passeio

Carlos estava cansado de sua rotina. Estava cansado de uma dinâmica que envolvia agregar valores subjetivos em algo aparentemente inútil e criar em potenciais clientes a necessidade de possuir esses atributos. Carlos manipulava pessoas; vendia ilusões. Ao menos era isso que pensava durante suas crises existenciais. Quando estava feliz, ele costuma se gabar de fabricar verdades e presentear as pessoas com ela. Ele se vangloriava com certa ironia de fazer o marketing parecer algo nobre. Havia uma espécie de consolo também. Nada de certo ou errado – coisas não muito consideradas por ele –, mas apenas perspectivas sem julgamento para demonstrar o estado de espírito.

A rotina o saturava há tempos. Gerar necessidades em um público alvo potencial – que busca preencher possíveis lacunas em suas existências por meio de um produto ou serviço novo – é algo que até consegue o divertir, na maioria das vezes. O consumidor precisa daquilo desde sempre, embora tenha surgido na última semana. O fato é que ele não seduz essas pessoas somente pelo prazer de mexer com elas, de interpretá-las como um coletivo carente e então atraí-las e educá-las através do fascínio. Carlos fazia isso pela pressão de receber um salário. Ele se sentia um prostituto. Achava que, no fundo, todo mundo era um prostituto. “A diferença é que as putas são mais honestas”, costumava dizer. Elas precificavam o corpo e lucravam tudo desse aluguel, ou dividiam uma parcela para sanar possíveis riscos. Em sua entrega, Carlos vendia algo dele. Era o dom que ele descobriu que poderia usar pra se realizar e viver dele. Ainda é assim, porém ele sustenta os sonhos e realizações das pessoas para as quais ele trabalha, que lucram do seu valor e pouco atendem suas necessidades. Carlos precisava viver uma sensação nova, um emprego desafiador, empreender uma nova jornada em sua carreira, realizar projetos que, a cada ano, olhava de mais distante. Carlos queria uma revolução na sua vida. Contudo, Carlos se contentou em tirar férias.

– E foi assim que eu vim pra cá – revelou à moça que sentava ao seu lado no piso superior do ônibus panorâmico, que revelava o belo fim de tarde no litoral. – Foi isso que tirou o Carlos do frio do sul. E você?

– A Viviane vai a um casamento em Pernambuco. Resolveu parar aqui uns dias antes para conhecer um pouco – ela desviou o olhar para o mar. – Meu trabalho não é tão estressante, mas depois da cerimônia eu não terei tempo de descansar da família.

– Eles conseguem ser mais estressantes que o trabalho, às vezes – em resposta a afirmação de Carlos, Viviane concordou com a cabeça. Ainda olhava em direção a praia. O ônibus começava a estacionar em frente a um dos grandes hotéis da cidade.

– Bom, eu devo fazer esse passeio de novo antes de ir embora. Talvez a gente se esbarre.

– Quando você vai embora? – a pergunta de Viviane veio despretensiosa, porém ainda era doce.

– Em uma semana – procurou na mente.

– É sempre bom ter alguém para conversar. Poderíamos fazer algo que fosse menos turístico antes disso – assim que ela falou, veio uma necessidade de não dar margem a qualquer ideia de que ela pudesse estar se insinuando. – Digo, algo que as pessoas daqui façam. Não esse tipo de passeio.

– Sim, claro – a resposta de Carlos veio com um sorriso franco. – Terça, depois do almoço, no shopping da praia. Leve roupa de banho. Se não der certo, pensamos em outra coisa – ele acenou rapidamente em partida e saiu do ônibus sem dar tempo para que ela concordasse ou não. Enfim, não faria mal mesmo.

Viviane não sabia muito bem porque conversara com Carlos, mas o achava uma pessoa agradável. Riram de um italiano bastante vermelho do sol que tentava conseguir alguma explicação sobre qualquer coisa e se olharam durante o riso. Aquele momento a deixou a vontade com o marqueteiro que veio de Porto Alegre. Não como se ele fosse um amigo de longa data ou o seu grande amor e tal. Aquele momento só serviu para ambos compartilharem um momento de pequena cumplicidade que rendeu meia dúzia de palavras simpáticas sobre amenidades e a vontade de conversar coisas amenas. Ela mal conversavam com ninguém em Brasília por não ter tempo. E sua família em Recife não se contentava apenas com a suavidade de um momento. Ela queria interagir com pessoas com quem não tivesse responsabilidades ou das quais não recebesse cobranças. Carlos era um bom exemplo. A barba cultivada era bem desenhada e dava um aspecto sério. Mas a fisionomia ruiva e jovem transmitia tranquilidade no falar até sobre as frustrações do trabalho. Ela queria uma companhia mais agradável que ela poderia ser para si mesma.

Nos dois dias que passaram até o passeio com Carlos, Viviane aproveitou como uma turista praticante, mas não fervorosa. No primeiro dia ela visitou um interior histórico onde tirou várias fotos das quais gostou muito e que faria uma exposição – se tivesse um interesse um pouco maior (ou mais duvidoso) pela fotografia. No dia seguinte ela resolveu curtir as dependências do hotel e vagueou entre piscina, espreguiçadeira, restaurante e a excelente cama, que se refugiava do calor no ar condicionado que estava incluso na diária.

Eis que chegou a terça. Viviane foi comer no shopping para aproveitar a carona do ônibus turístico. Ao chegar à praça de alimentação, procurou um lugar para comer. Estava na fila da comida japonesa quando viu de relance Carlos aguardando a vez para pedir uma massa. Foi até ele e o cumprimentou. Decidiu comer ali também.

– Como macarrão quando não quero comer nada – disse Carlos soprando o garfo com penne e molho branco. – Desce rápido e indolor.

– Eu não queria também, mas achei mais prático – Viviane atalhou o raciocínio.

– Eu tanto quis que pedi igual a você – Carlos mastigou as palavras entre uma torrada e a massa. – Não estou em um dia de muito apetite.

Continuaram comento silenciosamente aproveitando a vista que o shopping tem da praia naquela parte. Ao terminarem, já que haviam se encontrado antes do horário previsto, resolveram gastar um tempinho. Não havia nada que eles realmente quisessem lá, mas Viviane, como um bom exemplar feminino da espécie, encontraria algo de seu agrado em alguma loja com algum esforço. Carlos foi pra área de fumantes digerir seu almoço. Ambos se encontraram em uma hora no ponto de ônibus.

– Eu pensei na gente atravessar até a praia e ir caminhando até alguma parte sossegada pra tomar banho. Enquanto isso a gente vê se bola alguma programação pra mais tarde – as ideias saiam de Carlos com uma sensatez bastante cortês.

Ela aceitou tranquila, mas avisou que eles não poderiam ir muito longe, já que ficaria tarde para voltar e poderia ser perigoso dar pinta de turista por ali. Eles caminharam pela praia em direção ao norte e foram conversando sobre a bela cidade que estavam. Apesar de lá não ser tudo bonito como realmente se prega, deles poderem visualizar muito da desigualdade. Embora o circuito tenha sido feito de modo a isolá-los em partes privilegiadas da cidade, eles puderam observar que não muito distante aquilo era como em todo lugar. Daí eles compararam com o lugar do qual cada um veio e compararam seus lugares também. Falaram das coisas boas a se fazer e de suas reclamações. Deram sugestões de entretenimento, mas sem qualquer bairrismo exagerado. Depois Carlos falou um pouco mais do trabalho, Viviane falou brevemente de suas lamentações como bancária enquanto pararam em um canto que pareceu bom por ser tranquilamente deserto, fora da vista até dos poucos pescadores que avistaram logo no início da caminhada. Havia um carro ao alcance da visão; um prisma prata bem conservado. Não parecia ter ninguém nele, mas já era bom saber que estavam em um lugar isolado, mas habitável.

– Bem, vamos deixar essas coisas pra lá por enquanto – disse Viviane se livrando da roupa excedente para expor sua brancura, um tanto já queimada, em um biquine azul. Ela não era especialmente bonita. Cabelos pretos na altura dos ombros que sentiam o mar, cloro e sol desses dias emolduravam um rosto fino, sem nenhuma expressão de destaque.

– O mar é ótimo pra deixar essas coisas pra lá. É uma terapia – a fala de Carlos saia atrapalhada enquanto ele tentava se desvencilhar das roupas e ficar com uma sunga amarela duvidosa. – Qual a graça? – perguntou.

– Essa sunga não passa muita credibilidade – riu Viviane enquanto terminava de passar filtro solar no corpo.

– Hm… Minha sunga da sorte? – entre caretas, Carlos transpirava de forma notável. Cofiava a barba nervosamente de um jeito engraçado.

– Não, cara – e emendou um pouco sem graça – você poderia passar nas minhas costas? – Carlos prontamente pegou o tubo e colocou um pouco na mão. Começou a esfregar uma na outra enquanto ela virava para o caminho do qual vieram.

– Ah! Não sou daqui nem vim pra ficar. Não vamos nos preocupar com isso, né? – pesou as mãos sobre os ombros de Viviane e logo subiu para o pescoço. – Além do que só você vai ver isso. Espero que possa levar esse segredo com você para o túmulo.

– Se é um segredo, eu levo – avaliou Viviane. – Não é como se eu conhecesse alguma pessoa para qual a informação tivesse um valor equiparado ao potencial latente que possui.

– Fico mais aliviado – confessou ao terminar o serviço e tirar o excesso de creme no próprio rosto. – Se for tirar mais fotos hoje e quiser que eu saia nelas, só da cintura pra cima.

– Tudo bem, cara. Agora vamos para a água.

Deixaram as roupas e bolsas em uma cavidade escondida pela restinga e foram para o mar. A maré estava enchendo, então não precisaram ir muito longe. Eles pareciam ter intimidade com o vai e vem das ondas salgadas. O banho durou pouco menos de uma hora e Carlos parecia bem mais a vontade. Viviane se sentia tranquila naquele lugar que o som do mar era o silêncio entre as poucas palavras que trocavam.

Ao sair do mar, os dois se encaminharam para onde deixaram as coisas. Viviane viu que ali perto estava o mesmo carro sem ninguém. Carlos pegava a camisa desbotada enquanto olhava o carro.

– Aposto que quem quer que esteja nele tá aprontando alguma sacanagem – falou divertido.

– Acredito que seja mais coisa de gente perigosa. Ou sacana mesmo – Viviane sorriu pegando a câmera.

Enquanto a ligava, sentiu de súbito sufocar. Sua garganta trancou-se violentamente em um nó bloqueando a respiração. Percebera as mãos firmes de Carlos apertando a camisa pelas costas com uma força que ele não parecera ter em nem um momento. Ela tentou folgar o pano desbotado em busca de uma lufada de ar, mas Carlos a derrubou com uma rasteira e caiu por cima dela. Nesse tempo houve uma brecha para buscar fôlego, mas a respiração veio com areia, que também entrou em seus olhos e boca. Tentou usar as mãos para arranhar Carlos, mas não conseguia alcançá-lo direito. Espernear também não adiantava. Ela agora torcia secretamente – entre lágrimas – para que apenas morresse. Qualquer outra violência seria demais.

Quando as forças de Viviane estavam se esvaindo, Carlos afrouxou o aperto em seu pescoço sem sair de cima dela. Ela lembrou-se do carro e tentava gritar, mas todas as suas forças não pareciam ser suficientes. Se ela pudesse se ouvir, saberia que mal tinha mais voz.

– Duas coisas sobre mim, Viviane – começou Carlos ofegante em uma excitação doentia. – Eu não vou embora semana que vem. Vou hoje. Aliás, já tinha vindo aqui antes. Sempre procuro lugares que já visitei para aliviar o estresse da vida.

Viviane ensaiava um choro convulsionado. Queria saber o que a fez ser a escolhida desse sujeito. Queria saber porque não foi direto a Recife ver a família que tanto lhe dava apatia. Pareceu estúpida a ideia de interagir com estranhos, mas queria que aquilo lhe movimentasse um pouco a vida. Não pensava que o rumo desenhado a levaria inercialmente para o fim.

– E segundo – continuou falando baixo agora, ao ouvido de Viviane, o que a fez sentir náuseas do que poderia ocorrer. – Meu nome não é Carlos – ele cheirou o cabelo molhado de mar da moça desfalecida que buscou em um alto soluço forças para novamente gritar. Até-então-Carlos forçou novamente o aperto até que os olhos de Viviane mirassem o nada.

Calmamente, não-mais-Carlos levantou-se e pegou a máquina fotográfica. Caminhou até as coisas dos dois e guardou-as todas na própria mochila (incluindo a camisa desbotada) e vestiu a bermuda. Caminhou uns cinco minutos até o prisma estacionado. Tirou a chave do bolso e o destravou. Ao sentar-se ao volante, vestiu uma nova camisa e deu a partida. Sentia-se satisfeito, renovado. Seduzir alguém a ponto de ter-lhe a vida era uma recompensa por viver seu dom para os outros. Agora estava pronto para voltar ao mundo que lhe roubaria novamente o que ele sabia mais que nunca que ainda tinha.