a pessoa mais odiada do mundo e seus sentimentos

Ela chegou ao bar às 20h27, três minutos antes do combinado. Eu estava lá há uns 35 ou 40 minutos. Sempre chego atrasado, mas dessa vez resolvi jantar lá mesmo para ser pontual. Acabara a refeição há uns 10 minutos e pareceu ser uma decisão bastante acertada.

– Como você é pontual! – Disse sorrindo quando eu levantei para beijar-lhe o rosto duas vezes. – Não vai dizer que não aguentou de ansiedade e abriu o bar pra me esperar?

– Ficou tão na cara assim? – Respondi dando um riso fácil enquanto nos sentávamos. Esses segundos foram repletos de informação. Ela usava um vestido com várias flores bordadas. Tudo em vários tons de amarelo e laranja. Cores quentes como aquela noite. Noite escura como seus cabelos curtos e cacheados. A pele dela era queimada de sol. Ela não era dessas moças de academia, tinha um corpo de curvas belas e sutis, e tão bem sabia disso que o vestido pareceu uma escolha premeditada para a ocasião. Seus lábios finos estavam pintados com um batom vermelho que viciaram meu olhar e pareceram perceber isso, me entregando um sorriso. “Como você é pontual!”. Ainda bem que fui dessa vez. Dificilmente ela não me sorriria se eu tivesse chegado depois; não tão dificilmente se eu atrasasse, mas o sorriso foi esse e nessas condições. Não subestimo os outros que ela ainda tenha a oferecer, mas esse foi o que foi e, pra mim, é o que está. “Não vai dizer que não aguentou de ansiedade e abriu o bar pra me esperar?”. Quando afastei o meu rosto do dela ainda pensando na maciez da sua pele e em como foi rápido sentir isso agora e como eu queria novamente por muito mais tempo, e o cheiro, que eu senti brevemente e combinava roupa recém-lavada, xampu de alguma fruta, perfume de flores, sabonete… Podiam usar todos esses ingredientes numa mesma fórmula e produzir um perfume com o nome dela. Talvez não fosse a mesma coisa, mas seria uma ótima intenção.

– Nem tanto. – Falou ao sentar a minha frente. – Talvez mais ninguém tenha percebido. Eu mesma só pude ver mais de perto essa baba aqui. – Respondeu enquanto limpava o canto da minha boca e barba com um guardanapo. Por um momento eu gelei, até perceber que era uma brincadeira e torcer pra ela não sacar que eu tinha cogitado isso. – Pronto! Não vai dar bandeira por aí, rapaz.

– Vou me esforçar. – Foi tudo o que eu consegui dizer até que o garçom providencialmente chegou. Pedi para que assim que a moça que eu esperava sentasse, ele oferecesse o cardápio. “Um chopp”, “dois, por favor”, e ela perguntou porque eu escolhera aquele bar em especial, se já tinha frequentado, pois ela queria uma opinião sobre o cardápio. Eu só o escolhi porque um colega do trabalho sempre toca aqui e eu nunca tinha visto, porém havia descoberto enquanto a esperava que, especialmente hoje, não seria ele.

– Ah. Ele toca o quê? – No que respondi que MPB e umas versões acústicas de músicas de pop e rock, ela devolveu – Uma pena, não? Gosto desses repertórios variados – e pareceu totalmente sincera e interessada.

– Eu também. Até quando é ruim, eles acabam acertando em alguma coisa. – a risada veio de ambas as partes.

– Seu amigo é bom mesmo? Do jeito que você fala e o fato de nunca tê-lo visto tocar sinalizam certa desconfiança… Obrigada. – Insinuou levemente. Esqueci o que eu disse sobre o primeiro sorriso.

– Obrigado… Nada disso. Não falei dele especificamente, mas de um modo geral. – pegamos os copos e eu propus – que tal brindarmos aos músicos de bar com repertório variado, então?

– Parece justo pra você se redimir. – Ela ergueu o copo em uma menção que eu acompanhei.

– Um brinde aos músicos de bar com repertório variado. Até porque sentiremos falta deles hoje.

– Você acha?

– Na verdade não. Estou muito bem acompanhado. Só acho que a música que eles fazem vai fazer falta quando a atração da noite chegar. – Apontei um panfleto impresso todo em preto num papel rosa que estava na mesa.

– Nem sei pronunciar esse nome. Ele toca o quê?

– Também não ouso tentar. O garçom disse que é um artista “local”, apesar de ser do sul. Que ele toca músicas próprias e faz sucesso com o pessoal da universidade.

– Preconceitos à parte, já vi tudo.

– Eu também! Você faz o que na universidade? – hora de demonstrar um pouco de interesse não físico.

– A Carol não contou?

– Não. Falou bem pouco na verdade. Só que eu tinha que conhecer uma amiga dela muito bonita.

– Na verdade estudo em uma particular perto da catedral. Faço pedagogia. E a Carol nem me acha tão bonita assim. – Achou essas palavras enquanto procurava outras no cardápio.

– O muito você bota na minha conta. – Sustentei a fala com o olhar, que ela encontrou por um tempo desses que não estão em nenhum relógio.

– Tá, mas o filé com fritas a gente divide. – As mãos na mesa me fizeram perceber as unhas pintadas de uma cor clara que deve ser vendida como “cor de unha”, mas que é bastante bonita. Chamei o garçom e fiz o pedido. “Uma chapa de filé com fritas e mais dois chopps”, “as fritas podem demorar”, “traz os chopps logo e se elas demorarem muito, a gente pega mais”.

– Então, você e seu amigo músico trabalham com o quê?

– Serviço sujo. Telemarketing. – Falei e mal prendendo o riso, entreguei – Na verdade é com TI. Prestamos serviços pra uma empresa de eletrônicos. – a expressão que ela fez foi indescritível.

– Ah… – ela riu no que pareceu uma expressão aliviada. – Achei que você também fosse um dos enviados do inferno.

– Também? Você é operadora de telemarketing?… Obrigado.

– Obrigada… Não, não trabalho com telemarketing. Achei que você também fosse como eles. Seria estranho saber que você poderia ter me tirado a paciência por conta de um cancelamento de telefone ou algo assim. Sempre teria um pé atrás com você…

– Eu entendo… Acho que minha reação seria a mesma. Ou eu ligaria pro seu telefone pessoal pra resolver qualquer problema relacionado ao seu trabalho e pular as partes da atendente eletrônica e da musiquinha.

– Você ia querer me usar como password? – a pergunta veio acompanhada de um olhar insinuante.

– Também, digo, claro.

– Como também? – Ela morde o lábio de um jeito que faz caras em movimento tropeçarem por aí.

– Assim mesmo. – Não sei como eu pude dizer isso, mas precisava completar com qualquer. coisa – Como operadora de telemarketing e como professora, se um dia eu tiver filhos.

– Ok, ok…

– E você? Trabalha na área de educação mesmo? – Perguntei na tentativa de que qualquer assunto pudesse me levar a outro.

– Não – respondeu bebericando – Trabalho no banco.

– Bem diferente da área, né? Faz o que lá? Foi Concurso?

– Se eu contar, vou ter que te matar. – Ela respondeu sorrindo. É uma frase besta, dessas clichês, mas o sorriso me fez entrar no jogo.

– Gosto de alguns segredos. Deixam tudo com mais emoção.

– Alguns no geral ou um grupo específico deles? – A pergunta vinha em tom de aprovação quanto ao rumo da conversa. Também sorri.

– Segredo. – Agora o papo caminhava de um bom jeito. – Obrigado. – A chapa veio acompanhada de mais dois chopps.

– Obrigada. – O silêncio durou um pouco enquanto ela olhava o telefone. Disse que não valia uso de Whatsapp e ela concordou, mas que era apenas uma mensagem. Aproveitei pra olhar o meu e o fiz antes que ela terminasse. Podia ser uma mensagem de qualquer pessoa. Possivelmente de Carol. Eu só olhei o telefone pra não ficar moscando. Fazia uma hora que estávamos ali e nem senti. Mas agora, esse lance de mistério me deixou sem um assunto que não seja o tempo pra comentar.

– E esse tal cara da universidade? Será que tem alguma chance dele surpreender positivamente? – Pareceu que ela estava lendo meus pensamentos. Isso já facilitaria muita coisa.

– Espero que sim. Eu ainda tenho fé na humanidade.

– Temos um romântico aqui?

– Apenas mantenho pensamentos positivos. É ruim pensar no que pode dar errado o tempo todo, porque o universo já cuida disso pra gente. Chamem de caos, acaso, imprevistos, lei de Murphy… O futuro já está nos esperando pra surpreender e virar tudo de ponta cabeça. Se pudéssemos calcular todos os imprevistos, viver seria chato. O que podemos fazer é esperar passar a montanha russa enquanto nos agarramos no que temos ou soltar os braços e curtir todos os loopings, descidas e subidas.

– Uau! Um filósofo entre nós! Menos romance e mais filosofia, por favor! – ela ria e batia palmas. “Mais dois chopps”, o garçom respondeu em afirmativo com um sinal de cabeça enquanto recolhia a chapa. – Esses são por minha conta.

– Sabe uma coisa? Você falando assim, acho que realmente deveria escrever isso.

– Deveria mesmo. Bem… vou ao banheiro. – Ela levantou e passou por mim, mas ainda deixou um monte dela ali. A marca de batom no copo, o perfume, a imagem bem recente na minha mente e uma vontade na pele. Olhei o telefone novamente e havia uma mensagem de Carol. “Obrigado… sim, por favor”, o garçom trouxera os chopps e pediu para colocar a cadeira dela ao lado da minha, pois precisava do espaço quando o músico fosse começar e já estava preparando o ambiente. Li a mensagem:

‘Minha amiga tá bem? rs
Olha la o que vc faz’

Digitei o começo da resposta, mas apaguei e resolvi não enviar nada. Ela retornou, olhou a cadeira ao meu lado e só sorriu. Pareceu realmente capcioso e eu me culpei por não ter tido a ideia antes do garçom.

– Garotinhas querendo que você conserte o computador delas? – Ela era especialmente sexy fazendo piadinhas. Especialmente sexy de perto.

– Infelizmente não costuma ser assim na vida real, mas era a Carol perguntando se tava tudo bem.

– E o que você respondeu?

– Nada ainda. Mas, vou dizer que estou tomando cuidado.

– Cuidado, é?

– Com seus mistérios.

– Hmm… Isso o preocupa? – O que dizer sobre o olhar dela?

– Me preocupa não estar preocupado com isso.

– Já seria uma preocupação.

– Então eu não preciso me preocupar.

– Ou não… – Sério… O que dizer sobre o olhar dela?

– Ou não…

– Mudando um pouco de assunto – (ela realmente é boa nisso) –, você ainda estuda? – Ao que respondi sim, que estava concluindo análise de sistemas, ela prontamente pergnutou onde, e eu disse que na escola técnica. Ela sorriu e disse que era bom. Disse também que devia ser complicado estudar essas coisas, mas eu acho muito prático fazer contas e ler algo funcional e, comparado ao que ela deve estudar pra lidar com várias cabeças borbulhantes de curiosidade, isso era moleza.

– Por esse lado, realmente… Bom, Parece que o tal show vai começar a qualquer momento. Como anda sua fé na humanidade?

– É esperar pra ver, né?

Enquanto o tal cara descolado que ia se apresentar arrumava qualquer coisa no pequeno palco do bar, rolou um silêncio desses que esvaziam a cabeça no meio da multidão. Foi por pouco tempo, nada preocupante. “Mais dois”.

– Alguém aqui realmente gosta de beber, heim? – A provocação veio com mais um daqueles sorrisos.

– Pois é. Me surpreende conseguir acompanhar o seu ritmo. – Ela fez uma cara de falsa indignação e rimos um pouco. – E Carol falou o que de mim pra você? Ou isso é segredo também?

– Nada demais. Que você era um cara legal, bonito e mostrou seu facabook.

– Carolzinha sempre prática. Espero que tenha funcionado.

– Bem… Eu tô aqui, né? – Era o que eu estava esperando. Poder sentir-lhe os lábios e esse perfume o mais perto que eu podia. A língua, os dentes, saliva. Ter cada pedaço daquele universo que me fosse possível a cada instante que existisse até então.

O que veio depois foi um reconectar com o mundo aos poucos. Mais daquele silêncio de multidão entre os nossos olhares e sorrisos, até que o som contratado da noite irrompeu pelo bar. “Obrigado”, “Obrigada”. Uns beijos depois e ela me questionou:

– Já tem seu parecer?

– Minha fé foi abalada.

– Não precisamos realmente ouvir isso, né?

– Eu tenho em casa algumas músicas de MPB e pop e rock bem variadas.

– Acredito que você poderá acertar em algo. – Nunca gostei tanto de uma música que eu não gostei.

– Aposto que sim – “A conta, irmão” –, mas será que eles realmente pagam a esse cara pra tocar aqui? – Sussurrei pra ouvi-la rir e pedir baixinho para deixá-lo de lado. – Deixo.

A matrix chamou novamente com o garçom trazendo mais dois chopps. “Pô, cara. A gente pediu a conta”, “desculpem, entendi mais dois chopps”, “tudo bem. Deixa esses e pode fechar a conta”.

– Eu nem sei se vou beber mais. – Ela pousou a testa na mão e me olhou através dos cachos de seu cabelo que cobriam uma parte do seu rosto e do seu olhar.

– Essa vai na minha conta. – Atalhei.

Mal tocamos os copos. Principalmente ela. Assim que pagamos fomos direto a procura de um taxi e demos sorte de encontrar um disponível do outro lado da rua. Dei o endereço de onde eu morava do banco de trás ouvindo trilha de balada/academia que toca em uma rádio específica até chegarmos. Tiramos uma piadinha disso e o resto do caminho foi sem falar muita coisa – só umas indicações para o compreensível taxista – e chegamos ao prédio onde eu moro. Após vencer o portão, subimos rapidamente as escadas para o primeiro andar, e eu abri a porta do apartamento para ela com um gesto cavalheiresco, ao qual ela retribuiu com um agradecimento daqueles que as moças seguram a barra do vestido com as duas mãos e se curvam levemente com um dos pés para trás.

– Sinta-se em casa.

– Não precisa dizer – Acho ótimo isso. Fomos direto para o quarto. Liguei o ar condicionado como raramente faço e quando me virei ela estava lá, retirando as alças do vestido, mas ainda segurando-o nas mãos.

A música fica pra depois.

Acordei cedo e ele ainda estava deitado na cama. Sono pesado, mas ele deve acordar logo pra ir trabalhar, apesar de que eu não sei em que horário seria isso. Eu vou logo que ainda tenho que passar em casa antes de trabalhar. A cabeça lembrava levemente que eu bebi ontem, uma quinta. Foi realmente bom tê-lo em mim. Vou deixar um recado, vai que ele toma um susto. Seria engraçado, mas ele não merece. É legal, bonito, bem humorado, bom de cama… Espelho do banheiro e batom. Nunca falha.

ADOREI A NOITE. ENTÃO, RESOLVI TE DAR DE PRESENTE UM MISTÉRIO A MAIS. BEIJO

Assinei, tomei um banho rápido pra não sair com cheiro de ontem e me enxuguei com a toalha dele, que tinha o cheiro da pele que senti logo que entrei no bar. Sequei o corpo devagar ao imaginar ele enxugando o próprio corpo nela. Fui descobrindo as marcas da noite e torcendo para não ter nenhuma que ficasse visível com a roupa do trabalho. Ao me vestir, olhei-o na cama. Ele não tem a bunda grande, mas é bem firme e fica bem maior nas minhas mãos. Cobri seus pés e o as costas. Vi as marcas das minhas unhas e sorri. Passei as mãos rapidamente sobre elas e ele pareceu não reagir ao sono. Beijei-lhe a nuca e desci.

No térreo encontrei uma senhora simpática e pedi a ela que, por favor, pedisse um taxi pra mim. Ela disse que havia um ponto na esquina, mas que ligaria se eu quisesse. Achei melhor pegar no ponto para não ter que esperar. Minha casa era meio longe, mas como era bastante cedo ainda, o trânsito não tinha começado e o trajeto foi rápido. No caminho fui lembrando como ele parecia bobo quando eu disse que ele babou ao me ver no bar. E depois foi fofo e sutil quando me cantou. No começo fiquei em dúvida se ele passou no teste do ‘falar mal’. Quando falou do músico ruim, foi sincero sem ser boçal. Mas, quando ele falou do telemarketing eu fiquei com o pé atrás. Talvez ele tenha procurado só um lugar comum do humor, o que eu achei mais provável. Espero que ele não seja de desdenhar da profissão dos outros. Seria uma pena. Senti um arrepio leve lembrando a barba dele ao roçar nas minhas pernas, barriga, nuca, pescoço, virilha. “É aqui”.

Ao chegar em casa, me arrumei rapidamente e comemorei secretamente não ter marcas visíveis. Inventei um café da manhã, botei a farda na bolsa e já ia à rua quando encontrei minha mãe e minha irmã na mesa do café. “Dormisse onde?”, “na casa da Carol”, “por que não avisou?”, “te mandei mensagem”, “eu não recebi”, “tentou o tim?”, “não”, “dê uma olhadinha. Até mais tarde, beijo”, “beijo. Se cuide”.

No ponto de ônibus eu não precisei esperar nem cinco minutos e o meu chegou. Não muito cheio, mas com lugar pra sentar. Ativei a internet e já tinha Carol no Gtalk perguntando “e ontem?”, “foi massa :p”, “ai massa como? fala!!!”, “uma delícia :x”, “OEEEE já vi tudo!”, “:p”, “bom mesmo assim?”, “do que você me disse e do que eu tinha visto eu só confirmei. O resto foi surpresa boa”, “meu amigo tá com muita moral, então”, “num é só moral que ele tem de muito não” , “MINHA FILHAAA!!! IMPOSSÍVEL VOCÊ, SUA TARADA”, “muita disposição, calma ;)”, “seeei… pra aguentar você tem que ter, né?”, “tem mesmo, é o único exercício que eu faço. O único esporte que eu sou boa kkkk”, “devia ter olimpíada disso pra tu concorrer hahahaha”, “atleta pra ganhar dinheiro, só jogador de futebol”, “sexo já dá dinheiro sem ser esporte, bem”, “então vá você ganhar dinheiro assim, quenga”, “kkkkkkkkkkkkkkkkkk”. Desci do ônibus em frente à universidade.

Levam uns quatro minutos andando do ponto até a agência do banco lá dentro. Ao entrar, fui ao banheiro e troquei de camisa. Procurei à mesa com os formulários e olhei o Messenger novamente. “Prefiro manter como hobby, misturar profissionalismo com diversão é o sonho de muitos, mas poderia estragar muita coisa pra mim”, “kkkkkkkkkkk”, “mas ele é desenrolado sem ser na cama (ou seja lá onde)?”, “claro, sua nojenta. To precisada não. Ele é um charme, tem iniciativa e é bom de xaveco”, “mandei bem, né?”, “você só mandou uma, ele três”, “txaaaaaaaaa”, “kkkkkkkkkkkkk voltando, claro que meu interesse nele ajudou, mas ele até que é desenrolado”, “hmm vão sair quando de novo?”, “não sei. Ó, vou trabalhar, até mais”, “até”.

Saí da agência em direção à biblioteca do campus. Havia pouco movimento a essa hora. Achei legal que ele pareceu interessado não só na mina das fotos do Facebook, mas no que eu fazia. Mesmo assim, ele não foi chato a ponto de insistir em algo que eu não quis falar. Teria sido uma pena ter que mentir pra ele logo no primeiro dia. É pra rir mesmo que eu esteja pensando em ontem como um “primeiro dia” de próximos. Chegou uma mensagem dele no celular.

‘Meu amigo toca amanhã naquele mesmo bar.
Ótima chance. Bjo’

Sorri. Deixei para não responder na mesma hora. Gostei também de como ele mal pegou no telefone enquanto falava comigo e das mãos grandes dele me descobrindo. No taxi, ele arriscou bem tímido na parte interna da minha coxa. Quando ele viu que eu deixei e foi subindo aos poucos. Achei bonito. O taxista olhava às vezes pelo retrovisor, mas eu fingi não ver pra não arriscar deixá-lo mais acanhando. Chegou uma mensagem dele no celular. Bruteza é bom, mas assim também é gostoso e divertido. A noite toda ele se preocupou com o que eu gosto de ritmo, de força, de toque, mas tudo muito naturalmente. O devaneio acabou quando chegou meu primeiro cliente do dia.

– Bom dia, deseja abrir uma conta universitária?

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