a reunião

Um homem com os poucos trapos que o vestem totalmente sujos. Não só o que lhe resta de pano como ele próprio está um farrapo de gente. Terra entre os dedos, sujeira na barba e na pele morena queimada de sol; sangue coagulado em um dos braços além de alguns cortes mais ou menos cicatrizados pelo corpo. No rosto, o único traço de limpeza que o pertence é uma atadura em volta da cabeça, que uma pequena mancha de sangue ainda fresco marca a posição do seu olho direito coberto. Ele me olhava pesarosamente com o esquerdo. Eu devolvia o olhar apenas com o direito. “Valha-me”, pensei. Depois do choque sobra um penar. Faz dias que não olho minha própria imagem, mas não pensei que conseguiria me surpreender ou me chatear com isso. Mas tudo isso passa. Só preciso de uma reviravolta das boas.

Ajeito a atadura a fim de conferir se ela está firme, perco meu reflexo de vista ao sair da frente do retrovisor do velho uno mal estacionado sobre o meio fio. “Esse lugar não se parece nada com o meu reino, mas agora é minha casa”, resmunguei alto. Uma senhora de meia idade olhou indignada e desviou para a calçada do outro lado da rua com suas compras e netas. Todas um pouco horrorizadas. Não sei se com a miséria ou pelo fato de eu estar urinando na vala do esgoto.

Aqui ninguém respeita ninguém. Todo mundo explora, sabota, deseja o mal do outro. O ser humano é uma praga. A praga da praga. Quanta bizarrice. Peguei velha porta encostada no poste e continuei a caminhada.

Algumas pessoas seguem sem ao menos notar minha presença, o que pode ser um tanto desconfortável quando se está carregando uma porta contando com apenas 50% da visão. Outras estranham e se afastam. Parece que o todo infortúnio traz algo bom, mesmo que do jeito mais canalha possível. A atadura não impede o suor de tocar a cavidade onde meu olho estivera na quarta-feira de ontem.

“Isso não parece um lugar de reuniões”, falei na alameda aonde saberia ser o local certo. Mal terminara minha frase e pude ver o ser que, um milésimo de segundo antes – precisamente assim – não estava lá, e então era como parte indissolúvel daquele lugar, plantado com as raízes das Eras. Segurei com um pouco mais de cautela a sacola plástica que carregava.

Ele parecia um boneco de cera que dava a impressão de que estava vivo, às vezes. Eu sei que eu já estava roto, pois tivera um pequeno contratempo para conseguir a indicação daquele lugar, mas o ente que lá estava, vestia alguns mantos que deveriam ter sido brancos um dia, como os dos viajantes do deserto. Porém, aquela presença parecia ter atravessado as areias do próprio tempo. Sua cabeça estava quase totalmente coberta por um capuz vermelho que só mostrava o olhar perfurante e sombrio. Segurava algo metálico em sua mão que por mais que eu tentasse, não conseguia memorizar do que se tratava. Nem o próprio. Por mais que eu o mirasse, parecia sempre um vulto.

“Então, vamos logo com isso”, eu disse para ver que o objeto metálico era uma espécie de pinça com pontas de garras e agora estava em minhas mãos. “Do seu jeito então”, falei com a velha pose, mesmo sabendo que palavras nessas horas funcionam do jeito certo apenas em filmes. A dor ao passar o metal pelas pálpebras e raspar o interior da órbita foram cócegas comparada ao resto. As garras de metal iam se contorcendo a medida que eu enfrentava meu desespero para que o olho permanecesse intacto. O sofrimento de verdade veio quando tive que romper os músculos que prendem o globo ocular e puxá-lo do interior da cavidade. Aquilo doeu. Eu teria chorado se pudesse, mas demorei a observar o tamanho do estrago e não me julgo de tentar rir de mim mesmo. Depois da pior tragédia, tudo é engraçado.

Sinto como se tivesse arrancando o olho de novo. Dói um pouco sempre, mas em alguns momentos bate exatamente a mesma dor. Já não posso enxergar a vida do mesmo modo, mas tenho todas as lembranças do que vi quando tinha cento e oitenta graus de visão. É como ter o fantasma de um olho que só enxerga o próprio passado. Acho que escreverei um poema sobre isso.

Carros passam mais tempo parados do que em movimento. Quando se vive em um lugar desses, não se compra um veículo considerando potência ou design. O conforto deve ser o essencial. Bancos ortopédicos, ar condicionado, aquecedor e um bom som. E porta copos. São uma bela invenção. Quem anda de ônibus já não tem a mesma opção. Vejo várias pessoas espremidas dentro dessa lataria que atravessa a cidade toda hora. Pelo menos, estão abrigados da chuva que ameaça cair a qualquer momento. Há dias o céu está fechado, contudo as nuvens estão com planos mais densos do que enxergamos. E só preciso de um olho para ver isso.

Quando eu consegui parar pra pensar em meio a dor lancinante, tirei da sacola um grande pedaço de pano para estancar o sangue e pude ver que a pinça de garra já era um recipiente metálico manchado com meu sangue e com o olho dentro. Depois que estanquei o ferimento – essas coisas funcionam rápido comigo –, tirei uma garrafa de uísque da sacola, lavei o local da cirurgia com ele e bebi um longo trago. Tapei novamente com o pano; o curativo podia esperar um pouco mais. “Você já tem sua parte no acordo”, arfei as palavras entre pausas. “Quero o que é meu”, terminei de cuspir a frase junto ao gosto de sangue que ficara na minha boca.

Sua voz – se é que se pode chamar aquilo assim – era a vibração de graves inaudíveis, que se pode sentir desde a pele até perto do coração, de um jeito temerosamente desagradável. Ao passar o tremor, olhei a esquerda e vi uma velha porta dessas de repartição pública, do mesmo material que as divisórias das salas de trabalho ocioso. Não sabia se ela estava ali o tempo todo ou se aparecera agora, mas a peguei sem pensar muito nisso. Senti que o seu peso era leve, embora para longas caminhadas fosse ruim de carregar. Aquela existência sinistra não se movera em nenhum momento. Não me importava mais. Segui meu caminho.

Pelas ruas movimentadas, entre pessoas, é realmente desagradável carregar este fardo. O lado bom é que o tempo disso tudo está bem próximo. Todas essa gente atrasada, preocupada, com toda essa urgência de nada, deixa essa porta mais leve. Várias filas e aglomerados de pessoas que não suportam estar perto uma das outras, mas vivem carentes e com falta do tanto que evitam. Eles acham que tem muita opção, que dispõem de todos os destinos, mas isso os deixa sem rumo, sem saber qual porta procurar.

Cheguei ao lugar. Era uma praça no coração de uma cidade grande, bastante arborizada com algumas árvores centenárias e belos jardins. Havia uma daquelas igrejas bem antigas em frente. Esses locais que são a expressão mais autêntica de um lugar e vencem a modernidade são os que eu mais gosto. No meio de tantos prédios e lojas iguais, eles mostram uma face mais sincera da cidade.

Ao alcançar a fonte, escorei a porta nela para beber um pouco de água. Essa água tem um gosto horrível, mas eu não morreria por causa dela. Peguei a porta e a equilibrei em pé. Ela fixou-se ao chão e mudou de forma quase sem que eu pudesse perceber. Agora era uma porta grande e pesada, de uma madeira nobre e escura, com nós aparentes em um ótimo acabamento. A maçaneta e dobradiças eram douradas; novas e reluzentes. A porta ficou em pé sozinha, no meio da praça.

Antes de ir embora com a velha porta de repartição, senti oscilar as cordas que prendem a existência mais uma vez em uma angústia de morte. “Só posso atravessá-la uma vez? O que quer que você queira ver por esse olho, só poderá ser visto uma vez também”, adverti.

As pessoas já não percebem a existência da porta, mas, involuntariamente, evitam passar onde ela está. Vejo dois corvos pousarem no busto de um célebre desconhecido que mora na praça e talvez dê nome a ela hoje. Não vejo como um mau sinal. Nem bom. Girei a maçaneta, abri a porta e entrei.

A travessia é bem rápida, mas tranquila e confortável. A melhor parte estava em olhar o rosto de todos aqueles sujeitos na sala de reunião, pálidos como quem presencia um trovão inesperado romper o ar, a calma e o banquete. Aproveitei o silêncio para me olhar no reflexo da grande janela da sala do empresarial em que estávamos. Conferi as abotoaduras da camisa sob o terno de corte italiano feito às minhas medidas. Ajustei o tapa olho, peguei uma cadeira, a arrastei até à cabeceira da mesa e me sentei.

“Podemos começar.”

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