raio, estrela, luar

As suas partes mais bonitas. Não era como se  estivessem nela, mas ainda sim era o que mais nela me atraia.  Acredite, nada contra ela, uma moça até legal, conhecida de tempos, que até consegue me tocar com suas histórias sobre sentimentos e sonhos chovidos em pleno dia, mas que ela dizia ser de uma noite de verão.

Era esse, talvez, o seu maior defeito. Não me comover, nem de longe. Sou um cara que se engana fácil por belas histórias e anúncios publicitários. A falha que ela cometia era acreditar que a propaganda era o produto. Não, não. Não é como eu faço. Eu apenas vejo a propaganda da coca-cola, onde o todos tomam aquela água negra pra viver bem; o chocolate que aparece caindo, líquido, e pousa em forma de barra; digo pra mim mesmo “se tivesse uma coca-cola aqui eu tomaria” ou “se fosse mais cedo, eu sairia para comprar um desses”. Ela não.

Ela iria à loja com a missão de beber a maldita coca-cola e comer o maldito chocolate do comercial, fazendo dessa a própria cruzada rumo a mimese. Nem precisa ser de pobre ou de criança, sabemos como acabam essas tais cruzadas.

Aos dez anos de idade, quando eu via um filme sobre dragões, minha reação era me fantasiar de matador de dragões com as tralhas que encontrasse em casa para brincar; aos 15 eu iria querer um jogo que abrangesse aquele universo; hoje em dia, nem uma sequência eu iria querer, para a coisa não perder o tom. Ela a vida toda há de querer esperar na janela o matador de dragões, para salvá-la desses males que a cercam com certa esquizofrenia.

Sim. Como eu dizia agora há pouco, não ache que descrevê-la fisicamente resulte em nada. Não leve a mal. Ela até tem seu valor. É daquelas mulheres que quando você vê não sabe exatamente o que fazer. A questão é que  com as primas dela você só não sabe por onde começar. Sim, suas primas. Cada uma mais bonita que a outra; todas mais bonitas que ela. Do tempo que a gente conviveu, eram três as que eu conhecia.

Uma devastadora. Diferente no meio da multidão, se destacando com uma ferocidade impactante, contundente. Nunca se sabia quando ela ia chegar, mas sempre que passava, ficava impressa no ar. Era absoluta no mais efêmero dos instantes. Vi-a num bar. Conhecia conhecidos meus. Cumprimentou menos da metade dos nossos – sua prima estava no seleto grupo, claro – e saiu sem mais nem quê.

Outra estava sempre por lá. Radiosa. Imponente. Abrasadora, fazia suar em pleno frio, e quase sempre também, transpirar o gelar das mãos. Desde a última vez que a vi ainda tenho sua imagem bem viva na retina. Foi no cinema. Antes do 3D. Na fila de algum filme não importante que fui ver só. Hábito meu. Ela estava lá, mandante, com a prima mortal, a única que não veio do Olimpo, mas acreditava ter sangue divino. Pobre. Depois disso foi normal encontrá-la semana sim, semana não pela cidade.

A terceira comparava-se às outras duas. Era suave, nem por isso menos insidiosa. Sempre a via de um jeito diferente, porque era assim que ela se mostrava. Quando queria. Algo de insinuante, sem ser agressiva, a beleza. Como fosse ela própria somente assim. Aniversário de um amigo. Ela entrou com um namorado que nem existe mais. Não que tenha morrido, apenas não é mais namorado. Pelo menos dela, tornando-se dispensável de comentários. Ela chegou depois dos parabéns, como para que todos notassem sua entrada, falou com o aniversariante, cumprimentou as pessoas de maneira distante, saiu após um tanto de hora. Depois de algum tempo vim saber do parentesco.

Então, a moça, coitada… como que moça? A moça original da história. Eu sei, eu sei. Com tanta luz em suas primas, ela é apenas prisma. Um recipiente que refrata a presença e a beleza do sangue das moças e asperge como sua. Mestiça. Não importa as qualidades que competem a ela, será sempre sombra, mesmo de luz. É como dizem: Uma mulher de ancas largas, boa parideira; uma mulher com apetite, uma boa mulher; mas uma mulher com isso e boas primas, é uma boa conversa aos domingos em família.