meia memória

com gelo, vodca, açúcar, limão. O copo transpirante na mesa era também um convite. Era uma promessa de uma boa noite. Aliás, de um bom fim de noite. Ou apenas a lembrança de algo bom. As coisas já não começaram do jeito que eu planejara. O que eu esperava de um momento a dois já possuía mais três espectadores e uma trilha sonora sofrível, mas não dá pra ter controle na playlist da vida em todas as horas, então, ficamos com o pagodão dor de cotovelo. Uma amiga dela; dois meus. Esses caras, inclusive, já me acompanharam em algumas noitadas nos meus intervalos de solteirice. A gente bebia por diversão. Quem conseguisse se manter em condições para falar com alguma garota, marcava com ela e as amigas e todos íamos para a casa do Túlio, que mora só. Lá as coisas ficavam mais divertidas. Fora da barulheira desses lugares.

Mas hoje eu não disputarei. O encontro de hoje fora marcado previamente. Ela já me escapou por entre os dedos um par de vezes e isso deixou tudo muito mais divertido. Conhecemos-nos enquanto eu ainda namorava (encontrei com Verônica hoje e nenhum deles sabe). Descobrimos afinidades que nos faziam sorrir juntos. Trocamos número e mensagens de celular por dias. Encontrei-a uma vez em um supermercado e outra numa dessas lojas que vendem de tudo, na seção de games. Sempre um quase. Até o Vai fazer o que hoje?, Não sei ainda, talvez um bar com uns amigos, Eu e minha amiga (que aposto que nem sabe disso ainda) também estávamos querendo sair para beber, A gente bem que podia, por um acaso, esbarrar no mesmo bar, né?, Verdade, afinal, essa cidade é tão pequena que a gente poderia acabar se encontrando no Bar Tal ou Naquele Outro, No Bar Tal, a chance é maior porque lá o clima é mais legal, Pois é, quem sabe, Vai saber.

E aí quando eu cheguei ao Bar Tal, ela já estava bebendo com a amiga. Ao sentar olhei seu copo com gelo, vodca, açúcar, limão. Dois pras duas e mais dois copos vazios. Cumprimentamos-nos em meio à música ensurdecedora e de péssimo gosto (faz parte) num Você por aqui, Que coisa não?, Sentem com a gente, Claro, porque não. Seguiram-se as apresentações. Não ouvi o nome da amiga dela, ela repetiu, fingi que escutei, Prazer, e um bom sorriso. Meus amigos pediram cerveja. Detesto esse mijo de macaco, mas nem fiz objeção já que não ia beber, pois vim de motorista. Ela decidiu acompanhá-los, a moça pediu mais uma caipirosca.

Trocamos alguns olhares já ali e tudo parecia em seu curso certo. Não sei quanto tempo depois ou em que momento o caminho entre nós, tão curto, começou a ficar turvo para ela. Quando foi que a mixagem etílica se anunciou na intenção de reclamar o pudor meio ébrio, deixando livre passagem para as boas ideias que sempre surgem nessas horas. Ela enlaçou-me o pescoço em seus braços, fez festa com os dedos na minha nuca, alisou-me o peito com as unhas e descia a mão seguindo a conhecida trilha da lei natural dos encontros. Chegaria se eu não a tivesse impedido. E foi aí que uma centelha de raiva apareceu dentro de mim. Nada de querer virar a mesa ou esbravejar contra o mundo. Só a ponta da linha onde começa o sentimento. Por quê? Não era ela. Não parecia em nada. Todos os nossos joguinhos saudáveis, a conversa dos dias, as pequenas coisas que compartilhamos para construir uma pequena ponte entre nós pareciam gravetos enfileirados diante de um abismo. Bobagem.

Vitor e Túlio celebravam o ímpeto da garota junto a sua amiga meio sóbria, que agora não mais bebia, talvez preocupada com a garota que me tirou os óculos do rosto, fazendo que eu reagisse com um Me devolve, Nãããão, sua voz já estava arrastada, Por favor, Vem buscar, disse ao colocá-los em seu generoso decote, Túlio e Vitor foram à loucura. Levei a mão à dobradiça da armação e ela segurou o punho guiando-a até o seio esquerdo, É o maior, ela disse com um olhar que esboçava a busca por um lampejo de provocação. Apesar de sentir a testosterona vibrante à mesa, soou-me tal uma súplica, quase um Me desculpa, ou um Tem piedade deste coração. Senti sua maciez, mas com certa culpa, e, novamente, a raiva tomou conta de mim, talvez pela alta imputação. Peguei os óculos e ela deitou no meu colo logo em seguida. Meus amigos me diziam numa vã tentativa de serem discretos que a hora era agora. Preferiram a folia da situação a uma moça de cenho levemente franzido em reprovação a eles, mas que não queria mostrar preocupações. Apesar disso, veio em minha direção chamar a amiga para ir ao banheiro. Ela levantou e, ao lembrar ou perceber onde estava, queria ficar, falou algumas palavras perdidas no som da noite (que agora era sertanejo universitário), mas foi ao toalete com sua guia.

Foi o tempo para meus amigos reclamarem comigo sobre eu não ter ficado com ela ainda. Ignorei os argumentos que passavam pela música, pois eles iam se repetindo até que as duas voltassem. Ela um pouco mais em pé e sua amiga um tanto tranquila. Peguei o telefone para consultar as horas e vi que havia uma mensagem recebida. Verônica. É tarde pra você?, a sóbria me perguntou sugestivamente, aproveitando a deixa, Parece que sim, Fica aqui comigo, ou em outro lugar comigo, interrompeu o diálogo pendurando-se em meu braço, Eu ainda vou deixar vocês em casa, Na minha casa não dá, melhor na sua, meus amigos se cutucavam e riam, me contagiei com eles dessa vez em um riso escapado, Vamos pro carro.

Sair do bar foi uma das melhores coisas da noite. Todo aquele barulho ficou distante. Pedi ao Vitor para ligar o rádio e um cd do Gilberto Gil tava no ponto. Ouvi sem escutar, mas já foi reconfortante. Túlio foi atrás com as garotas falando sobre qualquer coisa para amiga, que zelava em seu ombro o sono da protegida e a integridade do banco de trás, vigiando qualquer movimento nauseado da desfalecida.

Chegamos a casa dela. A amiga ficaria para cuidar-lhe. Quem tem um amigo tem um tesouro, já diz a história. Desci do carro para me certificar que tudo estava bem com ela. Ao me despedir, ela parecia mais dona de si. Desculpa qualquer coisa, Você não fez nada, Tenho a impressão que fiz, Apenas procure descansar e não se preocupe, Tá certo então, uma despedida menos calorosa do que a noite prometia no primeiro drinque visto à mesa. Um estranhamento só. Até logo, ela disse, Até, respondi, e voltei ao carro. Os poucos passos me fizeram pensar na raiva que crescia em mim, entrei no carro e Vitor me chamou de vacilão. Pensava ainda na raiva de como tudo deu errado, se desconstruiu diante de mim, que ela era a culpada. Túlio disse que ia investir na amiga dela. Não. Verônica era a culpada. Vitor disse que a gente podia ir pra outro lugar procurar garotas, ou apenas comer em algum canto e encerrar as atividades. Não. O culpado era eu. E já não era raiva, só decepção.

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