esquife de gelo

A diferença de Andorra para Portugal é que o primeiro é mais rico, apesar de menor. Um dos menores países do mundo e, diferentemente de Loriga, a região onde eu morava, é o tipo de lugar onde as pessoas querem apenas ficar ricas. Tem gente de todo canto lá. Por isso o orfanato que comportou a gente lá tem estrutura para oferecer futebol e balé. Até então meninos e meninas praticavam em sua maior parte separados. Mas eu tinha que ser um dos diferentes. Os meninos me zoaram muito tempo. Depois alguns deles começaram a se acostumar com a idéia, já que o inverno era cruel para eles também. E mesmo que até o verão, eles estavam dançando em sapatilhas também.

Tudo ia muito bem por lá. Até que na que seria a última nevasca antes da primavera. Tudo estava muito frio e houve um estouro. Depois de um grande clarão um breu tomou conta do quarto da gente. Todos estavam em suas camas encolhidos. Foi aí que ouvimos um barulho estranho do lado das meninas. Todos ficaram apreensivos e eu decidi ir olhar. Eles se preocupariam comigo e me admirariam.

Fui com cuidado para não se fazer escutar. Comecei a ouvir súplicas a medida em que me aproximava do aposento que julgava ser o certo. Palavras trêmulas de medo e dor imploravam para um carrasco silencioso. Quando eu entrei na sala pisei em algo estranho. Quanto peguei o objeto pesado e molhado, me dei conta de que era um braço humano e o larguei imediatamente. O coração já batia mais forte, desrespeitando o compasso da calma e da razão. Continuei sem saber o exato motivo de não fugir. Quando cheguei próximo, a vítima ligou algo que devia ser uma lanterna sobre a última investida do que vi ser meu irmão. Cheio de sangue. Idêntico. A luz caiu e rolou seu facho de luz para o outro lado da sala.

Depois de sons de carne rasgando e estalo de ossos, senti um golpe também e a luz no chão voltou-se para mim. A lanterna estava nas mãos da cozinheira que gritava histericamente. Os seguranças entraram com uma lanterna das maiores e apontaram o canhão de luz também em minha direção. Via-se a mim, gêmeo, coberto de sangue nas mãos e nas roupas. Imóvel. Como um esquife de gelo. Ao redor os pedaços do que fora o zelador do orfanato. A cozinheira apontava para mim desesperada enquanto os seguranças se aproximavam em dois, o terceiro telefonava. Não sei porque fugi. Não sei porque pulei a janela. Só sei que saí no meio da nevasca me perguntando se meu irmão realmente era um assassino ou se eu iria acordar daquele sonho.