vaidade

Téo sempre quis ser uma pessoa importante. Sempre quis emprestar seu carisma para o entretenimento das pessoas e, claro, ganhar dinheiro com isso. Ele sempre puxava as resenhas na turma, os discursos engraçados nas festinhas, até algumas falas na paróquia. No colégio, sempre se deu bem apresentando os trabalhos. Ele não fazia os trabalhos e em troca os apresentava. Lia o conteúdo na aula anterior, no intervalo ou até mesmo enquanto os outros grupos apresentavam e desenrolava bem. A mãe dizia que ele tinha que estudar e o pai acreditava que ele deveria ser apresentador de televisão, com seu próprio programa. E ele queria sair da pequena cidade em que morava para o mundo.

Os anos passaram e não foi bem assim que ocorreu.

Ele começou dando voz a promoções do varejo, num trabalho de temporada numa dessas lojas. Conseguiu ficar no emprego até que um radialista o chamou para trabalhar no seu programa. Não era o serviço na televisão, mas já lhe sustentava e, depois de um tempo, começou a satisfazê-lo. Ele fez um curso de radialista pelos anos oitenta e ficou por lá. As pessoas conheciam sua voz e repetiam seus bordões na rua. Ele gostava daquilo. Reconhecimento na sua terra e sustento do seu dom. Téo não queria mais nada.

Os ossos do ofício começam quando a empresa para qual Téo trabalha decide patrocinar um evento famoso na pequena cidade em que ele mora. Ficou feliz ao ser escalado para apresentar o evento, pois captaram em seus programas aquilo que ele trazia desde a infância. Mas ele não pensou que seria tão desagradável.

Lá estava Téo, usando botas um número maior que seus pés e cobertas de lama, com uma calça jeans surrada, uma camisa de botão coberta por um colete de couro e um chapéu de vaqueiro. Uma mão trazia o microfone, na outra uma pequena cola com nomes de patrocinadores escritos a bic. O calor deixara a camisa grudada ao corpo, sua testa cheia de gotas de suor e a folhinha de papel molhada.  Suas costas doíam e a barriga reclamava. Comeu feijoada mais cedo e exagerou no bacon, lombo e pernil. Precisava apenas ir pra casa. Mas quem estava lá jurava que ele apenas queria estar ali sendo parte do espetáculo. Pecuaristas, moradores e até algumas pessoas das cidades vizinhas estavam ali. Os mais jovens queriam saber apenas do show que ocorreria depois. “Eles que estão certos”, pensou Téo. Limpou a garganta, ergueu o microfone e começou a falar.

Juliana estava sentada num banco de cimento debaixo de uma tenda. Era um camarim improvisado para as candidatas. Algumas ensaiavam uns passos de dança, outra pintava as unhas. Duas conversavam baixinho entre si. Uma comia biscoito recheado de morango. Juliana passava creme nas pernas. Ela sabia que logo não adiantaria muito, mas esconderia suas varizes em um momento crucial. Suas pernas estavam parcialmente cobertas por uma bermuda jeans que chegava aos joelhos, logo seu trabalho se concentrava nas panturrilhas. Era um martírio para a sua coluna fazer isso em meio a uma luta com os seus cento e vinte e quatro quilos, mas ela venceu bravamente. Ao terminar bebeu um gole generoso de água e pediu a concorrente um biscoito, tendo como resposta o pacote entregue generosamente em sua mão junto ao sorriso franco. Devolveu-lhe o sorriso e o pacote três biscoitos mais leve. Os comeu rapidamente e limpou o farelo na camisa verde estampada.

Aquela era uma das suas. Alcione trabalha como merendeira numa escola pública. Ela se inscreveu no concurso Garota Leitoa sem saber bem o porquê. Parecia nervosa, mas não falava nada. O sorriso fora tão sincero que ela retribuiu. Havia até um pouco de respeito nele, afinal, Juliana venceu a primeira edição do concurso. Empatado com outra moça que só competiu naquele ano. No ano passado ela ficou em segundo lugar, perdendo para Maria de Lourdes, que estreara naquele ano com cento e quarenta quilos, e que dessa vez se dizia mais magra. Estava lá, com uma camisa justa de listras horizontais, que realçavam seu corpanzil robusto e uma daquelas calças de academia. Tudo para parecer mais gorda. Ela estava cochichando com a irmã, Tonha, que também competiria com seus noventa quilos. “As vadias querem agradar a todo mundo pra levar o prêmio pra casa”, pensou.

Ela ganhou uma vez, mas não foi sozinha. Na segunda perdeu para a Lourdes. A mulher ficou famosa na cidade com o concurso e todo mundo a chamava de Garota Leitoa ou Dona Leitoa. A mulher gostava, via com carinho. Seu marido dizia que gostava de ter carnes onde pegar, mas tinha os olhos um tanto tristonhos. Seu olhar avivava-se um pouco mais seguindo carnes mais magras. Os amigos dele gostavam dela, mas a tratavam como parte do folclore da cidade. Eles desejavam as mulheres dos outros, menos Juliana, e ele sentia. Nem mesmo ele a desejava. Das últimas vezes que fizeram sexo, além de apagar as luzes como sempre, ele fechava as cortinas e certificava-se de que os vizinhos já estavam dormindo. Fazia com o mínimo de barulho e se demorava no banheiro depois, voltando para a cama apenas quando Juliana já tinha dormido.

Até o dia que seu marido disse que sairia de casa se ela não emagrecesse. Estava farto de ser o marido da leitoa da cidade. De não sentir vontade das formas da mulher nem de vê-la sem roupa. Ela chorou e disse que participaria do concurso uma última vez e que depois mudaria. O prêmio poderia até ajudar a pagar uma cirurgia. Mas Juliana fazia aquilo mais por ela do que por ele. Mais do que ser magra, ela gostava de biscoitos, refrigerante, sanduíches e pizza. E mais de que isso, gostava de ser a garota leitoa. Ela já havia decidido deixar de participar porque o concurso estava ficando um pouco mais sério. Ainda era uma coisa de família, mas moças bonitas envelheceriam e engordariam. Gordinhas da capital se interessariam e seria mais difícil. A chance que ela teria de ganhar era agora. Usou isso para ganhar pontos com o marido também.

– Pesando noventa e oito quilos, Antôniaa Souzaaaa!!! – A voz de Téo Souza chamou a primeira candidata. Juliana começou a repetir o mantra na sua mente. “Desfilar, sorrir, falar, dançar. Desfilar, sorrir, falar, dançar.”, várias vezes na mente. Todas desfilariam e falariam algo individualmente, depois dançariam juntas e um júri elegeria a vencedora.

– Com cento e quarenta quilos de puro charme e elegância, Cristinaa Siiilvaaa!!! – Ela levantou e ficou a espera. As cinco que sobraram trocavam comentários sobre o concurso desejando boa sorte umas as outras. Juliana também o fez, mas via tudo como falsidade. Ela queria apenas ganhar.

– Trazendo cento e vinte e quatro quilos de bacon de primeira, nossa primeira Garota Leitoa, Julianaa Castrooo!!! – Os gritos da plateia trouxeram seu melhor sorriso. Cada um daqueles olhares era o melhor que ela jamais teria novamente. A emoção queria lhe fugir pelos olhos, mas ela a segurou na garganta e caminhou descalça para o lamaçal.