gula

Dormente. Ainda assim de uma languidez admirável. Vadia, a língua insinuante sobre o objeto de consumo – agora a boca também ajuda no ofício da carne; língua comprida, insidiosa, e a boca despida de qualquer batom envolviam com louvável destreza, até a base, soltavam-no, e depois corriam suavemente ao lado, solvendo o que ameaçava cair; a língua acarinhava os lábios para roubar-lhes o que é da boca, bebendo em um sorriso e voltando ao início do ciclo.

Sorvete. Ela fazia uma sobremesa parecer mais prazerosa que qualquer coisa que eu pudesse imaginar. Ok, quase qualquer coisa. Um pouco de calda caiu sobre a destra, que ela lambeu discretamente até o indicador, que colocou na boca sujestiva e demoradamente antes que esse se juntasse (já limpo) aos demais dedos na tarefa de segurar a casquinha. À sinistra havia um carrinho de criança (menino talvez) empunhado pelos suaves e pequenos dedos cerrados. Descruzara as pernas e as soltara de modo displicente sob a mesa. Baixara a guarda. Mas o mais impressionante disso não eram as mãos de longas unhas vermelhas, nem os lábios peritos, nem a língua lasciva.

Olhos. Ela estava de óculos escuros. Tudo o que eu via a duas mesas de distância eram reflexos vagos da lanchonete, mas eu tenho certeza que ela olhava para mim e não tirou os olhos de mim desde que eu me sentei. Aquele olhar oculto explicitava que aquele sorvete não tinha nenhum dos sabores do cardápio nem do mostruário. Ela finalmente chegou ao biscoito da casca. Mordiscou. Aquele olhar mostrava, mesmo sem se ver, que ela não tinha fome. A mulher mordia novamente o biscoito, com mais vontade dessa vez. Nesse momento chegou um homem junto ao carrinho de bebê, colocando um cupom fiscal no bolso, segurando o carrinho com a outra, ela soltou o carrinho revelando um brilho reluzente, ao mesmo tempo em que jogou a casquinha – quase inteira – sobre um prato descartável em cima da mesa.

Ao levantar, de tão íntima já não me conhecia mais. Saiu na frente sem mais nem um olhar, seguida pelo carrinho e depois pelo homem. Eu fiquei esperando o meu pedido ser atendido enquanto olhava as outras mesas. A lanchonete, em todo seu espaço, pareceu-me agora grande. Pessoas esperando, outras já comendo. Outras ainda cobiçavam os lanches do cardápio ou ainda do mostruário, alimentando a dúvida. Minha comida chegou. Nem lembro mais o gosto. Talvez, por naquela hora, o que eu sentia já não era mais fome.