fortuna

O trânsito é sempre caótico essa hora do dia. E qualquer outra hora também. A cidade não consegue crescer tanto quanto a quantidade de carros dos habitantes. O fato é que eu sempre me pergunto por que fui cair na armadilha de sair de casa depois das 18 horas.

O carro mal anda. Esqueci a porcaria do pendrive com vários discos legais e agora tinha que ouvir o que as FM’s tinham a me oferecer além de propaganda. Minhas escolhas já reduzidas tornaram-se ainda mais escassas por conta de algumas das rádios estarem com ruídos demais para se escutar qualquer coisa. Sintonizei na mais estável das opções e continuei preso na interminável fila de carros.

O dia teve início um pouco antes das dez. Após uma noite mal dormida, levantar para comer e fazer um trabalhos domésticos. Louça acumulada, contas a pagar, milhares de telefonemas e negativas, tirar cópias de documentos, autenticar no cartório (por que os malditos cartórios existem?). Fora arrumar tempo para estudar algo que não é do seu agrado.

Isso entre flashes de um final de noite em que um um pequeno desentendimento amoroso lhe rendeu dores na consciência, esfriou a conversa e afligiu o coração – vira e mexe fustigado por microinseguranças. É o tipo de coisa que causa distância e incompletude; não existem culpados e, até que se perceba, estão ambos carregando o peso de uma culpa que não pertence àquela situação. E os longos silêncios marcam a falta de tato para resolver esse paradoxo: é certo que está resolvido, mas a conclusão veio com certo desgaste.

A Voz do Brasil começou. Com apenas alguns minutos de iniciado o programa, outra rádio começou a interferir misturando as vozes, que eram diferentes devido a um delay de alguma das emissoras. Ao trocar de sintonia eram mais chiados. Desliguei.

Prestar atenção na tentativa de fluxo de carros com aquela miríade de luzes vermelhas em minha frente fazia voltar um pouco no tempo, refletindo na aspereza do trato, na troca de farpas – primeiro veladamente e, em seguida, de forma deliberada – e em como coisas tão mínimas (como começou tudo?) acabavam por afetar tanto. Será que era o caminho certo?

Dei seta para a direita já perto do final da avenida principal e o tráfego melhorou um pouco. Olhei o celular e vi algumas notificações. Grupos. Os mais desinteressantes. Nenhuma notificação dela. A última foi uma conversa monossilábica, fruto da noite anterior, foi umas cinco horas atrás, confirmando o local e a hora onde nos encontraríamos. Se não tivéssemos marcado já antes, não sei se combinaríamos algo assim hoje.

Nesse trecho, as ruas antes de chegar no café que marcamos estão muito esburacadas e algumas interditadas por conta de obras. O caminho é um tanto difícil. Optei por um desvio e nem precisei rodar muito. ainda consegui ser pontual.

Ela já estava lá. Cabelos longos cobrindo seu colo e ombros, uma blusa folgada estrategicamente caída do lado esquerdo, jeans e sapatilha. Distraída no celular, a cumprimentei já de perto, dei um beijo selando-lhe os lábios e sentei-me em uma cadeira mais próxima à ela, para que não precisasse levantar. Ela pediu um momento para terminar com os assuntos do telefone. Olhei o meu para ver o que eram as notificações e limpá-las, mais para não me manter apenas esperando.

O oi veio com um leve esforço em direção à simpatia. Minha resposta foi igual, adicionando o “tudo bem” legítimo e atenuando as emoções lacerantes. Um “tudo” repleto de nada foi a resposta. “Desculpa por ontem”, eu disse de modo sincero e ela entendeu respondendo com um “tudo bem, não foi nada” genuíno, emendando um “me desculpa também”, que eu acolhi com um “se houve culpa nisso, não creio que foi sua”. Depois de um leve silêncio sustentado pelo olho no olho, à procura feita no cardápio findou o elo visual daquele instante. Voltei a pousar o olhar sobre ela; está bastante bonita. Linda como sempre. Não é como se fosse possível ser diferente nem que eu não tivesse reparado antes, mas toda aquela tensão não permitiu que eu fruísse a beleza.

Os olhos grandes e um pouco felinos emoldurados pelas sobrancelhas bem arqueadas, cheios de um castanho forte. A boca pequena com um desenho perfeito em todos os seus movimentos, cujo o simples falar é arte. O desenho ideal do rosto…

Durante meu devaneio ela levantou os olhos e me encarou. Não sei bem qual foi minha expressão, mas ela sorriu pra mim. Mais com os olhos do que com os lábios. A leveza invadiu o ambiente e eu já flutuava em meu próprio corpo. O riso franco e largo se desprendeu facilmente e foi retribuído. Nem sei mais o motivo do nosso estranhamento e tenho minhas dúvidas se ele realmente existiu.

Eu realmente sou um cara de sorte.

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