a primeira colheita

É noite no sertão. As estrelas estão especialmente belas hoje e o frio da noite nessa terra que é tão castigada pelo sol, trás lembranças de outro lugar a Luiz. Ele mesmo não parece vindo da vila onde se formara o arraial espontâneo ao som das notas que ele executava.  O cabelo loiro, a pele que parece nunca ter se acostumado em batalhar diariamente com o sol, os olhos claros da cor do próprio humor traiam a primeira vista. Apesar de tocar o instrumento com certa suavidade, Luiz tinha mãos calejadas de enxada. O traço do sotaque nas palavras era a certidão de nascimento.

O local é uma praça modesta em frente à igreja e cercada por casas de alvenaria, madeira e taipa, num desordenado que não impedia transito de cavalos e carroças mais do que o próprio chão de barro batido.

Sua sanfona segue uma melodia que não lembra em nada a aridez em que se encontra, nem nenhuma outra que ele compôs. Ele toca no meio da rua, em frente a uma fogueira. As pessoas param ao som da valsa e foram se aproximando cuidadosamente para que os passos de botas, chinelos e pés descalços não chamassem atenção. O público a sua volta se aquietou para ouvir a melodia. O dedilhado do sanfonar era respondido com a respiração cautelosa de todos para não atrapalharem o caminho da canção. Ela era escutada não só com os ouvidos, mas o coração ficava leve à vibração de cada acorde. As mentes de todos valsavam sem que nunca tivessem escutado algo assim na vida. As crianças repousaram e deixaram que o suor das brincadeiras secasse no mesmo vento que lhes trazia o som e levava a atenção. As moças suspiravam o amor e deixavam que lhes transbordassem aos olhos. Alguns rapazes sorriam para o longe, outros procuravam um olhar perto e até os que não admitiam, deixavam a calma tomar conta e o que é pensamento se perder. Os mais velhos lembravam seus melhores dias e os jovens fugiam do amanhã. Os mais brutos, amoleciam dentro de seu orgulho. Os mais céticos pensaram – por um raro momento – terem encontrado algo para acreditar que já estava em suas vidas a mais tempo do que lembravam e não conseguiam precisar exatamente o que era.

A melodia foi repetida algumas vezes. Encorajou casais já feitos se beijarem, os mais tímidos se abraçarem. Mãos que ainda não pertenciam a casais partilhavam o mesmo toque; olhares se pertenciam em cumplicidade. Alguns mais bem-aventurados resolveram dançar. Eles seguiam a música em pares respeitando o ritmo que os conduzia. Outros se afastaram para trocar carinhos e juras ao compasso em que seus próprios corações dançavam. Mas não se distanciaram muito para poder ouvir a melodia. Eles não queriam que ela acabasse. Na verdade, não queriam que aquele momento terminasse. Ele surgiu sem ninguém esperar, e poderia muito bem ir embora do mesmo jeito. Porém ninguém queria que fosse assim. Eles se agarravam aos seus amores e às promessas. Seguravam-se em braços e mãos e carícias. Queriam se prender naqueles olhos que miravam, na respiração que sentiam. Havia uma saudade muito grande do presente. O agora estava fugindo deles e aproveitar ao máximo era indescritivelmente bom e suficiente. Aquilo não podia acabar.

Mas acabou.

Ao final, as pessoas não bateram palmas. Continuaram em seus silêncios, seus abraços. Estavam todas em um lar recém-descoberto ou no regaço que procuraram há anos. A música ainda ecoava em cada um, trazendo uma saudade boa e uma felicidade que não acreditavam que pudesse florescer nem na caatinga, quanto mais no solo rochoso em que viviam.

O silêncio inquieto que era lembrado pelo crepitar da fogueira, ensaiou seu adeus no burburinho dos pequenos que estavam ali, porém, só partiu daquele meio quando a voz de navalha o cortou.

– Só ouvi essa música uma vez, Luiz. Tu deve tá inspirado – o tom jocoso traia-lhe a calma que sentia agora. – Ou bastante saudoso. – Não conseguiu sustentar por muito tempo.

– Além de mim e do vento, você foi o único presente que a ouviu mais de uma vez, Carcará. Talvez nem a toque de novo – ponderou.

– Tu com esse papinho afrescalhado de sempre – mas fora interrompido por uma profusão de vozes.

“Por que não tocar uma música tão bonita?”, “toque novamente amanhã!” e “toque de novo agora!” eram apenas algumas das frases escutadas. Questionamentos como “Onde tu aprendeu isso?” e “e que é esse som?” se intercalavam com “isso não é forró” e “o pé não arrasta com essa música, quer flutuar” o bombardeavam a todo instante. Por fim ele decidiu falar e todos se calaram.

– Eu aprendi dentro de mim –, ao seu lado, Carcará fazia uma expressão e um floreio de mão bastante afetado, mas que ninguém notara. – Embora tenha tido uma professora.

– Sua professora deve tocar muito bem, então. E conhecer música de outros lugares – quem falava era Rosinha, filha mais velha de seu Sebastião, dono do armazém. Ela estava prometida para Getúlio, um jovem valente, que vivia de desafiar e vencer a seca, ano após ano, cuidando do próprio gado.

– E namorar muito bem também – riu Maria Tereza junto com meia dúzia. Ela lavava roupas com suas irmãs para ajudar a mãe, dona Geni, e se engraçava para as promessas de vários rapazes da região.

– Não duvido que você tenha um repertório pra ensinar ao nosso sarará do acordeão – dessa vez Carcará fora ouvido e teve risos afirmativos em resposta. – Mas acho que só ia dar muito rala bucho. – As pessoas concordavam como Maria Tereza não estivesse lá. Ernesto, quem agora prometia à moça (por assim dizer), não gostou de ouvir aquela verdade, nem de ser pressionado por ela a tomar uma atitude em sua defesa. Disse a ela, baixinho, que teria com o homem depois, rezando para que ele não escutasse.

– Se você só tocou a música uma vez antes – quem desafiava o burburinho era irmã Graça, serva ordenada na capital e que tinha sua missão de evangelizar com outras da ordem neste lugar – o que a fez tocar de novo? E o que faz com que você não a queira tocar mais. – o burburinho já não falava das saias de Maria Tereza, mas na razão dos argumentos da irmã.

– Bom, já que você perguntou ela tem uma história-

– Queria que a lua tivesse mais piedade de mim que o sol – atravessou Carcará, que acomodava-se em sua falsa relutância para escutar.

Tudo começou quando o padre José disse que precisava ter com sua família. Ele tinha direito a um dote que seu pai lhe negara quando o filho escolheu a vida sacerdotal. Em meio a injúrias, disse que não haveria de precisar já que escolhera viver na pobreza. José disse que entendia aquilo, afinal, seu pai era um homem da terra. O trabalho que não fosse braçal para ele não tinha tanto valor. Um médico poderia salvar-lhe a vida, mas o que ele plantou na terra e ela lhe deu, salvou a vida do homem todos os dias para que ele pudesse aprender o ofício da medicina e ser útil. Ele só era grato a terra e só respeitava quem pensasse igual. Para ele, o filho era uma decepção ao ter largado o exército e tentado a medicina quando jovem, mas se tornou uma desonra ao deixar os estudos e seguir a vocação do sacerdócio.

De fato, José não tinha interesses nas posses do pai, a igreja lhe dava tudo o que precisava, que era pouco até para o menos abastado dos homens. E, em troca, ele dava tudo de si e o que tinha para a sua missão. Sua determinação consegue realizar milagres e quem era abençoado ou testemunhava o via como um verdadeiro arauto da fé. O fato é que ele deveria ter direito a uma parte do que era do pai e, vendo as dificuldades do povo de Belo Forte, pensou em usar isso para construir um reservatório de água para a região de sua igreja.

Como a família mora em um local ao extremo sul do continente, ele convocou uma pequena comitiva para que seguissem o caminho. Carcará foi o primeiro. Não conseguiria se perder em lugar nenhum. Mesmo se não o conhecesse ou se quisesse se perder. Sempre acha qualquer trilha – humana ou não –, consegue ler a vegetação e o céu. Calçava botas, vestia roupas algodão com proteção de couro curtido e reforçado para as mãos, antebraço e o troco. O pequeno chapéu de couro lhe protegia o juízo do castigo do sol.

– As pessoas estão me vendo, fresco – interrompeu Carcará. – Não precisa me dizer pros que me conhecem.

– Eu conto a história e faço como quero. – A reprovação de Luiz fez coro com a do público, que abandonou o silêncio para fazer Carcará se calar. Argumentaram que ele parecia alguém melhor na história do tocador e ele protestou mais para si mesmo que em retaliação.

Genaro, por sua vez, era bastante alto. Magro, usava os dedos finos para o tratamento com pistolas e o rifle. Ágeis e longos, serviam não só para o manejo com a pólvora, também a punga. Escondia a calvície em um chapéu de palha, que lhe assegurava uma mira melhor, já que qualquer luz atrapalhava por conta das lentes redondas de seus óculos. O rosto comprido e moreno parecia mais jovem do que realmente era. Apesar da aparência paterna, o homem podia ser letal e acompanhava o grupo para cobrir qualquer confronto a distância ou limar qualquer possível desgaste causado por um animal selvagem.

Para auxiliar no projeto do reservatório, José conversou com representantes da população e elegeu Preto para ajudar na jornada. Mesmo ele sendo de uma Religião distinta, vivia a natureza de sua terra e a conhecia como ninguém. Apesar dos modos rústicos e de evitar o contato com a população de Belo Forte, preferindo o convívio com os animais, o velho era sábio e conhecia o melhor local para a construção do reservatório. José aprendeu a respeitá-lo, ainda que não visse sentido em seus rituais (o que já era símbolo de grande tolerância, pois, em sua ordem a crença do velho era considerada – ainda que extraoficialmente – profana). Ele andava vestido em peles de animais que ele comera e entalhara suas armas e utensílios em seus ossos e presas. Segundo a própria palavra, nada deveria ser desperdiçado na natureza. Toda a vida tinha seu propósito.

Por fim, eu estava lá para cuidar das praticidades. Assumi as negociações por comida, consegui cavalos para todos, uma mula para carregar as provisões e ainda oferecia conforto para os espíritos dos viajantes, o que ajudava também com a fadiga e as dores. O melhor remédio para isso é a música. Como não podia levar a sanfona em uma viagem tão longa, optei pela flauta e uma pequena viola de nome engraçado que consegui no porto.

*             *             *

Foi uma semana sem problemas, já que todos estávamos acostumados com o calor. Na última cidade do sertão, os homens do rei Lampião, autorizaram nossa viagem. Era uma missão santa e o Homem respeitava isso. As fronteiras do reino são todas protegidas por uma muralha recente feita às pressas. Cada cidade foi fazendo seu pedaço, que depois foi sendo reformado. Alguns trechos ainda possuíam tamanho diferente. O material em todos variava, mas o rigor da defesa e vigilância era igual. Todas eram protegidas pelos cangaceiros.

O Cangaço é uma guilda de batedores que não tinham pena de matar. O couro curtido e bem trabalhado era a proteção que tinham ajustada ao corpo sobre tecidos de lã nobre. Todos usando grandes chapéus de couro adornados com desenhos interpretados por eles como títulos e patentes. Eram marcados pelo sol e sujos pela areia, o que dizia que qualquer luxo que eles tivessem era um direito conquistado por uma vida de enfrentamentos. Sua lei era sua força. Pistolas, rifles, punhais e pexeras estavam entre as peças mais comuns do arsenal dos cangaceiros.  O chefe deles recebia o título de Lampião.

O atual lampião só tinha seu nome conhecido pelos membros da própria organização, que serviam seu líder com lealdade extrema. Após uma excursão pelo vasto Sertão (maior e mais mortal região árida do reino), o homem decidiu cercar o território e conquistou o poder político de todas as cidades envolvidas. Matou alguns prefeitos, desarmou algumas tropas, fez crescer sua lenda. Quando a renúncia era amigável, ele apenas colocava alguém de sua confiança para representar os interesses da região ou negociava com o atual representante, se este lhe oferecesse obediência (sempre vigiada). Ao invés de gerar revolta da população, Lampião conquistou o respeito e a admiração do povo, porque tomou para si o comando, mas também as responsabilidades.

A gente sertaneja prosperara.

Quase todos os ricos tinham suas posses tomadas pelo Cangaço e aquilo era distribuído entre os pobres. As poucas famílias que mantinham seus bens, pagavam tributos ao rei e empregavam gentes. Os que foram abastados nunca haviam lutado e não saberiam fazer agora. De resto era satisfação. Alguns trabalhadores eram recrutados pelo próprio regente para a guilda ou escavações. Dizem que ele sabe de um grande tesouro escondido no Vasto Sertão, onde ele faz buscas incessantes.

Tirano ou benfeitor, o rei possuía suas crenças, por isso, respeitava os homens santos e até mesmo os colocava como prefeitos de algumas cidades. Por isso a missão de José foi aceita e bem vista. O padre, por sinal, usava uma cota de malha acima da roupa e abaixo de uma túnica com o símbolo de seu deus, uma flor de lótus. Trazia o mesmo símbolo em um escudo preso ao antebraço esquerdo por tiras de couro. A flor é de aparência frágil mas cultua o Sol, que castiga a todos sem nenhuma distinção e premia os fortes. Os sertanejos viviam pela lei do Sol que, pela fé de José, não era cruel, mas justo. Por isso o Lótus, porque havia beleza na força e na vida. O julgamento do sacerdote ficara por conta da espada que trazia presa às costas.

*             *             *

Era um grupo improvável, mas seguimos viagem por quase um mês. Os desafios não eram tantos durante a viagem. O clima seco ficou atrás da Cordilheira das Nuvens, que atravessamos em uma semana, dando lugar à Floresta Morta. A cordilheira tem esse nome porque é muito alta e recebe mais chuva do que o Sertão sonharia. Carcará nos guiou por uma trilha natural em meio as grandes copas de árvores. Ele havia dito que grandes animais deveriam usá-la, mas que era melhor arriscar um encontro com eles do que com os mortos. Já desses, José cuidou com suas bênçãos.  Evitamos quaisquer animais que não comeríamos e tivemos poucos problemas com batedores. Também não cruzamos com criaturas inteligentes – que são o real perigo por trás dos mortos. Vencemos a floresta em poucos dias e avistamos os planaltos.

– Assim que subirmos pelo primeiro, minha cidade aparecerá no horizonte – avisou José um pouco saudoso.

– Se as moças daqui forem galegas como você e Luiz, eu vou deixar uns filhos meus por esse lugar – Genaro entre risos. – É bom tirar férias das morenas.

– Pensei que estava me cortejando, Genaro. – A indagação do padre tirou risos de todos.

– Respeito sua santidade – atalhou o atirador puxando a mula enquanto arrumava os óculos no rosto. – Mas se Luiz tiver problemas, eu resolvo sem preconceito.

– Largue de ser fresco, homem – disse sem olhar o homem. – Só piora pra você.

Algumas trocas de amabilidade enquanto alcançávamos o topo. Descemos das montarias para comer e nos preparar melhor para o frio que não nos era comum. José não parecia temê-lo. O homem não sofria com baixa temperatura, calor ou medo que fosse, mas se comoveu ao ver sua terra.

Era sertão também.

– Que arrudeio da porra que tu desse, Carcará – Genaro estava mais piadista que o normal, mas dessa vez ele arrancou alguns risos tímidos. – Leve logo a gente pras temperâncias galegas, homem. Luiz já tá começando a ficar irresistível.

– Aquela é a minha terra – a voz do homem não parecia dele.

– É como se fosse minha tam- interrompi a anedota de se formar no diafragma com uma cotovelada nas costelas de Genaro que, finalmente, entendera.

– Quando chegarmos lá, descobriremos o que houve – apaziguou Carcará.

Comemos e decidimos não dormir até cobrir a distância que era menos de um dia sem paradas. Descemos o monte e ao começar a subir as terras do homem santo, vimos o chão rachado que é mais quente que areia. Árvores mortas, a água que corria monte abaixo das nascentes não conseguia se impor à vontade da terra.

– Parece piada – Genaro ao tirar o casaco de couro.

– Isso não é normal – Carcará constatou. Os cavalos ficavam um pouco arredios.

– A natureza serve outro senhor agora – Preto não falara nada até então. Ao olharmos para ele, já havia apeado de um salto e trazia presas raivosas grandes demais pra sua boca.

Sem tempo de entender aquilo, saltamos dos cavalos que corriam em disparada. O velho conjurava espíritos de animais em um balbuciar misterioso. Genaro tinha o rifle em mãos. A prece de José iluminava a sua espada. Saquei meu facão.

– Chibata! – Era Carcará com as duas pexeras em mãos. – Saiam do chão! – O chão batido de súbito era um redemoinho de areia, que nos tragava lentamente e deixava os movimentos devagar. Genaro conseguiu subir uma pedra. Preto era agora um homem lagarto, movendo-se sobre a areia macabra. Eu, Carcará e José presos. Estátuas de pedra começaram a levantar.

– Use sua reza! – Gritei ao paladino.

– Não são mortos – respondeu-me prontamente. – Use sua música!

– Não são vivos! – alertou Carcará. – São apenas estátuas! É uma sereia da pedreira!

Então, no centro do redemoinho, surgiu a criatura. Um elemental de terra que mata suas vítimas e as transforma em estátuas de pedra para roubar-lhe as riquezas. Sereia da pedreira é uma triste analogia que os homens usam para aquelas que os enterram vivos e fogem com seu mais precioso bem. A criatura não tinha bem sexo, mas todos os elementais têm formas femininas. As estátuas podiam ser controladas por ela, e ela as usava para puxar as presas para dentro da terra ou simplesmente para perto de si. Uma delas agarrou meu pescoço por trás, mas logo perdeu a força perante um estampido.

– Suba nessa porqueira! – Genaro berrou por trás do cano fumegante da sua pistola.

Subir no resto da estátua me daria mais algum tempo para agir. José despedaçava todo corpo de pedra que se aproximava dele com sua grande espada. Carcará subiu em uma que tentou lhe atacar e arrancou-lhe as partes enquanto ainda se movia, para criar uma trilha por onde lutar. Preto batia de frente com a criatura usando seu poder primal. A natureza original mostrava sua revolta perante o inimigo enviando sua força intempestiva para Preto. Os construtos fechavam o cerco em José.

Cortes horizontais davam-lhe perímetro. Corpos de pedra dos oponentes era piso para seus pés. Carcará lutava perto, mas não fazia costa a costa por temer que ambos afundassem mais depressa. Genaro conseguia cobrir ambos. Eu saquei a viola. E toquei. Acordes rápidos num compasso ligeiro. Os que estavam comigo agora eram mais ágeis. Usei uma trilha de destroços de inimigos para sair da área de alcance do encanto da sereia enquanto tentava impor o meu mais alto. Genaro parou de atirar e pegou uma pequena bolsa. Jogou-a para junto do elemental e pediu que Preto fizesse seu movimento. Ele se afastou e criou chamas  no perímetro do inimigo.

A pólvora na bolsa explodiu.

A criatura já decepada e chamuscada perdera quase toda sua força e mal conseguia se mover. Não controlava mais as estátuas para aguentar ficar viva. A magia perdera força também e grande parte do chão queimado era mais sólida. Foi o suficiente. Carcará cortou-a descendo as lâminas em um corte cruzado. José tirou sua vida de um golpe vertical que dividira o resto da sereia em dois.

Não havia mais areia, mas um chão batido e sem vida de antes que agora servia de cemitério para pessoas de pedra.

– Desculpem não lembrar antes, mas, se serve de consolo, temos um tesouro aqui em qualquer lugar – o acanhamento mal disfarçado traia a voz de Carcará.

*             *             *

Após procurarem por um tempo considerável para o cansaço e a fome, conformaram-se de que não havia riquezas escondidas por ali. Carcará disse que era estranho que a sereia não guardasse os tesouros em sua área e reforçou que eles não procuraram direito. Decidiram seguir o resto do caminho e foram recebidos nas muralhas do feudo pela guarda da Colina de Greenland. Eles usavam armaduras com partes de metal protegendo as pernas, peito e os ombros. Elmos protegiam-lhes a cabeça e manoplas revestiam as mãos que empunhavam suas lanças. E cada armadura, o brasão daquele feudo: uma águia marrom em pleno voo com um carvalho verde ao fundo.

– Queremos falar com Dário, o senhor dessas terras – bradou José, emendando antes de qualquer palavra por parte dos homens. – Diga que é o seu filho – terminou mostrando um anel.

Os guardas conversaram entre si e um deles foi olhar a joia. Ao confirmar que tinha o brasão desenhado no ouro, avisou ao outro e entrou. Voltou em três minutos com o chefe da guarda. Um senhor com uma armadura um pouco mais pomposa que os outros e que, por sua vez, sofria com o calor mais que eles. A barba grisalha e bem aparada cobria-lhe o rosto. A calvície começara a atacar, mas ele não a escondia. Ao se aproximar ele confirmou um sorriso que já era mal contido à distância.

– José, filho de Dário! Seu pai ficará feliz em vê-lo agora! – O ânimo daquela voz carregada de idade e respeito não o convencera muito.

– Grande Marcos! Ele não parecia feliz quando anunciei minha partida – o guerreiro coçou a cabeça como se fosse um jovem. Marcos o havia ensinado o básico sobre combate e outras coisas que seu pai não tinha tempo. – Ainda mais quando souber meus motivos.

– Nenhum assunto desagradável será pior que o mal que os ventos trouxeram para cá – um pouco de amargura ao homem.

– Impossível não perceber, embora eu ainda não saiba a causa – José.

– É um dragão, filho – o silêncio durou tempo suficiente para que os viajantes se olharem perplexos, os anfitriões fitassem o chão e todos quererem que ele acabasse. – O dragão trouxe a seca.

[NOTA]

Um ano depois, desafio dado pela Ludmila foi realizado. O texto foi baseado na música do tal do Dave Thomas e tomou um rumo bem inusitado. Em trinta dias sairá a parte dois. Tive que dividir porque o texto tomou proporções grandes demais pra o que eu considero agradável de se ler no pc. Desculpem-me por isso. De verdade. MAS NÃO DEIXEM DE LER SÓ PORQUE EU ME DESCULPEI. Não sei se completo o texto aqui mesmo ou se faço outro post, mas quem ler a primeira parte, saberá quando sair o desfecho.

Grato pela atenção.