palavras de sabedoria

Hoje completa uma semana que a luz do sol não encontra Paulo. Ele estava esses dias em casa, jogando games, vendo filmes e seriados, lendo sobre besteiras. A sua alimentação não era das melhores: salgadinhos, biscoitos, sanduíches, pizzas, comida de micro-ondas e refrigerante. Umas barrinhas de cereais o deixavam tranquilos sobre um equivalente “saudável” ao café da manhã. Seu cachorro, Plínio, comia os restos das porcarias, mas preferia sua própria ração.

Paulo revezava entre o tapete da sala, o sofá e a poltrona. Todos os móveis lhe serviam de mesa. Sua vestimenta se resumia a cuecas e shorts velhos e esburacados, com o elástico lutando em seus últimos momentos de vida. Cravos e espinhas começavam a se anunciar pelo rosto oleoso. A barba mal formada crescia. O cabelo de aspecto sujo dava sinais de caspa.

Havia poeira em cima dos móveis. Os sacos de lixo precisavam ser trocados pois já estavam cheios. A correspondência ainda estava junto ao capacho, no chão, perto da fresta da porta. O telefone estava desligado há dias e o interfone fora do gancho. O banheiro da área de serviço da casa estava com o boxe cheio de merda de cachorro, que também já não saía. As luzes, a televisão e o micro-ondas faziam com que os vizinhos soubessem que ele estava vivo, o que era o suficiente para todos.

Então, ao se levantar para arrumar algo para comer, Paulo foi a cozinha e viu seu cachorro, Plínio, o encarando. Ele afagou indiferente a cabeça do cão e foi a dispensa procurar algo para comer. Pegou um pacote de biscoitos e o saco de ração. O companheiro ainda o encarava enquanto ele servia sua tigela. Colocou água na segunda e deixou ambas próximas; sempre na mira do olho do cão. Isso o incomodou um pouco e Paulo olhou o cachorro sem entender o que e ainda podia querer. Até que Plínio lhe disse:

“Melhor dar um jeito na sua vida.”

Paulo olhou atônito para o cachorro, que foi, indiferente, em direção à tigela de ração. Ele não teve coragem de pedir ao animal para repetir o que havia dito, nem para falar qualquer outra coisa. Não sabia se aquilo tinha sido real.

Então, guardou o pacote de biscoito no armário, e foi procurar uma toalha limpa para tomar banho.

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