o cosmo e a esfinge

 “Pela imensidão do constelado céu, perdido na miríade de gases pulsantes, estava a constelação do homem velho…”

– Isso existe mesmo? – perguntou o garoto a quem eu contava sobre o grande mistério da origem.

“Isso o quê?”

– Essa constelação. Nunca ouvi falar.

“Existe sim.” Então tive que explicar ao moleque que as constelações foram criadas por povos antigos para a localização, previsão de efeitos sazonais como maré e outros serviços de utilidade pública. “Então, cada povo ou civilização antiga criou a sua. Os índios aqui do Brasil criaram a constelação do homem velho, formado pelo touro e pelo Orion, que você deve conhecer…”

– Vi nuns backups do papai que esse Aldebaran era um inútil… o Órion não me lembro, devia ser outro… bem, não tenho nada contra esse vovô índio aí…

“Nem deveria, seu moleque-piranha.” Falei alterado e ele pareceu entender que eu não queria mais interrupções. O menino me tirava muito do sério “Deixe-me continuar. Está vendo ali? Aquela estrela mais brilhante, Tauri, e aquelas ali perto são a cabeça. Acima…”

– Ele tem um chifre?! Que nem o Aldebaran?!

“É um penacho.”

– Ok. Sem interrupções.

“Enfim, ali é a perna e um cedro naquela mão. Como você pode notar, ele só tem uma perna. Reza a lenda que a mulher deste homem se apaixonou pelo irmão dele e para ficar com o cunhado, matou o marido cortando-lhe a perna.”

 – Bem…

“Não interrompa!” O moleque que tinha o dom de interromper. “Mas, os deuses dos índios transformaram o homem em constelação. Uns dizem que por pena, eu digo: é um exemplo para que os homens do mundo desconfiem sempre das mulheres, mas isto fica pra outro dia. Por conta do seu martírio celestial, o homem velho acabou por ser sugado por um buraco negro e virou do avesso, foi invertido, esticado e dobrado por toda a ausência do tempo e espaço. Até que ele parou em uma brecha entre dois universos e encontrou vários planetas piramidais espalhados por um extenso campo de areia espacial. O sol era um concentrado desse deserto, onde a areia incandescia em um diamante em forma de octaedro. Isso para quem conseguisse ver de perto, o que não era muito fácil, pois seria como chegar perto do nosso sol…”

– Que viagem errada. Se ninguém chega perto, como podem dizer da forma se só é possível dizer chegando? E como uma constelação foi sugada por um buraco negro e tudo bem?

“É isso o que eles te ensinam na escola? Que só levantando esse dedo você pode interromper alguém? Sobre o Octahelio, simplesmente estava escrito pelos outros planetas em uma linguagem semelhante a dos egípcios. E eu nunca disse que ele foi sugado e tudo bem. Ele estava agora imaterial, apenas em essência. Nesse vagar pelo deserto do entremundos, ele foi surpreendido ao encontrar um tabuleiro encimando uma urna, que por sua vez era sustentada por uma árvore seca. Em cada uma de suas raízes havia um busto de algo que deveria ser um animal daquele universo estranho.”

– Tudo isso flutuando no ar.

“Dentro de uma bolha de sabão.”

– Ah vá.

“Continuando”, proferi após um pigarro. “ele pôde entrar na bolha, pois era essência e assim, não abalaria sua estrutura. Ao se aproximar do tabuleiro, percebeu que não estava só. Apareceu um leão bípede, que revezava o seu rosto entre o original felino, e prefiro pensar assim, e rostos humanos aleatórios. Então ele proferiu sua voz de rei das feras e faraó do entremundos e o desafiou para um jogo.”

– Imagino ele com o rosto do 50 cent. ‘U have to play under my rule’.

“Rostos de humanos devorados por ele.”

– Ok. Vou usar o do Michael Jackson.

“…”

– Posso?

“A vida é sua.”

– Certo. MJ.

“Então Esfinge explicou que teriam de jogar uma partida de gamão…”

– GAMÃO?! Que porcaria…

“DEIXE EU TERMINAR!”

– …

“…Onde se ele ganhasse, poderia pedir o que quisesse, até o segredo do universo contido na urna. Porém, se ele perdesse, seria devorado como os demais. A partida correu tensa. Foram horas naquele mundo, séculos no nosso. Até que o velho ganhou de Esfinge. ‘Perdi’, disse a criatura: ‘poderás ter o que quiseres, até mesmo o mistério das eras, que está aqui dentro.’ O homem refletiu em sua escolha, e decidiu. ‘Tudo que quero é a minha perna de volta.’ Esfinge decretou que seria desta forma e desde então algumas pessoas dizem ver uma perna atrofiada vagando pela imensidão.”

– …

“…”

– Era isso?

“Como ‘isso’?”

– A história de um saci corno? Porque, segundo o senhor mesmo, ele é meio touro e tem um chifre…

“Foi isso que você aprendeu da história?” – Pergunto ao ver que a porta se abria atrás do fedelho. Era seu pai.

– Demorei muito? Como foi a noite de vocês?

– O vô tava contando uma história de um velho corno que fumava maconha.

“Infância perdida. Em pensar que o irmão dele se veste como uma menina pobre e chora pelos cantos.”

– Hahaha… ok, filho, vá buscar suas coisas.

– Certo! – Comemorou o garoto como fosse um gol e partiu como um raio.

– Você não devia contar essas coisas pra ele.

“Mas, e quando a hora dele chegar?”

– Não vai chegar enquanto eu ainda possuir o Olho de Octahellos.

“Seus inimigos estão cada vez mais próximos.”

– Estou tranquilo. O gato falante disse que do homem que chegou mais perto de mim só sobrou uma perna.

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