brussel

Faz muito tempo. Mais. Parece uma eternidade. Muito tempo que a gente se viu, que a gente se teve. Você sempre levando os olhares dos outros, cativando os homens com sua beleza e as mulheres com sua força. Ou ao contrário, ou os dois.

Agora que eu estou aqui de novo, é como se eu fosse invisível nesse lugar. As pessoas nem me notam mais. Não que eu me importe e você sabe que eu não me importo. São poucas as coisas que eu penso serem importantes.

Eu gostava de ir a praça com você. Apenas para olhar. Antes ela parecia um lugar perfeito, como se existissem lugares perfeitos e ainda como se, se lugares perfeitos existissem, eles pudessem por alguma razão ser praças. Hoje eu reparo no monte de lixo no chão e bosta de cachorro na grama maltratada, nessa cidade cinza de gente porca. O barulho do trânsito só me faz atravessar a praça mais depressa. Até a fonte secou. Nem lembro se a fonte um dia funcionou, mas parecia que ela nunca ia parar de jorrar água quando a gente estava lá. O cheiro de merda não existia, o que havia era um cheiro bom. Não se ouvia barulho de carros nem som nenhum. A grama não era maltratada, era viva. E você era a vida. Você era o som dos pássaros, o silêncio e a música que tocava. Você era o perfume e as cores do lugar.

Foi lá que você me conquistou, como conquista a todas as pessoas ao redor. Ninguém gostava de mim, nem me suportavam, pra falar a verdade. Mas o seu desejo é o meu desejo e o desejo de todos. Eu cheguei calado, sem confiar em ninguém. Todos respeitavam, e ainda respeitam você. Eles me aceitaram contagiados pela sua vontade. Se não fosse você talvez essas pessoas nem me dissessem bom dia. Não foi das melhores coisas, mas facilitou o convívio por aqui. Sua aprovação valia o aval de todos. Por pouco tempo, claro.

Mas era mais fácil chegar na praça e esperar. Você aparecia com um vestido. Sempre um vestido. E a gente namorava na praça. Nunca soube se era por causa dos seus pais mesmo ou por causa de você, mas na época não importava. Foi uma semana. Todos os dias na praça, com você. Sentindo seu rosto, seu gosto, sua boca. Tinha um gosto de fruta, mas de uma que eu nunca achei em canto nenhum. E o seu olhar. Era somente para mim. Como se não houvesse mais nada. Era uma mania estranha, mas que eu gostava demais.

No último dia, sábado, foi tudo como havia sido. Eu esperando você na praça. Sempre chegava primeiro. Você vinha no seu vestido deliciante. Mas naquele dia não havia ninguém em casa. Você me chamou pra subir, me levou pela mão. E aquele lance de escadas era como a distância da terra para o céu, não porque demorou para acabar, mas cada degrau era mais perto do paraíso. Foi lá que aconteceu a entrega. Não a sua, a minha. E você foi o anjo que me levou e que me fez anjo também. O seu olhar me fez sentir a Glória, voar. Naquele dia não senti mais o chão. Me senti invencível. E você, foi tudo.

Nada do que não seja hoje. Mas hoje é apenas um tudo que eu consigo lembrar. Porque depois daquele dia eu nunca mais te vi. Você se mudou, sumiu, morreu. Eu não sei de mais nada de você. As pessoas que parecem ter se esquecido de mim, se esqueceram de você também. Mas eu não esqueci. Certas coisas não se consegue simplesmente esquecer. É estranho como parece tanto tempo. Como parecem séculos. Pois está fazendo um ano e meio.

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