um novo dia

Abriu os olhos com um descortinar violento. Acordou de um baque em si mesmo. A claridade do dia retribuiu alguns instantes depois doendo-lhe a vista. Só então Leonardo sentiu-se livre das amarras do sonho e conseguiu se mexer. Virou-se de lado e procurou o telefone no criado-mudo. Conferiu a hora; acordou um pouco mais cedo do que deveria. Nenhuma notificação relevante pela noite, mas também não sabia se procurava algo específico. Largou o celular e girou novamente na cama, desta vez ficando de bruços. Fechou os olhos e procurou na mente vestígios do sonho que o atormentara, mas foi em vão.

Então, aproveitou como pôde seu colchão por mais um tempo antes de levantar. Tomou um banho rápido pra despertar e livrar o corpo daquela sensação de quem fora perseguido por um estagiário de Morfeu durante a noite. Não seria hoje que tiraria essa barba que já passava um pouco do ponto de “por fazer”, considerou, mas ainda estava aceitável ao seu ver. Achava a própria barba legal até duas semanas sem fazer. Depois era manter aparada ou rapar toda. “Ainda é cedo para ligar para Maria”, pensou Leonardo. Seguiu para o trabalho.

Foi caminhando hoje. Nunca ia por ser muito longe, mas era um dia claro que não tinha o calor de sempre. As ruas não tinham o barulho usual. Estava um clima propício.

Chegou sem nem perceber. Estava tomando café na mesinha de canto do departamento.

– Esse café tá sempre bom – comentou José, que entrou na empresa no mesmo dia que ele.

– É. Dona Elen faz melhor que qualquer máquina – respondeu Leonardo enquanto olhava o telefone. Devia ligar para ela agora. Seu pensamento foi interrompido pela secretária do chefe, uma japonesinha que todos na empresa queriam traçar, mas ninguém ousava sequer dizer dirigir qualquer palavra não relacionada ao trabalho. Ela avisara que o Homem estava esperando por ele.

O chefe de Leonardo era um homem grande. Sentado de frente para ele, parecia maior do que se lembrava. Ambos pareciam ter a mesma idade, mas o chefe sempre tinha a barba bem feita, um terno alinhado e um relógio mais caro que meu carro, pensou.

– Olha, Leonardo. Você é um funcionário exemplar, mas está demitido – seco e rápido.

– Como assim? – questionou.

– Você deixou sua conta do facebook logada no computador e a senhorita Sato viu suas conversas – o homem suara como o dia não o fizera hoje. – Ela encontrou declarações suas de cunho sexual sobre ela mesma para outros funcionários da empresa e fotos aparentemente suas que você compartilha com sua namorada, e as que ela envia a você também.

– Pe-pera – a voz custava a sair, forçando um nó na mente e outro na garganta. – Eu nunca enviei fotos íntimas para ela, nem ela fez isso pra mim – rebateu.

O chefe virou o notebook para Leonardo e ele viu sua nudez. Passou foto em foto e reconheceu seu corpo e o de sua namorada. Nunca vira aquelas fotos antes, mas não eram montagens. Eles estavam lá como eram.

– Seu silêncio não parece dizer isso. Sinto muito, Leonardo, mas essa não é uma postura aceita para um funcionário de uma empresa como a nossa – o chefe era inflexível. – Passe lá no RH. Mandaremos boas recomendações suas – sentenciou com um sorriso amarelo.

O resto da conversa foi um borrão. Aliás, fora os olhares que despiam e acusavam Leonardo – incluindo José, que o tratara normalmente até então, e Sato, que o ignorara como sempre mais cedo – e o burburinho geral, mal lembrava do que ocorrera a mais no prédio.

Sentia-se angustiado. Estava num restaurante perto de onde Maria trabalha. Não lembrava de como havia parado lá; repensava sua saída da empresa e as recordações estavam confusas. Vinham a sua mente coisas que deixara passar antes: pessoas olhando para ele como quem viu sua nudez, com olhos que viram o corpo de sua namorada. A demissão foi muito fria e sem tato. Ele nem lembra se entrou em acordo sobre seus direitos.

– Eles me viram nua, Leo?! – a voz de Maria era um sussurro quase gritado. – Você não apagou aquelas fotos?! – o olhar dela o perfurava a ponto dele querer evitar, mas tinha que sustentar aquilo. Era culpa dele.

– Eu nunca vi aquelas fotos! – afirmou. Não vira a hora que a mulher entrara no restaurante. – Armaram pra mim!

– Quem armou o quê, seu irresponsável! – Maria dava tapas nos braços de Leonardo por cima da mesa bagunçando os curtos cabelos negros. – Não invente desculpas! Você mentiu pra mim! – havia dor e raiva na voz da mulher. Isso fazia o peito de Leonardo sentir pontadas.

– Amor, eu não-

– NÃO ME CHAMA ASSIM, CARALHO! VOCÊ ME EXPÔS – Maria gritou. Leonardo sabia o sentimento de ter a intimidade invadida. Sabia como era e que não veria mais a mulher do mesmo jeito. Não conseguiu pensar em nada o que dizer. Sabia que nada daquilo era justo, mas sentia-se merecedor.

– Olha, Leonardo – a voz de Maria saiu embargada e entrecortada de micro soluços – não me procura mais – ao terminar a frase ela levantou e saiu, deixando um homem em letargia sentado à mesa, encarando sem crer uma cadeira vazia.

Após alguns segundos de catatonia, Leonardo se levanta e sai pela porta por onde Maria saiu, mas simplesmente não a vê. Corre até o trabalho dela e descobre que ela não voltou para lá. Desesperou-se ao lembrar que não viera de carro. Uma sombra dilacerava o peito dele por dentro e o coração tentava fugir dessa sensação forçando uma saída. Suas mãos tremiam e suavam como nunca. Pegou o celular para ligar para a sua então namorada, mas o aparelho descarregou. Uma onda de raiva percorreu seu corpo, como fosse eletricidade. Leonardo apanhou um paralelepípedo no chão e atirou contra o vidro de um carro no estacionamento. O alarme disparou, mas isso não o fez declinar. Retirou a película fumê que sustentava parte dos cacos temperados da janela lateral e abriu a porta.

Em desespero, o homem arrancou a parte inferior do console – abaixo do volante – com toda a força que jamais pensara ter, machucando os dedos, mas viu alguns fios. Achou os dois que terminavam junto da ignição e os conectou, dando a partida no veículo. Puxou um fio aleatório e nada aconteceu. Repetiu o processo no segundo e o alarme parou bem na hora que vinha um segurança armado.

Leonardo acelerou com o carro preto recém adquirido e saiu cantando pneus. Um disparo próximo foi ouvido por ele junto ao estilhaçar do vidro temperado do outro lado, deixando um buraco. Após dobrar duas ruas e ganhar a principal, duas viaturas policiais ligaram as sirenes e entraram em perseguição a ele. “Como isso tudo ficou desse jeito?!”, era um pensamento que percorria a periferia da mente dele. Agora ele só conseguia pensar que era um injustiçado, que fora abandonado e que carecia do afeto de Maria para deixar aquilo tudo mais leve. Precisava também do apoio dela para ser forte e mostrar no trabalho que aprontaram com ele, mas isso viria depois, quando consertasse a parte mais importante primeiro. Até a polícia poderia esperar.

De repente percebeu que tudo poderia fracassar. Que todas as merdas que poderiam acontecer com ele resolveram cair em um único dia. Arruinara o emprego e a relação, além de cometer um crime e fugir da polícia. Leonardo não poderia consertar nada se não estivesse inteiro por dentro. E não poderia fixar seus cacos internos se-

Uma curva fechada. Um puxão no volante. O carro capota e gira no ar.

Cada segundo é uma pequena eternidade ainda suspensa.

Leonardo se vê preso nesse infinito. Tenta se mexer em vão. O desespero cresce à medida que ele sente que vai tocar o chão e morrer. Em sua mente tudo é desespero, iminência de dor e Maria.

Abriu os olhos com um descortinar violento. Acordou de um baque em si mesmo. A claridade do dia retribuiu alguns instantes depois doendo-lhe a vista. Só então Leonardo sentiu-se livre das amarras do sonho e conseguiu se mexer.