a ruiva

– Tá com medo? – perguntou desdenhosa a mulher. Ruiva. Curtas madeixas cultivadas a altura do pescoço. Vestia branco. Aquela provocação tinha um tom espontâneo, mesmo sendo algo calculado e até mesmo repetido para vários outros. Provocação a qual lhe respondi com o desafivelar do meu cinto.

– De modo algum – mirava-lhe com olhar agudo. Não queria perdê-la de vista nem por um instante.

– É que você pareceu nervoso… – não sei o que ela queria com essas provocações bobas.

– Só não acho certas coisas necessárias – interrompi sua fala suspirosa enquanto abaixava lentamente minha calça.

– Então você está pronto. – Um sorriso malicioso se formou no rosto da mulher. Nessa hora, confesso, senti um arrepio.

– Nasci pronto.

Eram dez horas da manhã. Após vários dias de uma forte gripe reincidente, sempre aparecem médicos para conselhos. Os médicos das rodas de samba e mesas de bar me sugeriam cachaça com mel. Juravam que fazia bem para a gripe. Problema é encontrar com os médicos da redação na manhã seguinte com cheiro de álcool.

Esses outros doutores, cada um com sua aspirina ou xarope, recomendavam também o repouso para curar a virose. Lá no trabalho, tudo era motivo para repouso e uma licença acompanhada de atestado. Nada contra, na verdade.

Os piores médicos mesmo eram os mais próximos. Para eles, não é doença, é moleza. Se você comer um bom prato de feijão ou inhame estará curado. Até que a gripe não passa e aí os familiares sempre têm uma receita que envolve a infusão de qualquer mato do jardim. Nada disso funciona. Todos começam a achar que é pneumonia. Aquela sua avó condena: “tuberculose”. Você é silenciosamente evitado dentro de casa. Um movimento espontâneo meio exagerado, mas é o que te faz ir ao médico.

E lá estava eu. Após ser derrotado no primeiro hospital, onde – após toda uma espera de Ana Maria Braga – simplesmente me informam que deixaram de atender pelo meu plano de saúde. No segundo hospital, as coisas pareciam ser melhores. Estavam reformando ele.  Visando crescimento.  Quando estava preenchendo uma papelada que me pediram a mulher do meu lado começou a gemer de dor, se apoiando com certa dificuldade no balcão. Prontamente alguém do hospital trouxe uma cadeira de rodas para que ela desfalecesse, após usar as suas últimas forças para assinar seu nome no local marcado.

Ainda esperei uma dúzia de minutos para ser encaminhado ao médico, onde esperei apenas um senhor sair e meu nome ser chamado do lado de dentro. Nem precisei sentar na nova sala de espera. “Sorte”, pensei. O jogo parecia estar mudando.

Ao entrar na sala, me sentei enquanto cumprimentava o médico. Doutor qualquer coisa, não lembro o nome.

– O que você sente? – Perguntou. Cansaço, catarro, dores de cabeça, na garganta, muito espirro e o mesmo tanto de tosse para acompanhar.

– Tire a camisa e fique de pé. – Ele pediu para eu respirar fundo e segurar o ar. Com um novo comando eu deveria soltar devagar e repetir o ciclo. Quase como puxar um.  Só que ao invés dos meus amigos tinha um médico de meia idade na sala e meu pai esperando do lado de fora. Após várias repetições no procedimento, o doutor escreveu uma receita e pediu para eu procurar uma enfermeira e tirar uma radiografia.

Fui procurar a sala do raio-x e quando cheguei, mesmo sem entrar a enfermeira me encaminhou para uma outra sala. Lá havia algumas outras pessoas para serem atendidas. Após me acomodar em uma cadeira, notei que todas eram mulheres. Meu pai não veio. Disse que tinha um algo a fazer.

– Você. Me deixa  ver isso. – A enfermeira tomou de minhas mãos a receita. – Nebulização… radiografia… corticóide.

Tomei a nebulização e fui encaminhado para a chapa fria de metal da radiografia; um desconforto necessário. Logo depois voltei para a sala das mulheres. Foi então que entrou uma enfermeira com uma seringa numa bandeja.  Ela me olhou nos olhos e disse meu nome enquanto preparava a injeção. Eu sustentei o olhar e subi a manga da camisa.

– Não é no braço – sorriu olhando a porta do banheiro. – E você não vai querer fazer isso na frente delas – completou colocando uma mecha de cabelo vermelho por trás da orelha.

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