pandora

Garota dona do mundo andava feliz. Não que ela realmente fosse a dona do mundo, mas era assim que ela se sentia. Era dona apenas de tudo que sempre quis e isso a fizera se tornar assim. Era pouco antes dona de somente algumas dessas coisas, ainda agora encontrara todo o resto junto. Queria para si, mas essas coisas não se encontram todas juntas jogadas por aí. Elas tinham dono.

Garota dona do mundo vira em tal rapaz tudo o que ela mais queria (até porque as outras coisas que ela queria já as tinha, logo, não as queria tanto assim), mas garota dona do mundo não queria tal rapaz. Na verdade queria, mas mais pelo que ele tinha do que propriamente pelo o que ele era. Não, não era interesse. Bem, era interesse sim, mas não um interesse material, porque o que ela queria nele fazia parte dele, não havia compra ou divórcio que trouxesse isso para ela, era algo que fazia dele ele. Então você deve estar se dizendo (ou não) “se ela gosta do que faz dele ele, ela gosta dele!”, mas a questão é que o que ela gosta nele, o que ela quer nele, ela poderia ter encontrado em qualquer um, o que faz de tal rapaz um qualquer – como se diz, substituível, assim como todas as pessoas – pensava garota dona do mundo, seja isso bom ou não. Se ela tivesse encontrado tais coisas em outro alguém, qualquer um seria tal e tal rapaz não seria ninguém. É mais ou menos isso.

Garota dona do mundo se dirigiu a tal rapaz, alegando que ele a faria completa, feliz. Tal rapaz disse a ela que isso era o que ele mais queria. Então os dois se amancebaram em um lugar qualquer e garota dona do mundo se preencheu de tudo que sempre quis. Estava realizada.

Nada dura para sempre. Nem a eternidade conheceu o pra sempre, sendo o futuro apenas uma abstração, um sonho dissolvido a cada instante pelo presente. Tal rapaz estava se sentindo mal. Se sentia mal porque garota dona do mundo queria ser dona de coisas que ele até tinha, mas não podia dar para não deixar de ser. Tal rapaz sentia que se doava cada vez mais e garota dona do mundo não abria mão do que tinha, nem do que era, para ser com ele. Era como se ela fechasse em si, trancando-se em uma caixa junto à suas glórias exclusivas – e o excluindo disso – fazendo tal rapaz se sentir sugado. Tal rapaz estava se perdendo num mundo não seu. Quase não se reconhecia mais.

Tal rapaz decidiu ir embora. Declarou para garota dona do mundo que era dono de si – ou pelo menos era o que ele queria ser – e ela o tomou como sua propriedade, de modo que suas particularidades eram algo ordinário num universo que pertencia somente a ela. Garota dona do mundo esbravejou, ele não podia ir embora, não podia privá-la dele, tal rapaz disse que isso era egoísmo, ela chorava nervosa. Ele queria ser com ela, viver no mundo dela. Ela queria tê-lo para sí, possuí-lo. Ele queria ser deus com ela, ter um lugar nesse Olimpo. Ela queria ele venerando-a como cego fiel, pois ela era absoluta. Onde os dois queriam só ela podia ter.

Tal rapaz foi embora em busca de algo seu e garota dona do mundo acabou por ficar sem o que mais prezava. Percebeu que sem isso, o que lhe ficou já não tinha valor, eram sobras, não era nada. Percebeu que ilusão é nesse mundo querer ser dono de alguém, via agora em tal rapaz indo embora alguém, mas quando olhava para si não se reconhecia mais. O seu mundo desmoronou. Lugar qualquer era agora lugar nenhum e o que sobrou para ela foi uma semente verde, que ela plantou – no que já fora reino e castelo e virou um imenso deserto de sal – e esperou seus rebentos.

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