mau tempo

O sol estava de rachar a cabeça pelas nove da manhã. Bem antes desta hora eu já estava de pé, com meu chapéu, botas e esporas. Coldre e revolver a postos. Stanwyck estava bem alimentado com feno e ração. Agora eu já estava enrolando meu fumo em um cigarro enquanto mastigava o excesso, sentado em minha velha cadeira do lado de fora da delegacia, onde eu podia colocar meus pés sobre o parapeito da varanda. Era um bonito parapeito. Trabalhado em uma madeira escura, ele tem resistido há muito tempo. Desde que os primeiros ingleses chegaram deste lado. O xerife antes de mim, não me deixava colocar os pés deste jeito. Rio só de lembrar aquele velho cheio de velhices. Rio ao recordar de quanto parecidos somos e de quanto tempo levei para perceber.

A comitiva era formada por um grupo de cinco. O chefe, com sua estranha cicatriz que ia do canto da boca até a orelha esquerda, foi quem nos convidou no bar para um empreendimento financeiro; Olhos Azuis já estava com ele e nada disse; Pavio disse que sabia manejar pólvora e explosivos muito bem, o que comprovou logo após em uma demonstração. Era agora o negro do grupo; Touro-Sentado era a alcunha carinhosa que o chefe arrumou para o latino, que ele julgava parecido com um índio; e eu era o Doutor. O chefe perguntou se eu era médico, disse que não, mas que minha mãezinha teria gostado que me chamassem assim e se sentiria orgulhosa. Ele riu e disse que estava bem.

Depois do meio-dia, quando almocei e voltei para a minha cadeira, uma nuvem chata pairou na cidade. Tenho observado o tempo e a avenida enquanto tento lapidar um cavalo em um pequeno toco de madeira. O canivete não está tão amolado, por isso a tarefa está desinteressante.  Apesar do tempo, as pessoas estavam vivendo suas vidas normalmente, ou algo próximo disso. Joey McCrea, da estalagem, que diariamente manda sua bela mulher tirar do varal as roupas dos hóspedes e os lençóis limpos, foi ele mesmo fazer o serviço. A roupa ainda não tinha a aparência seca e brilhosa de quando a senhora McCrea o fazia, mas pouco importava se o lavado ainda estivesse úmido. Para McCrea se prestar a fazer o trabalho de sua esposa, era sinal de mau tempo.

Uma chuva pegou nosso acampamento desprevenido e nos fez perder a maior parte da pólvora. Isso atrasou nossos planos e nos deixou em desvantagem. A locomotiva passou pelo trilho em que Pavio armou o explosivo, mas não surtiu efeito. O chefe olhou-o em um silêncio enfurecido, o qual o negro corpulento tentou justificar desesperadamente com a precipitação (rara àquela época do ano e, principalmente, nessa região, em que é rara em qualquer época). Ele só não morreu ali porque era o único que sabia fazer aquilo direito. Provavelmente, o trem deve ter levado notícias ao seu destino. Nossa vantagem acabara aí. Antes iríamos atacar um trem no deserto, agora era caso de invadir uma cidade. Era pequena e no meio do deserto, mas que nos esperava.

Spencer, do saloon, colocou seus bêbados para fora mais cedo e os bêbados ficaram sóbrios mais cedo também. As únicas cadeiras que não estavam sobre a mesa eram as poucas ocupadas por clientes que, constantemente, consultavam seus relógios de bolso. Até as dançarinas ajudavam nos serviços matinais. Eu vi um rápido reflexo de luz do sol. Havia uma ansiedade no ar.

O plano já estava definido e cada um tinha o seu papel nele. O trem levaria equipamentos tipográficos ou qualquer coisa assim para a cidade, coisa cara. O chefe não tava interessado naquele trambolho todo. Seria muito difícil de carregar. Da estação para a cidade, com pessoas e meios adequados, levaria praticamente um dia inteiro. A jogada envolvia o prefeito. Ele teria ido à capital tirar a quantidade necessária do banco para comprar o maquinário. Agora nos confiamos que ele pague o serviço apenas com a entrega concluída, ou nossa viagem teria sido em vão e Pavio não teria mais dedos para manusear explosivos.

O prédio do telégrafo, fechado desde a morte do senhor Pecks, será a sede do primeiro jornal da cidade. Mas, aconselhei senhor Brennan, prefeito e interessado no negócio, a tocar o empreendimento quando arranjarmos, pelo menos, um novo telégrafo; afinal, não se faz um jornal sem notícias. Vira e mexe recebemos algumas pessoas que querem crescer na vida e acham nossa cidade um bom lugar. O reverendo Greene veio com meia dúzia de fiéis e está construindo uma Igreja. Os servos moram na antiga casa do senhor Pecks, enquanto o padre vive sozinho em um acampamento a uns dois quilômetros daqui buscando orientação espiritual. Maluco.

Montamos acampamento bem próximo à cidade e, antes de dormir bem cedo, revisamos o plano. Enterramos o corpo do dono do acampamento que, só após Olhos Azuis matar, soubemos que se tratava de um padre. Touro Sentado, o único católico, disse que era mau presságio e – a pedido do Chefe – fez uma oração para o homem morto. Chegamos na cidade ainda sem sinal do sol. Olhos Azuis e Touro Sentado subiram no telhado de duas casas de segundo andar – cada uma de um dos lados da rua – para ficar de tocaia em locais com boa visão para dar cobertura. Eu e o Chefe iríamos fazer o prefeito de refém. Pavio criaria uma distração explodindo a maior casa que houvesse por lá para nos dar brecha. Se fosse a do prefeito, melhor. Forçaria-o a procurar abrigo em outro local e nós o pegaríamos em movimento. Não sei como me meto nesse tipo de plano.

De resto, as casas estavam de portas fechadas. Poucas e corajosas janelas olhavam o movimento. Acendo um fósforo no chão para fumar meu cigarro e começo a colocar as balas no tambor dos revólveres. Foram duas as vezes que carreguei mais de um revólver num dia e a apenas uma que cheguei a usar pelo menos um deles. Acendo mais um cigarro. Queria que o novo telégrafo tivesse chegado mais cedo. Hoje é um dia de notícia. Talvez ele relatasse a morte de uns bandidos, talvez ele fizesse um anúncio à procura de um novo xerife. O relógio marcara três da tarde.

Faltavam cinco minutos para as três da tarde. Eu e o Chefe estávamos escondidos em um estábulo próximo à estalagem. O homem que tomava conta dos cavalos pela manhã teve seu último dia de serviço. A ansiedade me deu dor de barriga e o Chefe, mesmo reprovando, deixou que eu me aliviasse rapidamente. Voltei na hora, mas as carruagens atrasaram uns 3 minutos. Quando elas chegaram, o chefe mandou um sinal com um espelho para Olhos Azuis, que mandou para Pavio. Em minutos as coisas iriam pelos ares e nós tínhamos que pegar tudo antes que caíssem no chão.

Foi tudo bastante rápido.  Uma parte da comitiva que chegara parou em frente ao antigo telégrafo para descarregar o maquinário enquanto o pessoal de negócios seguiu sentido a casa do prefeito. Uma explosão mandava a casa toda pelos ares. Os cavalos ficaram loucos, incluindo Stanwyck. O prefeito gritou para que fossem rápido ver sua família. Cinco dos doze homens foram correndo. Ainda estava atrás do parapeito, sob a marquise da delegacia quando mandei os homens que sobraram abrigarem o prefeito no prédio aqui no prédio, mas dois deles foram baleados na hora.

Quando Pavio explodiu a casa os cavalos se assustaram, mas nosso entretenimento foi assistir os homens se desesperarem. O Chefe sorria e eu via graça naquilo também. Senti-me meio maníaco por compartilhar aquela sensação com ele e isso não me fez bem. Cinco homens correram para a casa do prefeito. Não mandaríamos reforço para Pavio, mas ele havia armado uma explosão a mais e pegou os seguranças desprevenidos. Ainda ouvimos tiros de lá. O prefeito foi levado para a delegacia. Dos homens que sobraram com ele, um dos nossos se livrou de um e o Chefe de outro. O xerife conseguiu achar um dos nossos atiradores e o acertou. Ele era bom.

Estávamos eu, o prefeito, o responsável pela entrega do maquinário e mais três homens armados na delegacia. O prefeito pediu uma arma e eu a entreguei. Ele serviu junto do antigo xerife. O outro engravatado choramingava e eu o apaguei com uma coronhada para poder pensar melhor. Coloquei o homem na cela junto com a maleta de dinheiro e guardei a chave comigo. Havia pelo menos mais três deles, mas eram mais e eu não ainda não saberia dizer quantos. Não era seguro esperar muito aqui porque eles tinham alguém que mexia muito bem com pólvora e sair seria loucura por conta dos atiradores.

A cidade parecia deserta agora. O Chefe me chamou e foi andando ao ar livre até a carruagem do prefeito e me chamou para que a virássemos a fim de nos servir de proteção. Ele era louco, mas um louco que sabia que teríamos aquele tempo hábil. Como suspeitei, o Touro Sentado foi quem confirmara o mau presságio. Pavio chegou ao nosso abrigo sorridente e o chefe perguntou se havia pólvora suficiente para explodir a delegacia. Ele disse que nada como a obra prima que fizera com a casa, mas poderia abrir uma parede ou causar um reboliço dentro. Ele concordou que abrir uma parede só seria válido se houvesse estrago dentro também e pediu que o homem agilizasse os preparativos. Nós e Olhos Azuis o cobriríamos.

Enquanto discutíamos o melhor a fazer o prefeito ficou calado. Pediu que continuássemos a discussão, mas saiu pela porta de trás dizendo que iria tirar água do joelho, que na idade dele era perigoso segurar. Um dos homens notou que a carruagem estava sendo colocada numa posição diferente no meio da rua. Pedi que apenas observasse. Poderia ser uma armadilha ou eles realmente tiveram a ideia estúpida de fazer daquilo um abrigo. Ouvimos um tiro. Corri para verificar esperando que fosse da arma do prefeito, mas tinha a sensação que não. Deparei-me com o velho caído junto a um negro com a garganta cortada e rapidamente voltei. Ouvi um disparo e senti que passou perto. Disse aos homens que o prefeito matara um e morreu. Havia um atirador que não sabíamos onde estava. O que observou a carruagem disse que dois estavam atrás dela, que poderiam ter ido a outro lugar, fugindo pelo ponto cego que o veículo fornecia.

Simplesmente não dá pra entender a bravura dos homens que beiram a morte. Quatro homens saíram de dentro da delegacia em nossa direção e estacionaram no parapeito. Começaram a atirar contra a carruagem. Nós revidávamos. O chefe acertou um na cabeça. Olhos Azuis também, o que foi suficiente para o xerife achá-lo e presentear o braço direito do Chefe com uma bala no ombro ou pescoço, não pude ver direito. Um dos homens me acertou no lado esquerdo da minha barriga e o Chefe deu cabo dele. Eu estava caído no chão e o Chefe mandou que eu olhasse.

O cara da cicatriz foi para a linha de fogo e me desafiou para um duelo. Disse que agora seríamos apenas os dois e que eu poderia matá-lo ali, nessa hora, mas ele tinha mais gente. Ele desdenhou ainda, dizendo que eu teria que me ver com os homens dele se tentasse uma gracinha, mas que, se eu ganhasse limpo, haveria uma trégua para cuidar dos mortos e a caça continuaria amanhã. Deixei que ele falasse o que quisesse enquanto carregava minha arma, saí de trás do parapeito consideravelmente danificado pelas balas e fiquei frente a frente com o homem. Já tinha visto aquela cicatriz em cartazes de procurado, mas você não se apega a nomes de bandidos em cidades pacatas. Olhei para o céu enquanto me preparava e notei que agora, perto do pôr do sol, o tempo abrira novamente. Era um bom dia para morrer.

O xerife encarava o Chefe tranquilo, mas com muita concentração. Eu estava atrás do Chefe e não pude ver sua expressão. Tentei estancar o sangramento com a camisa de um dos seguranças mortos e estava parado, assistindo e poupando energias. O silêncio pairou por alguns segundos de eternidade até que os dois em um rápido movimento sacaram as armas e dispararam. Quando o xerife caiu morto, o Chefe deitou no chão da rua com a mão no braço e ficou a gargalhar. Olhos Azuis apareceu e eu já fui me preparando para levantar na hora em que ele atirou no Chefe três vezes. Continuei imóvel. Ele olhou para todos os lados e depois entrou na delegacia. Saiu direto em direção ao corpo do xerife e pôs-se a revistá-lo. Levantei como pude e sorrateiramente apontei a arma para ele de uma distância à prova de erros.

“Era sua ideia desde o início?”, perguntei. Ele parou, virou devagar para mim e sorriu nervosamente.

“Tem importância?”, dei três tiros e peguei a chave na mão dele. Olhei o curativo improvisado e já estava quase totalmente tingido de sangue. A dor era lancinante e dificultava o andar e a respiração. Tentaria fazer um melhor na delegacia e iria para a próxima cidade com o dinheiro para conseguir assistência de verdade. Era só uma questão de chegar.

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