a diferença

Triste é te ver assim.

Domesticava soluços. Chorava o São Francisco em toda sua seca. Chorava para um afluente interior. Não adianta negar.

Na porta de casa. Agora sua. Nossa um dia? O que era meu era teu, o que era teu não me cabia. Pertenciam-te a totalidade das coisas e abraçava-as senhora de todas elas. Trazia-as ao regaço com o amor de Deus sobre a humanidade; entendi, então, o porquê dos que não querem crer. Fomos dois, pois que nunca apenas um. Eras sempre mais.

Recibo da conta de luz. Amasso na mão. Último elo fora as lembranças. Somente porque tudo é teu. Jogo fora logo após pagar. Mas pior que o escuro da noite é o que carrego em mim. Não entenderias e toda palavra que lhe trouxesse a fustigaria mais do que o não dito que te ofereci, para que preenchesse dos dizeres que mais lhe agradassem o olhar.

Falava como se apenas você tivesse se machucado em sua própria razão. Como para me proteger, me escondesse em ti. Posso ser um fraco, mas não covarde a tal ponto. Minha honra só permite esconder-me atrás de mim.

Sou alguém que não completa as coisas que começa e não consegue se entregar aos próprios planos. Talvez por não haver certeza nessas coisas que vem a mente ou entram na vida assim ligeiro.

E tentavas parecer comigo. Mas naquilo que eu menos gosto em mim. Minha pior metade num espelho invertido. Isso me irritava, mas – por Deus! não sei como – seu entendimento não alcançava isso.

Mas trago ainda algo disso. O amargo do meu café agora é teu, sabe? O teu doce me foi enjoando ao ponto de virar insuportável. E esse amargo, essa ausência, vai fazer-se sempre presente. É assim que funciona. É a diferença. Não morri. Serei imortal enquanto me matares todos os dias. Não tirei a vida.

Apenas você.