distração (ou meia dúzia de corações)

Estava cheio disso e precisava sair de casa. Foi assim que descobri uma utilidade para minha tristeza. Jogava poker. Sem o habitual ânimo das emoções positivas, tinha uma vantagem sobre os dias felizes. O que se pode perder em uma mesa de poker fica desimportante. Nem me impressiono a ponto de delatar-me. Não sabia dizer o quanto, mas ganhava mais do que perdia. Não era esporte ou terapia, nada assim. Era um hobby como ir à praia. Precisava do clima propício para ser proveitoso. Mas também não era lazer. Distração.

Já tenho minhas cartas. Small blind. Aproveito para tentar pegar algo da reação de cada um. Não conheço muitos. O de chapéu tem um cacoete, mas só quando blefa. É de esperar. O de aparelho não denunciou nada. O Juca fez o seu velho muxoxo. Bernardo franziu o cenho (seja lá o que quer dizer). A moça sorriu. Mão boa ou sacanagem. Ouro e espadas. Par de seis. Devo ter rido também, só que de canto. Completo o pote. O do chapéu passa. O de aparelho segue. Juca sai. Aproveitou para fazer às vezes de dono da casa e foi buscar gelo.

Completei minha aposta. Chapéu completou. Aparelho cobriu. Bernardo saiu. Moça completou. Completei Aparelho. Ricardo, o dealer, flopou seis de paus, rei de ouro e ás de espadas. Começo com um valor baixo. Chapéu cobriu. Aparelho subiu. Subiu muito. Os dois podem ter Anna Kournikova. Talvez K e 6. Moça completa. Ainda não vi sua mão, mas ela tem um belo par. Rio pensando nisso. Chapéu completa.

Juca traz o gelo. Espanta-o tantas fichas no pote sendo apenas uma da manhã. Uísque e guaraná. Foda-se se essa porcaria ficou doze anos em um barril para poder ser vendida/apreciada e estou desperdiçando com refrigerante. Não posso ficar bêbado antes deles. O gelo é servido no líquido (outro “erro” para o qual não estou nem aí) quente e seu estalo soletra algumas lembranças. Caminhos que eu já não faço por levarem a lugares que não me tem mais nada. E as ruas que eu ainda trajeto continuam iguais para o resto do mundo. Só para o resto. Vejo tudo como se estivesse fora do lugar ou se o sol tivesse resolvido nascer do norte e as sombras e as cores mudaram todas de lugar. Parece que as esquinas são laços nos cadarços do tênis de uma criança, que se soltam e se entrelaçam de uma maneira diferente ao serem amarrados outra vez.

Distração.

Minha vez de apostar. Não, minha vez de cobrir. Ninguém saiu. O pote está bem maior. Quanto eu preciso pra completar? Cubro. Os da mesa caçoam do meu teor etílico. Só pago mais pelos seus movimentos. Senti-me o rei dos tiranos pensando assim. Chapéu completa. Aparelho completa. Moça cobre e sorri. O que a move nesse jogo?  Aqui posso olhá-los quase como num estudo. Só que sem a parte chata do referencial teórico.

O dez de copas que chegou no turn movimenta possíveis valetes e rainhas em sua mão. Ou não. Completo. Chapéu cobre. À espera do seu rei por um full house, tavez. Aparelho sai amuado. Passou da hora. Moça completa. Royal straight. Talvez. All in. Fichas e burburinhos na mesa. Nosso semi profissionalismo fica amador essas horas. Vejo cada vez menos graça nisso. Sorvo o que resta no copo em um só gole e encontro o olhar de moça, que dengosamente evita o meu. Não me interessa o prêmio em si. Meus desejos são mais simples.

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o inimigo

Faz calor como sempre essa época do ano, dizem os nativos. Eu digo que está tão quente como todas as épocas do ano em minha cidade. Para eles é o fim do mundo transpirar só de estar na rua. Estão todos esbaforidos na fila. Como o ambiente é todo climatizado, as pessoas da frente já estão um pouco mais confortáveis.

Sujeito moreno, cabelo bem cortado, óculos. Garota loira, belo decote, óculos. Senhora loira, elegante, veste azul. Morena, baixa estatura, cabelos curtos. Sujeito loiro, camisa de time, boné. E vários outros tipos se repetindo e se destacando pela fila. Alguns eu nunca imaginaria que iriam ler o meu livro.

Então, depois de várias pessoas, um sujeito estranhamente familiar. “Quero uma dedicatória sincera no meu livro, cara. E assina com o primeiro nome”, pedido que ele tratou de justificar prontamente. “É que tem muito cara que fica ligado no lance do sobrenome. Principalmente autores, atores… personalidades. Essa gente que não vende futebol, não vende livros, não vende filmes, não vende arte. Vendem nomes.” Uma teoria interessante, entretanto não estava a fim de conversa. Peguei o livro e fui assinar. Abri a primeira página, em branco, e comecei a escrever. Perguntei o nome “Ícaro. Mas não vem com essa coisa de saudações-espero-que-goste-blablablá. Você não pode escrever algo sincero sobre mim porque não me conhece.” disse enquanto pegava o livro de minha mão. “Gostei do seu livro.” Arrancou a primeira página, a qual eu havia começado a assinar, amassou e jogou no chão. Paula, minha assessora, olhou de forma perplexa. Fiz um sinal para ela de que estava tudo bem. “É uma bela mentira. Uma grande e bela mentira. A verdade que você vende está no seu nome”, continuava a falar.

“Essa gente, quantos você acha que leram ou irão ler O Inimigo?”, a pergunta soou ofensiva como a maioria das verdades. “Talvez as pessoas leiam por causa do filme que vai ser baseado nele, mas a maioria vai se contentar com o cinema. Mas alguém vai ler, cara. alguém vai gostar. Ainda é um bom livro. Só é um produto melhor, o que, de certo modo, é uma pena. É você que as pessoas compram, não o livro”, ele concluiu. Perguntei o que eu fiz para ser um bom produto. “Nada. O que fez de você um bom produto foi o contrato com o estúdio que vai realizar as filmagens. Contrato que sua assessora conseguiu. Ela pegou você e seu livro e transformou em algo que vende”, resumiu. Eu disse que era bom. Eu sabia que o que eu fiz era bom. Ela não vendeu areia no deserto. “Eu sei, cara. Mas você pode encontrar uma vassoura por 8 reais em um supermercado, como por 50 reais em uma igreja. Sabe qual é a diferença entre as duas?”. Pensei um pouco antes de responder que era a forma de se vender. “Errado”, respondeu ao se levantar. “Vamos indo. Você pode usar esse tempo para desenvolver algo ao menos sincero”. Loucura, digo. Levanto para ir embora e, após dois passos, viro e digo que a diferença entre as vassouras é a função que elas têm dado o local em que se encontram. “Errado, cara! E você não pode fazer tanta pose para dar uma resposta errada. Perde os seus argumentos”, disse me acompanhando.

Bebia água em longos goles em uma garrafinha de plástico que tirei do frigobar. “Essa água tem um gosto de plástico meio triste”, disse Ícaro. Hesito por um momento. Só agora achei estranha a presença dele no meu quarto. “Cara, não vou te matar. Você não é um Beatle nem nada. Sem querer ofender”, a resposta fez com que me sentisse um babaca. É o que gente legal faz quando expõe seu ponto de vista como coisa óbvia. Não importando o tamanho do absurdo. Fora que esse tom e o humor são bastante familiares. Certo, eu disse, mas preciso me arrumar.

Peguei uma toalha do hotel e fui para o banheiro. Qual o plano? “Bem. Vai ter uma festa com o pessoal da Bienal. Eles fecharam uma casa a algumas ruas do hotel. Uma boa caminhada.” Eu sabia, tinha os convites. “A gente se encontra no refeitório em duas horas, come alguma coisa e vai. Compartilharemos mulheres e bebidas.” Uma batida na porta. Meu nome é chamado por Paula. Disse que tinha uns documentos para que eu assinasse. “Já to de saída. Vou abrir a porta pra ela e te encontro mais tarde.” Quando ouvi a porta abrir, disse a Paula que deixasse os documentos sobre o criado mundo ao lado da cama. Curti um pouco a água fria caindo sobre o meu juízo e, ao fechar a ducha, voltei à realidade sendo puxado pelo som que vinha do meu quarto.

Da porta do banheiro vi as roupas de Paula jogadas no chão, ela apoiada em seus joelhos e cotovelos sobre minha cama, de frente pra mim. Ora fechava os olhos, ora olhava em minha direção, mas como houvesse apenas o vão da porta. Meu convidado também estava nu. As mãos puxavam Paula para si pelos quadris. Ela tinha em seu rosto um prazer contido, como era tudo nela, que deixava escapar um pouco em cada gemido. O ritmo ia acelerando e minha secretária não perdia o compasso. Seu jeito comedido ia se deixando levar em uma ofegante vontade maviosa e sem culpa, como se pudesse flutuar a qualquer instante e por isso segurasse cada vez mais forte as cobertas do colchão até o ponto de querer trazer tudo para si com medo de que essa sensação que lhe percorria o corpo todo pudesse fazê-la se perder pelo universo. Mas era inevitável se entregar, pois a força relutante que possuía ia se transformando na frouxidão dos gestos mais suaves. Era agora um desfalecer, um virar de olhos, um deixar-se abater. Ícaro ergueu o corpo de Paula de sua rendição ao trazer o olhar dela para junto do seu pelos cabelos. Ela sorria. Um riso que eu nunca soubera. Encontro de lábios. Seus seios eram belos e resistiam firmes ao arfar do corpo suado e trêmulo de sua dona – se ainda lhe pertencesse – como ao passeio da esquerda daquele que fazia uso de sua graça.

E da minha cama. Ambos se deitaram e eu fiquei ali assistindo. Um minuto. Dez. Mais. Fui à varanda e fiquei mais algum tempo. Quando voltei, estava só no quarto. Virei o lado do colchão e pus nele novas cobertas. Terminei o banho, olhei os papéis que Paula havia trazido com a tevê ligada e desci para o restaurante do hotel.

Logo após eu sentar, chegou o felizardo do dia. O garçom o acompanhou quase que sincronizado. Pedi um prato para o jantar que servia duas pessoas na intenção de comer só. Pediu duas doses de uma boa cachaça de entrada. Tudo foi anotado e seria devidamente providenciado. Eu perguntei porque cachaça. É algo mais específico do que cerveja, por exemplo, que até quando a gente não quer, se tem vontade. Eu poderia simplesmente recusar. “Não sei. Apenas arrisquei. Na maioria das vezes não mata, cara. Leve isso para a vida”, disse em tom prosaico. Quase achei graça. Na verdade achei, mas não queria demonstrar. As bebidas chegaram. “Mais duas”, pediu, “por minha conta”. Poderia pedir quantas quisesse. “Um brinde a Paula”, disse e fiz questão de interromper; nada contra esse envolvimento, mas, já que o tema foi abordado, achei desrespeitoso o que aconteceu na minha cama. “Não a demita, cara. Ela é boa no que faz… sem fuleragem”, completou antes de qualquer reação minha se esboçar. “E, em todo caso, ela está realmente apaixonada por você.” Agora o absurdo soou alto como meu gargalhar. Era tudo muito patético e fora da realidade. Haja criatividade para falar algo tão descabido. “Aí vem ela. Deixe os reclames para depois.”

Nunca a vi de vestido e esse estava exatamente acima dos seus joelhos e das minhas expectativas. É verde. Ou azul. Nunca a vi de decote; pelo menos não um que me fizesse notar, que realçasse tanto. Nunca a vi de cabelos soltos. Só os soltava para prendê-los novamente. Eram maiores do que eu pensava. Nunca a vi sem óculos. Não com esse brilho no olhar. É claro que eu já a vi nua e transando, mas nada agora é sobre isso.

Ela olhou vagamente para Ícaro, como quem olha um desconhecido, e me cumprimentou adoravelmente enquanto eu tento ser o mais educado possível, pois ela parecia achar a situação extremamente normal. Tentei parecer maduro ou algo do tipo. A convidei para sentar, mas ela não quis. Agradeceu, mas disse que jantara quase agora com o pessoal da bienal e ia tomar um café com eles. Ao sair, ela olhou-o de novo sem propósito, tornou a vista para mim novamente, despediu-se e seguiu sensualmente como nunca, rebolando com uma naturalidade que notei pela primeira vez.

“Então”, as palavras saíram em meio a um pigarro debochoso. O garçom havia acabado de sair. Mais duas doses à mesa sem que eu tivesse notado. “Um brinde a Paula”, disse, “vamos lá. Você sabe que ela merece”. Tirando às circunstâncias – que me faziam relutar – eu sabia que sim. “E sabe aqueles peitos? Naturais.” Sério? “Absolutamente. E o jeito que ela te olha, a dedicação ao trabalho… A você… é um cuidado que beira o extraprofissional.” Ainda estamos falando dos seios dela. “Se é assim que você quer, brindemos duas vezes, pelo par.” Feito. Estava cheio de uma idiotice juvenil agora, mas queria um pouco disso. O álcool desce queimando. Bateu na cabeça. Após virar as doses, levantei meio cambaleante ao que meu companheiro de farra reagiu com um riso. Achei graça. Agora tinha um tanto de graça.

Ao chegar à festa, toda aquela luz ambiente junto com alguma bebida a base de vodka (o que esse pessoal tem contra cerveja?) deixava tudo um pouco mais frouxo e risonho. Pessoas sem rosto me cumprimentavam. O DJ tocava qualquer música. A batida marcava no peito, mas nada ficava no coração. “Cara, se liga. Elas querem conhecer você e o seu trabalho. Parecem até atrizes. Acho que tem potencial para alguma participação no filme.” Tudo o que eu queria era rir do absurdo daquilo, mas me contive ao ver o quão bonitas eram as duas garotas. Uma loira daquelas que descoloriu o cabelo até o quase branco, com alguns piercings visíveis e várias tatuagens no corpo magro bem a mostra pela camisa e shorts muito curtos. A outra, morena de cabelos crespamente cacheados em um black power. Saia longa de um tecido leve e uma camiseta justa de alças finas denunciavam um corpo torneado. Disse a elas que não podia simplesmente indicar todo mundo que me pede, mas que gostaria de conhecê-las melhor. Mais um destilado. E mais um. Sem sal, sem limão, sem gelo, sem suco, sem sabor. Então elas começaram a falar sobre a vida delas e eu me esforçava homericamente para parecer que prestava atenção.

A água fria me fez despertar. Tentei respirar, mas percebi que estava completamente submerso. O desespero me puxou para fora d’água. Estava na piscina do hotel. Sentia o cheiro de cloro e de noite e de haxixe. A jovem loira, que tinha na boca um baseado, passava-o para a morena – já estava nua e com uma garrafa na mão – enquanto tirava a roupa. Elas entraram na piscina e eu notei que estava nu. Quando todos já estávamos na água, a conversa se iniciou como de um ponto que já tivesse sido debatido. O cigarro e a garrafa faziam rodízio em nossas mãos. “Quanto mais doido você for, mais elas curtirão. Tipo excêntrico, cara. Saca?”, não lembro que horas ouvi esse comentário. Perguntei se elas o viram, disseram que sim e que agora era hora de retomar o que começamos no taxi. Enquanto eu pensava que nem sabia que tinha entrado em um elas começaram a se beijar e já não importava como eu tinha chegado aqui. Trouxe-as para junto de mim e pude sentir em suas bocas o gosto de cloro e batom e cachaça e cigarro e saliva e não nessa ordem. Não havia ordem nenhuma, mas algo parecido com felicidade.

O momento foi interrompido pelo pigarro de um espectador. O zelador disse que adoraria ficar assistindo a gente sem interromper (algo que aposto que demorou o máximo que o seu chamado profissional permitiu), mas estávamos quebrando pelo menos umas cinco ou seis regras do hotel. Nós saímos da piscina e chamei as garotas para se enxugarem no meu quarto. Pegamos as coisas e fomos andando até o elevador. O zelador (sem tirar os olhos das duas) pediu com tristeza que nos vestíssemos. Ao ouvir nossa negativa, disse que nos encaminharia ao quarto para que não causássemos baderna pelos corredores.

Entramos e apertei o doze. Começou a tocar uma música baixinho. No dois a porta abriu e um cara olhou para a gente como quem vê três pessoas peladas e molhadas em um elevador. Lembro de ter feito a cara mais inocente que conseguiria. O zelador, que estava gostando, voltou a temer pelo seu emprego caso o hóspede advertisse seu chefe pelo caso. Desce? Sobe. Não tem problema e estávamos nós cinco naquele silêncio característico do ambiente, que tinha sua fragilidade marcada nos risos abafados que seguiam nossa troca de olhares. Era estranho não sentir vergonha, pois já a sinto quando estou vestido e em condições convencionais de uso de elevador. O cara olhava o teto, o chão, batia o pé e todos os trejeitos do lugar. Até que a porta abriu no nosso andar. Ao sair, dei boa noite e houve uma rápida troca de cumprimentos. No corredor todos rimos e a música parecia agora aumentar e nós dançamos conforme seu ritmo acelerado pedia. Desespero para abrir a porta; passadas largas até a cama. Entrelaço de pernas e braços e línguas e lembranças que fugiam com o álcool maldito bendito que queria para ele a minha visão e o que eu sentia daquilo tudo.

Acordei com o telefone do quarto chamando. Começou distante, mas fui atender antes que aquele inferno esmagasse minha cabeça com marteladas vindas de dentro. Era Paula. Perguntou se eu estava vivo, se tinha noção das coisas que fiz e começou a reclamar num tom mais alto fazendo que eu tivesse que tirar o fone do ouvido para não sentir os tambores de guerra da ressaca ressoando mais fortes. Como eu disse que não entendia nada, ela ficou de passar tudo no café.

Ao olhar para a cama, uma jovem morena. A visão do seu corpo desnudo sobre a cama me trouxe uma profusão de flashes. Fui olhar mais de perto e constatei que ela era realmente bonita. Lembrei da loira. Procurei-a e a encontrei no chão, junto a uns lençóis molhados e embolotados do outro lado da cama. Após conferir que estava viva, coloquei-a junto da outra e fui tomar banho. Ela era menos bonita que a primeira e não tanto quanto eu podia recordar. Fiz a barba numa última tentativa de parecer melhor (sem sucesso), me vesti, arrumei as malas e desci para o café. Depois as despacharia. Levava apenas minha pasta.

Entrei no elevador relativamente cheio e tive lapsos de memória. Estava com aquelas duas estranhas na piscina. Um riso frouxo escapou pelo canto do lábio. A porta abriu para o andar do restaurante. Um cara saiu na minha frente, me olhou e me dirigiu um bom dia amistoso. No caminho para a mesa do bufê, o zelador me cumprimentou com um tom de voz cumplicioso, cheio de aprovação. Aí vieram as imagens do elevador e mais da piscina. Sorri o que pude em meio à dor de cabeça e fui me servir. Doce de leite, ovos, calabresa, torrada, café e água.

Paula sentou-se a mesa mais calma do que na hora da ligação. Deu um discurso breve sobre responsabilidades, maturidade, noções da vida e umas coisas assim, tudo sem me encarar. Parecia abatida. Disse também que o “incidente”, como ela preferiu chamar, não era o fim do mundo, pois, olhando os emails pelo celular pessoal, viu que alguns repórteres de revistas e sites direcionados ao público masculino queriam entrevistas, o que pode ser bom para divulgar o livro e o filme em um novo segmento. Além disso, o escândalo seria brevemente contornado, já que eu sou apenas o dono da ideia e não o ator que fará o protagonista na adaptação. O que soou na minha mente foi “vender meu nome”, “um produto melhor” e aquele papo.

Ao terminar de comer, abri minha pasta e peguei um exemplar do meu livro. Quando o abri estava sem a folha de dedicatória. Escrevi algo na parte interna da capa. Li e sorri satisfeito. Ao caminhar para a sala da palestra, parei antes no espaço onde estava o estande em que dera autógrafos no dia anterior. Lá estava Ícaro esperando. Entreguei-lhe o livro. “Noite boa?”, sorrimos com a pergunta. Leu a dedicatória e aprovou. Parecia mais satisfeito que eu. “Parece que você entendeu. Talvez eu te ensine mais algo na próxima”, disse ao se despedir.

Eu vinha fazendo o meu trabalho como já era de costume. Ele achava desgastante conversar com fãs e atender-lhes as esquisitices, fotos e autógrafos, mas conseguir fãs era bem mais trabalhoso. Conseguir contratos para divulgação de um livro, patrocínio para custear as despesas, controlar a agenda de alguém tão relapso… agora ele estava em uma dessas tardes de autógrafos necessárias em convenções do gênero. Ainda tive que deixá-lo apresentável.

Termino de falar com o pessoal da organização e começo a pensar no infortúnio de viajar para uma cidade de clima marcado por temperaturas baixas justamente quando ela está em sua época de calor. Enquanto eu me imagino vestida nas roupas de frio que tive que deixar em casa e nas que comprei por aqui e não terei o prazer de usar na rua, vejo que a fila de fãs e curiosos encerrou, mas ele continua sentado, mirando o vazio. Vou avisá-lo que ele pode usar esse tempo livre para descansar um pouco ou passear, pois ele poderia sentir falta depois (ele sempre reclama que não sobra tempo pra nada). No entanto, ao iniciar a minha aproximação, vejo-o arrancar uma página de um exemplar de seu livro, amassar e jogar no chão. Ok, as coisas estão ficando meio estranhas. Ele se virou para mim e acenou algo como se estivesse tudo bem. Que se dane. Vou revisar uns contratos no quarto.

Após a análise dos documentos, decidi levá-los para que ele assinasse. Eu sempre dizia o teor dos contratos de forma resumida e me demorava em qualquer cláusula atípica. Ele preferia assim. Se eu fosse esperar que todos fossem lidos e analisados por ele, demoraria tempo suficiente para perdermos inúmeras oportunidades. Bati a porta de seu quarto. Ele a abriu de toalha e pediu que eu entrasse dizendo que iria tomar um banho rápido. Pude ouvir o chuveiro ligado. Disse ainda que não me incomodasse, o que não adiantou muito. Principalmente porque ele estava um pouco diferente, talvez a situação. Deixou a porta do banheiro aberta. Desleixo digno de seu perfil ou apenas um atrevimento oportunista? Minha curiosidade envolvia mais do que isso. Havia apenas uma cadeira no quarto, na qual me sentei esperando. Cada segundo de espera era mais desconfortável. Resolvi que voltaria depois e anunciei a minha saída. Ele pediu, do box, que eu deixasse os documentos em cima do criado mudo, ao lado da cama e eu o fiz. Quando virei ao procurar a saída ele estava diante de mim, molhado e sem toalha. Tentei olhá-lo nos olhos enquanto falava da falta de respeito e atrevimento, mas não havia um lugar certo para olhar nem muito que dizer. Menos ainda durante sua aproximação. Eu relutava em me entregar ao seu toque apenas na mente, pois o meu corpo me traía, obedecendo às próprias vontades carnais. As sinapses que carregavam o prazer iam turvando as noções de certo e errado de mim até que só houvesse uma vontade naquele quarto. E recompensa.

Depois de todos os risos e carícias e entregas, dormimos. Levantei de susto e ele já estava de pé, na varanda. Olhei-o e parecia distante, em outro mundo. Vesti-me e sai sem incomodá-lo, não sei bem porque fiz assim.

Na hora do jantar eu me arrumei, mas não para o trabalho. Quando fui ao restaurante do hotel, cheguei à mesa dele. Ele me olhava como um bobo, mas me tratava de forma comedida. Haviam duas doses de cachaça sobre a mesa, mas o lugar da frente estava vazio. Falei-lhe sobre qualquer coisa esperando quem estivesse com ele, porém sem sucesso. Fui embora um pouco frustrada comigo e saí com o pessoal da bienal. Eu poderia perguntar se ele estava com alguém e me senti boba por não ter feito. Voltei cedo e dormi depois de um filme na cama.

No outro dia, tudo virou um inferno. Fui olhar meu email e havia uma recomendação de que olhasse um site em que publicaram fotos de um famoso escritor acompanhando de duas mulheres bastante novas, todos nus, nas dependências de um hotel de luxo. As fotos eram acompanhadas de um texto que dizia que eles estavam com um “cigarro suspeito”, bebendo e “se divertindo sem as roupas, algo habitual nesse mundo ‘alternativo’ ao qual pertencia”. O texto ainda dizia que eles pegaram elevador com um hóspede que não quis se identificar e que achou a cena surreal, mas nem por isso deixava de invejar o escritor.

Liguei para ele esbravejando, chorando de raiva dele e da minha idiotice de chorar por isso. Ele parecia que dormia ao telefone, ainda ébrio. Disse que não entendia muito do que eu falava. Gritei o quanto pude para externar a raiva e marquei com ele no café da manhã. Fui tomar banho e pude ouvir o telefone que não parou de tocar um instante. Ao sair do banheiro o desliguei. Seria um dia longo.

Já com a comida – intocada – no prato, olhava os emails na mesa do café. Alguns patrocinadores conservadores queriam desvincular a imagem deles com a de um bêbado, drogado, que vive na esbórnia. Já outros, machistas, queriam um contrato com ele, o perfil de “um homem que sabe viver”. Não podia acreditar naquilo, mas tinha que agradecer, ainda que incrédula. Ele chegou e eu expliquei brevemente o panorama atual para ele. Quando terminamos de comer, ele procurou alguma coisa na pasta e pegou um exemplar de seu próprio livro e escreveu na parte interna da capa. Disse que era melhor que não houvesse tarde de autógrafo hoje e que a palestra só aconteceria se ele estivesse em condições, ao que ele confirmou de bom grado, já que não teria que dar autógrafos nem tirar fotos por uma tarde inteira.

Quando saíamos ele foi com para o estande da tarde anterior. Fiquei a observá-lo. Deixou o livro autografado sobre a mesa. Tive quase certeza de vê-lo falando sozinho. Ele voltou e se encaminhou sorrindo para a sala da palestra. Voltei lá. O livro ainda estava em cima da mesa. Abri e li as palavras que ele escrevera.

São apenas vassouras.
Com carinho,
Ícaro

É, eu sei, faz um monte de tempo, é um texto ridiculamente grande pra se postar em um blog, mas é o que tem pra hoje. Agradecimento a Lud, que lançou o desafio (na semana santa ainda, desculpa a demora =P). Antes tarde do que nunca. pretendo voltar a fazer a coisa com mais regularidade. Senti o estranhamento com a angustiante folha em branco de word e das listras vazias do caderno. Além da enrolação, foi realmente trabalhoso. Enfim, mesmo que depois de um texto tão grande (dez folhas de word, parabéns pra quem terminou), ler mais isso aqui já é osso, né? Para os que leram isso, peço que desconsiderem na hora de comentar. Espero voltar com mais.