vinte e seis mil dilemas (ou promessas de navegação)

Adeus. Agora, cada palavra é um suspiro. Cada silêncio é uma angústia, espera e toda a falta que a falta pode fazer. Saudades do desconhecido. Do porvir.

Estive em uma sala repleta de estranhos e você me fez companhia. Talvez por um minuto. Eu não sabia seu nome, você desconhecia o meu. Eu não vi o seu rosto; não mostrei o meu. Em meio ao barulho, as palavras se perderam. Não me orgulho desse laço, embora ainda não fossem tempos de verdades.

Pisei em lugares em que sua voz chegou primeiro. Eu não a conhecia nem a ouvi, nem me lembrava. Ainda não lembro. Talvez um eco desses ainda estivesse no ar e tocasse meus ouvidos com os dedos do vento. O ar separa chão do céu e todas as distâncias da terra. O vento é o movimento de tudo que quer se encontrar.

Como falar de uma lembrança que não se tem?

Com palavras.

Não fui a vários lugares e você estava lá. Passei perto sem ao menos saber. Todas as ruas pelas quais você caminhou e que poderia estar. Todas as casas que não são – mas poderiam ser – a sua. De todos os mares, poucos eu vi. Dos que naveguei, menos ainda. Em todas as praias, talvez pegadas suas estivessem lá e sumiram no vento ou no quebrar das ondas. Talvez o mar de que falam as conchas seja o seu, mas navegar um rumor é mais perigoso que todos os monstros dos oceanos. Não se prepara para o novo.

E como ir?

E como não ir? Apenas seguirei.

Conheci duas mil pessoas na vida e nenhuma era você. Cada uma dessas duas mil pessoas conhece mais duas mil pessoas e uma delas talvez possa ser você. Passei por tanta gente sem ver, sem apertar a mão, sem conhecer. Gente que evitei o olhar por preguiça, que ignorei os dizeres, neguei o abraço. Passei por pessoas que esbarrei nas calçadas e seções de supermercado. Passei por outras que não vi nos mesmos lugares. Poderia ser você aproveitando a falta de idosos naquele ônibus ou falando alto na fila da lanchonete.

Não se pode conhecer o mundo todo.

Mas quantas vezes se conhece uma pessoa?

Uma vida é pouco.

Duas podem ser suficiente. Um caminho diferente; o silêncio vira o mês. De repente já estava. Dentro de casa, a espuma de água e sal molhara meus pés. A mensagem dos ecos começara a chegar. São várias noites apenas contando estrelas, porém sem aprender a trilhar os caminhos através dos céus.

E eu vi. De todos os lugares, só tenho um. Só este onde pisamos no mesmo momento. Havia lá uma luz radiante que não vinha do fósforo e vapor de mercúrio das fluorescentes, nem da lua minguada. Era o sol dos seus olhos. É o que está gravado na retina da memória. De enxergar no fechar das pálpebras. De cores tão vivas que agora me surgem quando os abro também. Parece real e em todo lugar, mas é a imagem de uma estrela a anos luz do próprio adeus.

Então eu descobri a rota dos ventos. Era um espectro desse então agora. Mas o destino era longe. Construí meu barco de incertezas e de cada laço descoberto feitos em nós. Encarar alguns fracassos de frente ajuda a dissolver a tempestade na própria determinação.

Pra navegar é preciso viver.

A vida é cada risco.

E eu vi. Não calcei os seus sapatos, nem segui seus passos. Mas eu andei. Fui o mais longe que pude na linha do meu próprio horizonte. E você estava lá. Passei vários lugares, desbravando o desconhecido. Por todos os campos abertos, florestas, sertões. Todas as pontes, prédios e casas abandonadas. Pela trilha do asfalto; com o barro nos pés. Por toda rota única que vinte mil pessoas fizeram somente esta semana; mas meu caminho só eu fiz. Você também.

Foi de longe que eu pude ouvir mais claramente. O segredo das conchas. Não falavam a minha língua, porém posso jurar que entendi. Não era o canto das sereias, mas o chamado desse novo mar. Eram promessas de navegação que começavam no adeus.

Como ir sem certeza nenhuma?

Minha certeza é a morte e eu respiro.

Eu sou cada retrato de mim mesmo. Não importa de quando, nem o porquê. Eu não me orgulho de todos, porque vejo sempre uma pessoa diferente. Existem retratos meus que ainda nem conheço, pois não foram revelados. É um filme que espera você. É difícil arrumar convicção em tantos propósitos, mas que a luz de antes seja a de agora é minha mais nova crença. Não há candeeiros, postes, neon que vençam a noite e prolonguem o adeus até não se ver o fim. Apenas o sol e seu eterno amanhã.

Poderia ser tudo um sonho?

E o que não é?

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