algo, sempre guardo minha escova nela e um creme dental, pode parecer bobagem, mas escovar os dentes é relaxante para mim, voltei e você olhava o cardápio compenetrada, “vou querer um sonho”, um doce, “e eu vou querer um salgado desses”, pedi, “me diz”, “o quê”, “você já me garantiu uma carona e um lanche”, “tô me saindo bem, né?”, “até que sim, mas quero ver se você me garante mais algo”, “pra tomar?”, “hã?”, “o garçom quer saber”, “há, quero sim, suco de maracujá”, “saudável demais, refrigerante pra mim”, o silêncio pairou até a volta do garçom com o lanche da gente, “você vai me engordar”, “sonhos não engordam, alegram”, “podem iludir”, “pode ser”, “…”, “nem sei seu nome ainda”, “nem precisou saber até agora”, “e como eu vou te chamar?”, “você pretende me chamar?”, minhas mãos estavam nervosas sobre a mesa, as dela repousavam tranqüilas, eram belas e suaves, mãos pequenas que poderiam acolher todo amor do universo, “se eu souber que você vai atender, sim”, “é preciso de nomes pra isso?”, “tá bom então… vou te chamar com um daqueles apelidinhos bem cafonas…”, “tipo o quê”, “tipo rainha”, “sem comentários”, “é, realmente é muita moral pra você”, me analisou de canto de olho com uma falsa reprovação, “princesa”, “não acho que homens fiquem bem chamando mulheres de princesa, ou fica pedreiro ou afetado demais”, “deixa pra lá”, “…”, “chuchu”, “odeio chuchu”, “eu também”, “quem gosta de chuchu?”, “ééééé”, exclamei socando a mesa e desistindo da idéia de culpá-la pelo apelido vegetal-frutífero-amoroso-a-que-todos-chamam-de-legume-mas-ninguém-gosta-de-comer por ser uma atitude agressiva que chama os olhares quase assustados dos outros, mas você apenas ria, “e você ainda queria me chamar assim”, “algum rei na história da humanidade deveria ser a única pessoa a gostar de chuchu, popularizou o apelido e obrigou o consumo pelos súditos”, “ou então algum país desses desenvolvidos passou a idade média com as pessoas sobrevivendo à base de chuchu”, “daí a igreja decidiu que ele era fonte de vida e associaram ao amor”, “ou então os franceses ironizavam as pessoas que não gostavam chamando de chuchu”, “e o resto do mundo por não compreender os incompreensíveis franceses acharam que era um alcunha carinhosa”, eu dizia com uma voz afeminada enquanto você já ria, “sempre os franceses”, “e a gente divagando sobre essas besteiras já deu a volta ao mundo, né chuchu?”, rimos bastante e demorou um tempinho para retomar o fôlego, “mas nada de chuchu”, “tá bom, tá bom”, “quero ver o que você vai me aprontar agora”, “docinho?”, “genérico demais”,  “…”, “paixão”, “paixões duram pouco”, “você quer ser mais, amor?”, “posso ser somente agora”, “pode ser pra sempre”, nossas mãos se juntaram e as tuas, quietas, acalmaram as minhas, pude ver seus olhos mais de perto e cada vez mais de perto, e percebi então que são de um castanho que eu nunca vi, bem claro, meio esverdeado,  me focando, se fechando, me fechando, tudo muito lentamente, como se fazendo o mundo silenciar e a chuva cair devagarinho para que eu pudesse ouvir as gotas caindo uma por vez e as visse com cuidado, de um jeito totalmente outro, numa sensação nunca antes despertada, ao abrir dos olhos, te encarei por mais um desses eternos instantes, “bom esse sonho heim”, “idiota”, disse você da minha frase de efeito, da minha cara de sonso, de tudo isso, ou apenas da minha intenção, seu sorriso era tão seu, mas a cada um deles era um mais novo e eu queria estar ao seu lado pelo tempo que fosse para poder ver todos eles, não precisava tê-los, bastava apenas ver, “amor não”, conclui, “tem que ser algo menos…”, “menos”, “é, menos”, “…”, enquanto o silêncio voltava a pairar sobre a mesa voltamos a comer, as vezes nos olhando, nem sempre ao mesmo tempo, as vezes eu te olhava entretida no seu sonho, e quando eu pensava nos meus sentia você me olhando, acabei primeiro, fiquei a bebericar o refrigerante enquanto olhava você, dessa vez o pescoço, se o vampiro pode morder a vítima em qualquer lugar para beber seu sangue por que eles escolhem o pescoço?, as respostas não são palavras, mas visões como essa, “que foi”, “nada não”, você sorriu de novo e limpou dos lábios os farelos do sonho que devorara, “o sonhou acabou”, “a chuva parou”, “e agora José?”, “e agora você?”, sorrimos um pro outro e nos levantamos, fomos para a porta da lanchonete e então dissestes, “ainda vou andar um bocado”, “e eu vou pra casa”, “a gente se vê então”, “a gente se vê”, na hora da despedida foi a primeira vez que sua presença pareceu a de uma estranha, nos abraçamos sem jeito, nos beijamos sem jeito, você sorriu sem jeito, virou e partiu, eu segui também para o meu caminho.

Andava distraído, pensando. Como o dia, com todos os contratempos do mundo, me foi generoso. Até sol eu tinha agora! Guardachuva fechado na mão, fiz uma retrospectiva da última hora, “para quem saiu de casa numa chuva pra pagar umas contas e não comprar uns livros me dei bem”. A imagem daquela moça linda não saía mais da cabeça, era algo que eu não esqueceria. Até que eu parei no meio da rua. Me lembrei de um detalhe. Eu não sabia o nome dela. Não peguei o telefone, não sei o nome, não sei quem ela é. Agora eu era só um guardachuva em pleno dia de sol. E ela, era um sonho.

das negativas

Não entendo esse lugar. As pessoas se falam, não se falam, se esbarram, se evitam, roubam, matam, fingem que amam. Cada vez mais parece que a verdade das pessoas é apenas fingir; a mentira seria então a peça fundamental para a manutenção do caos que são as pessoas. Manutenção porque esse caos é organizado, fingimento, mentira. Por isso, mesmo sem entender as pessoas, não me surpreendo mais. É um ciclo vicioso. Tudo acontece sempre igual. Não me excluo desse lugar, apenas não há mais o que me prenda. Sou uma peça solta na engrenagem, que gira a volta dos outros. Ocupo um lugar que não é meu. É como se eu fosse eternamente uma visita, um hóspede que quer ir embora por incomodar, mas que não tem pra onde ir e, por não ter pra onde ir, acaba incomodado por estar incomodando.  Um tumor benigno. Quase não faz mal a ninguém, mas quem quer ter um? Não pertenço a nenhum lugar.

Não entendo o tempo. O fato do sol “nascer” no leste todos os dias e sempre ir em direção ao amanhã é um estigma da própria rotina. Calendário, televisão… Coisas que fazem o tempo ser algo superficial; passam tão lentos os dias que a gente nem se dá conta que eles acabam aos montes e os anos correm cada vez mais. Montes de horas mortas, dias mortos, semanas mortas. Esperar, esperança, desespero. Não há tempo perdido, o que existe é a morte, pois a cada instante que se vive, se morre.

Não tenho paz, não tenho silêncio. Ninguém tem. Se o silêncio existe de verdade, antes de chegar nele os ruídos transformam-se em um inferno auditivo. Quando a noite cala as vozes e silencia todas as almas, quando dormem as luzes e os carros, o meu silêncio começa a gritar alto e ecoar pela casa. Um relógio de parede na sala e outro no quarto, um dos dois estava meio segundo adiantado – ou atrasado, que seja – em relação ao outro, num descompasso que me açoitava os ouvidos a cada meio segundo. Eu nunca soube qual dos dois marcava a metade. Faz diferença? Não creio. O relógio da sala caiu na limpeza e se espatifou no chão, o do quarto parou. Os segundos corriam para serem primeiros, mas sucumbiram ao tempo. O tempo não melhora as coisas. Ele as conforma ou as finda.

Não me pertenço. Nem me pertencem as coisas que digo minhas. Me sinto como a casca de um inseto. Eu era um verme. Um verme desses que não se mata por não se notar ou por preguiça. Me fechei numa casca que mais parecia um casulo. Tentei me libertar e ser o que eu realmente era: um inseto. Mas não tive coragem. Meu não-eu, inseto, fugiu de mim, enquanto eu fiquei na casca, vazio, fantasma. Na verdade eu não sei se fui eu quem virou o inseto e me mandei, e aqui ficou este que não sei, ou se fiquei as paredes de uma vida vazia e foi-se o inseto dentro de mim. Talvez nenhum dos dois. Talvez nem o verme eu tenha sido. Eu sou apenas o vazio que o inseto evita e a casca acolhe.

Não pertenço a lugar nenhum, não pertenço a ninguém, não pertenço a este tempo, meus pensamentos não me pertencem, nem eu pertenço a mim, e deve ser isso que me faz sentir vazio. Se tudo o que fosse meu estivesse dentro de uma garrafa, pra eu beber de uma vez, sobraria sede, e sede não é algo que eu tenho, é tudo o que falta. Desapego de tudo é só o que tenho, o que me resta. E se liberdade é isso, o que vem depois?

coisas frágeis

– Por que você faz isso? – Berenice perguntou com a voz trêmula, tentando entender a cena com a qual acabara de se deparar.  A cozinha toda suja de sangue, com grãos, biscoitos e condimentos espalhados pelo chão. Os frascos que os guardavam estavam manchados com as marcas das mãos ensangüentadas. A manga direita da camisa, apesar de desabotoada, tinha sangue no punho arregaçado e em todo o antebraço. O suor encharcava o que da camisa não era mais vermelho. Ele se destacava na cozinha de tons pastéis e suavemente coloridos.

– Porque é preciso – ele responde com as mãos sujas e nervosas terminando de fechar um frasco que estava na mesma cadeira em que ele estava sentado. Segurava o frasco entre as pernas. A mão livre o fechava, na outra, uma faca com sangue ainda recente. Tudo naquele lugar era muito recente.

– Você podia ter pedido minha ajuda – havia um tom de culpa na voz – se você tivesse pedido, eu faria alguma coisa… qualquer coisa…

– Você não faria – ele interrompe com pesar – nem há nada que você pudesse fazer. Não há nada que ninguém pudesse fazer aqui. – Contorna notando que ela tentou se mostrar contrariada. – Era algo que tinha que ser feito só por mim. Não suportaria que alguém me ajudasse a me livrar disso – ele fala agora jogando a faca para longe e apanhando uma linha e agulha que estavam previamente preparadas ao alcance de sua mão.  Ele arfa de dor e põe a mão sobre a barriga. Ela percebe que existe um corte e pela quantidade de sangue deve ser profundo.

– Ainda acho que você deveria ter alguém ao seu lado num momento desses… – a voz dela falha ao ver que ele começou a costurar a sua própria barriga. Ele começa a gemer de dor e quase gritar. Ela tenta se aproximar dele.

– JÁ DISSE QUE NÃO! – Ele grita – se você me ajudar agora, a próxima a me fazer passar por tudo isso será você! Será que não entende? – ele tinha um olhar que misturava ódio e complacência.

Na verdade não era ódio propriamente dito. Era apenas dor. Mas não era uma dor qualquer. Era como se aquela agulha costurasse a sua alma. Era como se aquela linha atasse algo mais além que sua pele, carne, e chegasse aos seus sentimentos, emoções, desejos, todos reverberando dentro de si, os furasse com a agulha e depois os prendesse na linha com resignação e amor próprio. Ela não o entendera tão profundamente, mas resolveu não contrariar. Havia uma grande garrafa de álcool quase vazia e panos limpos ao lado, mas ela não esboçou tentativa nenhuma de usá-los para limpar o suor e o sangue, pois ela não sentia essa liberdade, não naquele momento.

Ela agora virou-se para os frascos de condimentos que ele outrora havia esvaziado: – Sabe Berenice – ele dizia agora com resiliência – os sentimentos falam e calam – disse ao terminar o último ponto e cortar a linha nas mãos. – Eles berram, hibernam, emudecem – ela chegou mais perto dos frascos, tomou um em sua mão e começou a limpar o vidro. – de um jeito ou de outro estão sempre lá. Mas as pessoas, meu bem, elas mudam.

E foi o que ele disse enquanto Berenice fintava a borboleta azul, agora morta imersa em etanol.