fortuna

O trânsito é sempre caótico essa hora do dia. E qualquer outra hora também. A cidade não consegue crescer tanto quanto a quantidade de carros dos habitantes. O fato é que eu sempre me pergunto por que fui cair na armadilha de sair de casa depois das 18 horas.

O carro mal anda. Esqueci a porcaria do pendrive com vários discos legais e agora tinha que ouvir o que as FM’s tinham a me oferecer além de propaganda. Minhas escolhas já reduzidas tornaram-se ainda mais escassas por conta de algumas das rádios estarem com ruídos demais para se escutar qualquer coisa. Sintonizei na mais estável das opções e continuei preso na interminável fila de carros.

O dia teve início um pouco antes das dez. Após uma noite mal dormida, levantar para comer e fazer um trabalhos domésticos. Louça acumulada, contas a pagar, milhares de telefonemas e negativas, tirar cópias de documentos, autenticar no cartório (por que os malditos cartórios existem?). Fora arrumar tempo para estudar algo que não é do seu agrado.

Isso entre flashes de um final de noite em que um um pequeno desentendimento amoroso lhe rendeu dores na consciência, esfriou a conversa e afligiu o coração – vira e mexe fustigado por microinseguranças. É o tipo de coisa que causa distância e incompletude; não existem culpados e, até que se perceba, estão ambos carregando o peso de uma culpa que não pertence àquela situação. E os longos silêncios marcam a falta de tato para resolver esse paradoxo: é certo que está resolvido, mas a conclusão veio com certo desgaste.

A Voz do Brasil começou. Com apenas alguns minutos de iniciado o programa, outra rádio começou a interferir misturando as vozes, que eram diferentes devido a um delay de alguma das emissoras. Ao trocar de sintonia eram mais chiados. Desliguei.

Prestar atenção na tentativa de fluxo de carros com aquela miríade de luzes vermelhas em minha frente fazia voltar um pouco no tempo, refletindo na aspereza do trato, na troca de farpas – primeiro veladamente e, em seguida, de forma deliberada – e em como coisas tão mínimas (como começou tudo?) acabavam por afetar tanto. Será que era o caminho certo?

Dei seta para a direita já perto do final da avenida principal e o tráfego melhorou um pouco. Olhei o celular e vi algumas notificações. Grupos. Os mais desinteressantes. Nenhuma notificação dela. A última foi uma conversa monossilábica, fruto da noite anterior, foi umas cinco horas atrás, confirmando o local e a hora onde nos encontraríamos. Se não tivéssemos marcado já antes, não sei se combinaríamos algo assim hoje.

Nesse trecho, as ruas antes de chegar no café que marcamos estão muito esburacadas e algumas interditadas por conta de obras. O caminho é um tanto difícil. Optei por um desvio e nem precisei rodar muito. ainda consegui ser pontual.

Ela já estava lá. Cabelos longos cobrindo seu colo e ombros, uma blusa folgada estrategicamente caída do lado esquerdo, jeans e sapatilha. Distraída no celular, a cumprimentei já de perto, dei um beijo selando-lhe os lábios e sentei-me em uma cadeira mais próxima à ela, para que não precisasse levantar. Ela pediu um momento para terminar com os assuntos do telefone. Olhei o meu para ver o que eram as notificações e limpá-las, mais para não me manter apenas esperando.

O oi veio com um leve esforço em direção à simpatia. Minha resposta foi igual, adicionando o “tudo bem” legítimo e atenuando as emoções lacerantes. Um “tudo” repleto de nada foi a resposta. “Desculpa por ontem”, eu disse de modo sincero e ela entendeu respondendo com um “tudo bem, não foi nada” genuíno, emendando um “me desculpa também”, que eu acolhi com um “se houve culpa nisso, não creio que foi sua”. Depois de um leve silêncio sustentado pelo olho no olho, à procura feita no cardápio findou o elo visual daquele instante. Voltei a pousar o olhar sobre ela; está bastante bonita. Linda como sempre. Não é como se fosse possível ser diferente nem que eu não tivesse reparado antes, mas toda aquela tensão não permitiu que eu fruísse a beleza.

Os olhos grandes e um pouco felinos emoldurados pelas sobrancelhas bem arqueadas, cheios de um castanho forte. A boca pequena com um desenho perfeito em todos os seus movimentos, cujo o simples falar é arte. O desenho ideal do rosto…

Durante meu devaneio ela levantou os olhos e me encarou. Não sei bem qual foi minha expressão, mas ela sorriu pra mim. Mais com os olhos do que com os lábios. A leveza invadiu o ambiente e eu já flutuava em meu próprio corpo. O riso franco e largo se desprendeu facilmente e foi retribuído. Nem sei mais o motivo do nosso estranhamento e tenho minhas dúvidas se ele realmente existiu.

Eu realmente sou um cara de sorte.

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um novo dia

Abriu os olhos com um descortinar violento. Acordou de um baque em si mesmo. A claridade do dia retribuiu alguns instantes depois doendo-lhe a vista. Só então Leonardo sentiu-se livre das amarras do sonho e conseguiu se mexer. Virou-se de lado e procurou o telefone no criado-mudo. Conferiu a hora; acordou um pouco mais cedo do que deveria. Nenhuma notificação relevante pela noite, mas também não sabia se procurava algo específico. Largou o celular e girou novamente na cama, desta vez ficando de bruços. Fechou os olhos e procurou na mente vestígios do sonho que o atormentara, mas foi em vão.

Então, aproveitou como pôde seu colchão por mais um tempo antes de levantar. Tomou um banho rápido pra despertar e livrar o corpo daquela sensação de quem fora perseguido por um estagiário de Morfeu durante a noite. Não seria hoje que tiraria essa barba que já passava um pouco do ponto de “por fazer”, considerou, mas ainda estava aceitável ao seu ver. Achava a própria barba legal até duas semanas sem fazer. Depois era manter aparada ou rapar toda. “Ainda é cedo para ligar para Maria”, pensou Leonardo. Seguiu para o trabalho.

Foi caminhando hoje. Nunca ia por ser muito longe, mas era um dia claro que não tinha o calor de sempre. As ruas não tinham o barulho usual. Estava um clima propício.

Chegou sem nem perceber. Estava tomando café na mesinha de canto do departamento.

– Esse café tá sempre bom – comentou José, que entrou na empresa no mesmo dia que ele.

– É. Dona Elen faz melhor que qualquer máquina – respondeu Leonardo enquanto olhava o telefone. Devia ligar para ela agora. Seu pensamento foi interrompido pela secretária do chefe, uma japonesinha que todos na empresa queriam traçar, mas ninguém ousava sequer dizer dirigir qualquer palavra não relacionada ao trabalho. Ela avisara que o Homem estava esperando por ele.

O chefe de Leonardo era um homem grande. Sentado de frente para ele, parecia maior do que se lembrava. Ambos pareciam ter a mesma idade, mas o chefe sempre tinha a barba bem feita, um terno alinhado e um relógio mais caro que meu carro, pensou.

– Olha, Leonardo. Você é um funcionário exemplar, mas está demitido – seco e rápido.

– Como assim? – questionou.

– Você deixou sua conta do facebook logada no computador e a senhorita Sato viu suas conversas – o homem suara como o dia não o fizera hoje. – Ela encontrou declarações suas de cunho sexual sobre ela mesma para outros funcionários da empresa e fotos aparentemente suas que você compartilha com sua namorada, e as que ela envia a você também.

– Pe-pera – a voz custava a sair, forçando um nó na mente e outro na garganta. – Eu nunca enviei fotos íntimas para ela, nem ela fez isso pra mim – rebateu.

O chefe virou o notebook para Leonardo e ele viu sua nudez. Passou foto em foto e reconheceu seu corpo e o de sua namorada. Nunca vira aquelas fotos antes, mas não eram montagens. Eles estavam lá como eram.

– Seu silêncio não parece dizer isso. Sinto muito, Leonardo, mas essa não é uma postura aceita para um funcionário de uma empresa como a nossa – o chefe era inflexível. – Passe lá no RH. Mandaremos boas recomendações suas – sentenciou com um sorriso amarelo.

O resto da conversa foi um borrão. Aliás, fora os olhares que despiam e acusavam Leonardo – incluindo José, que o tratara normalmente até então, e Sato, que o ignorara como sempre mais cedo – e o burburinho geral, mal lembrava do que ocorrera a mais no prédio.

Sentia-se angustiado. Estava num restaurante perto de onde Maria trabalha. Não lembrava de como havia parado lá; repensava sua saída da empresa e as recordações estavam confusas. Vinham a sua mente coisas que deixara passar antes: pessoas olhando para ele como quem viu sua nudez, com olhos que viram o corpo de sua namorada. A demissão foi muito fria e sem tato. Ele nem lembra se entrou em acordo sobre seus direitos.

– Eles me viram nua, Leo?! – a voz de Maria era um sussurro quase gritado. – Você não apagou aquelas fotos?! – o olhar dela o perfurava a ponto dele querer evitar, mas tinha que sustentar aquilo. Era culpa dele.

– Eu nunca vi aquelas fotos! – afirmou. Não vira a hora que a mulher entrara no restaurante. – Armaram pra mim!

– Quem armou o quê, seu irresponsável! – Maria dava tapas nos braços de Leonardo por cima da mesa bagunçando os curtos cabelos negros. – Não invente desculpas! Você mentiu pra mim! – havia dor e raiva na voz da mulher. Isso fazia o peito de Leonardo sentir pontadas.

– Amor, eu não-

– NÃO ME CHAMA ASSIM, CARALHO! VOCÊ ME EXPÔS – Maria gritou. Leonardo sabia o sentimento de ter a intimidade invadida. Sabia como era e que não veria mais a mulher do mesmo jeito. Não conseguiu pensar em nada o que dizer. Sabia que nada daquilo era justo, mas sentia-se merecedor.

– Olha, Leonardo – a voz de Maria saiu embargada e entrecortada de micro soluços – não me procura mais – ao terminar a frase ela levantou e saiu, deixando um homem em letargia sentado à mesa, encarando sem crer uma cadeira vazia.

Após alguns segundos de catatonia, Leonardo se levanta e sai pela porta por onde Maria saiu, mas simplesmente não a vê. Corre até o trabalho dela e descobre que ela não voltou para lá. Desesperou-se ao lembrar que não viera de carro. Uma sombra dilacerava o peito dele por dentro e o coração tentava fugir dessa sensação forçando uma saída. Suas mãos tremiam e suavam como nunca. Pegou o celular para ligar para a sua então namorada, mas o aparelho descarregou. Uma onda de raiva percorreu seu corpo, como fosse eletricidade. Leonardo apanhou um paralelepípedo no chão e atirou contra o vidro de um carro no estacionamento. O alarme disparou, mas isso não o fez declinar. Retirou a película fumê que sustentava parte dos cacos temperados da janela lateral e abriu a porta.

Em desespero, o homem arrancou a parte inferior do console – abaixo do volante – com toda a força que jamais pensara ter, machucando os dedos, mas viu alguns fios. Achou os dois que terminavam junto da ignição e os conectou, dando a partida no veículo. Puxou um fio aleatório e nada aconteceu. Repetiu o processo no segundo e o alarme parou bem na hora que vinha um segurança armado.

Leonardo acelerou com o carro preto recém adquirido e saiu cantando pneus. Um disparo próximo foi ouvido por ele junto ao estilhaçar do vidro temperado do outro lado, deixando um buraco. Após dobrar duas ruas e ganhar a principal, duas viaturas policiais ligaram as sirenes e entraram em perseguição a ele. “Como isso tudo ficou desse jeito?!”, era um pensamento que percorria a periferia da mente dele. Agora ele só conseguia pensar que era um injustiçado, que fora abandonado e que carecia do afeto de Maria para deixar aquilo tudo mais leve. Precisava também do apoio dela para ser forte e mostrar no trabalho que aprontaram com ele, mas isso viria depois, quando consertasse a parte mais importante primeiro. Até a polícia poderia esperar.

De repente percebeu que tudo poderia fracassar. Que todas as merdas que poderiam acontecer com ele resolveram cair em um único dia. Arruinara o emprego e a relação, além de cometer um crime e fugir da polícia. Leonardo não poderia consertar nada se não estivesse inteiro por dentro. E não poderia fixar seus cacos internos se-

Uma curva fechada. Um puxão no volante. O carro capota e gira no ar.

Cada segundo é uma pequena eternidade ainda suspensa.

Leonardo se vê preso nesse infinito. Tenta se mexer em vão. O desespero cresce à medida que ele sente que vai tocar o chão e morrer. Em sua mente tudo é desespero, iminência de dor e Maria.

Abriu os olhos com um descortinar violento. Acordou de um baque em si mesmo. A claridade do dia retribuiu alguns instantes depois doendo-lhe a vista. Só então Leonardo sentiu-se livre das amarras do sonho e conseguiu se mexer.

a ruiva

– Tá com medo? – perguntou desdenhosa a mulher. Ruiva. Curtas madeixas cultivadas a altura do pescoço. Vestia branco. Aquela provocação tinha um tom espontâneo, mesmo sendo algo calculado e até mesmo repetido para vários outros. Provocação a qual lhe respondi com o desafivelar do meu cinto.

– De modo algum – mirava-lhe com olhar agudo. Não queria perdê-la de vista nem por um instante.

– É que você pareceu nervoso… – não sei o que ela queria com essas provocações bobas.

– Só não acho certas coisas necessárias – interrompi sua fala suspirosa enquanto abaixava lentamente minha calça.

– Então você está pronto. – Um sorriso malicioso se formou no rosto da mulher. Nessa hora, confesso, senti um arrepio.

– Nasci pronto.

Eram dez horas da manhã. Após vários dias de uma forte gripe reincidente, sempre aparecem médicos para conselhos. Os médicos das rodas de samba e mesas de bar me sugeriam cachaça com mel. Juravam que fazia bem para a gripe. Problema é encontrar com os médicos da redação na manhã seguinte com cheiro de álcool.

Esses outros doutores, cada um com sua aspirina ou xarope, recomendavam também o repouso para curar a virose. Lá no trabalho, tudo era motivo para repouso e uma licença acompanhada de atestado. Nada contra, na verdade.

Os piores médicos mesmo eram os mais próximos. Para eles, não é doença, é moleza. Se você comer um bom prato de feijão ou inhame estará curado. Até que a gripe não passa e aí os familiares sempre têm uma receita que envolve a infusão de qualquer mato do jardim. Nada disso funciona. Todos começam a achar que é pneumonia. Aquela sua avó condena: “tuberculose”. Você é silenciosamente evitado dentro de casa. Um movimento espontâneo meio exagerado, mas é o que te faz ir ao médico.

E lá estava eu. Após ser derrotado no primeiro hospital, onde – após toda uma espera de Ana Maria Braga – simplesmente me informam que deixaram de atender pelo meu plano de saúde. No segundo hospital, as coisas pareciam ser melhores. Estavam reformando ele.  Visando crescimento.  Quando estava preenchendo uma papelada que me pediram a mulher do meu lado começou a gemer de dor, se apoiando com certa dificuldade no balcão. Prontamente alguém do hospital trouxe uma cadeira de rodas para que ela desfalecesse, após usar as suas últimas forças para assinar seu nome no local marcado.

Ainda esperei uma dúzia de minutos para ser encaminhado ao médico, onde esperei apenas um senhor sair e meu nome ser chamado do lado de dentro. Nem precisei sentar na nova sala de espera. “Sorte”, pensei. O jogo parecia estar mudando.

Ao entrar na sala, me sentei enquanto cumprimentava o médico. Doutor qualquer coisa, não lembro o nome.

– O que você sente? – Perguntou. Cansaço, catarro, dores de cabeça, na garganta, muito espirro e o mesmo tanto de tosse para acompanhar.

– Tire a camisa e fique de pé. – Ele pediu para eu respirar fundo e segurar o ar. Com um novo comando eu deveria soltar devagar e repetir o ciclo. Quase como puxar um.  Só que ao invés dos meus amigos tinha um médico de meia idade na sala e meu pai esperando do lado de fora. Após várias repetições no procedimento, o doutor escreveu uma receita e pediu para eu procurar uma enfermeira e tirar uma radiografia.

Fui procurar a sala do raio-x e quando cheguei, mesmo sem entrar a enfermeira me encaminhou para uma outra sala. Lá havia algumas outras pessoas para serem atendidas. Após me acomodar em uma cadeira, notei que todas eram mulheres. Meu pai não veio. Disse que tinha um algo a fazer.

– Você. Me deixa  ver isso. – A enfermeira tomou de minhas mãos a receita. – Nebulização… radiografia… corticóide.

Tomei a nebulização e fui encaminhado para a chapa fria de metal da radiografia; um desconforto necessário. Logo depois voltei para a sala das mulheres. Foi então que entrou uma enfermeira com uma seringa numa bandeja.  Ela me olhou nos olhos e disse meu nome enquanto preparava a injeção. Eu sustentei o olhar e subi a manga da camisa.

– Não é no braço – sorriu olhando a porta do banheiro. – E você não vai querer fazer isso na frente delas – completou colocando uma mecha de cabelo vermelho por trás da orelha.

palavras de sabedoria

Hoje completa uma semana que a luz do sol não encontra Paulo. Ele estava esses dias em casa, jogando games, vendo filmes e seriados, lendo sobre besteiras. A sua alimentação não era das melhores: salgadinhos, biscoitos, sanduíches, pizzas, comida de micro-ondas e refrigerante. Umas barrinhas de cereais o deixavam tranquilos sobre um equivalente “saudável” ao café da manhã. Seu cachorro, Plínio, comia os restos das porcarias, mas preferia sua própria ração.

Paulo revezava entre o tapete da sala, o sofá e a poltrona. Todos os móveis lhe serviam de mesa. Sua vestimenta se resumia a cuecas e shorts velhos e esburacados, com o elástico lutando em seus últimos momentos de vida. Cravos e espinhas começavam a se anunciar pelo rosto oleoso. A barba mal formada crescia. O cabelo de aspecto sujo dava sinais de caspa.

Havia poeira em cima dos móveis. Os sacos de lixo precisavam ser trocados pois já estavam cheios. A correspondência ainda estava junto ao capacho, no chão, perto da fresta da porta. O telefone estava desligado há dias e o interfone fora do gancho. O banheiro da área de serviço da casa estava com o boxe cheio de merda de cachorro, que também já não saía. As luzes, a televisão e o micro-ondas faziam com que os vizinhos soubessem que ele estava vivo, o que era o suficiente para todos.

Então, ao se levantar para arrumar algo para comer, Paulo foi a cozinha e viu seu cachorro, Plínio, o encarando. Ele afagou indiferente a cabeça do cão e foi a dispensa procurar algo para comer. Pegou um pacote de biscoitos e o saco de ração. O companheiro ainda o encarava enquanto ele servia sua tigela. Colocou água na segunda e deixou ambas próximas; sempre na mira do olho do cão. Isso o incomodou um pouco e Paulo olhou o cachorro sem entender o que e ainda podia querer. Até que Plínio lhe disse:

“Melhor dar um jeito na sua vida.”

Paulo olhou atônito para o cachorro, que foi, indiferente, em direção à tigela de ração. Ele não teve coragem de pedir ao animal para repetir o que havia dito, nem para falar qualquer outra coisa. Não sabia se aquilo tinha sido real.

Então, guardou o pacote de biscoito no armário, e foi procurar uma toalha limpa para tomar banho.

perspectiva

Acordei de um sono profundo e sem sonhos ouvindo gritos distantes. À medida que fui despertando notei que eles estavam ocorrendo naquele instante e bem próximos a mim. A senhora da poltrona do corredor estava desacordada. O cara ao lado dela usava uma máscara de ar e tentava colocar outra nela. Pus a minha sobre o rosto enquanto olho o que parecia uma tempestade densa e trovejante pela janela.

Em meio aos gritos e comissárias de bordo pedindo para que as pessoas fiquem sentadas, a voz do piloto surgiu sintonizada em meio à confusão:

“Pedimos a todos os passageiros que se acalmem, pois a tempestade é forte, mas não é preocupante a ponto de alterar o curso do plano de voo.”

Quando os passageiros começaram a se acalmar, uma turbulência brusca sacudiu a todos novamente. As aeromoças caindo no chão, algumas bagagens de mão também foram parar no corredor ou até em cima de alguns passageiros. Sacolejar extremamente violento. Os trovões, ensurdecedores. Clarões iluminavam a escuridão maciça nas janelas.

Até que as luzes apagaram.

Gritos, choro, trovões. Cintos desafivelando. A comissária de bordo com o microfone a pedir que os passageiros próximos às saídas de emergência prestem atenção nas instruções de manuseio. Ninguém ouviu mais que isso. Uns simplesmente começaram a abrir e a pular. A pressão é vertiginosa. O cara ao meu lado pegou o assento flutuante e passou por cima da senhora ainda inerte. Tive a impressão que, entre os clarões de relâmpagos ela olhara pra mim e dissera com um riso macabro “vamos todos morrer”.

Eu nem me lembro para onde estava indo. Eu só quero viver. Eu queria levantar, mas estou me sentindo grogue demais. Será que eu morreria paralisado de medo? Consegui rir de mim mesmo internamente; grande façanha de merda. O pior de tudo era ouvir na minha mente algo que destoava tanto do meu corpo. Uma voz distante que me diz que não importa o que aconteça agora, tudo vai ficar bem.

Soltei o cinto e tentei chegar ao corredor me apoiando nos braços das cadeiras, mas parei na senhora. Desafivelei-a da poltrona e a empurrei para o corredor. Preciso do lugar dela para pensar melhor nos meus movimentos. Do mesmo modo que nunca me imaginei sem conseguir agir direito em uma situação extrema, não reconheço minhas atitudes.

As luzes dos corredores voltavam a funcionar e eu pude ver uns poucos idosos e crianças sendo sacudidos e as outras pessoas também passando por cima deles. Os mais novos choram, os mais velhos berram em histeria e os grisalhos mais incapazes apenas sofrem.

Até que um raio acertou o avião.

Foi tão violento que pareceu que o trovão levou a minha alma pela boca e a devolveu num golpe que desfibrilou minhas entranhas, jogando-me em pleno corredor. Mais do que nunca eu estou imóvel. A não ser pelo tremor descontrolado que eu não sabia mais se era meu ou da nave. A inclinação foi se acentuando verticalmente. Meu corpo ia se arrastando pelo corredor junto a malas, pessoas desmaiadas, copos descartáveis.

Só consigo suar e chorar. No fundo, quero morrer apenas para que acabe logo. Vi algumas pessoas que conseguem se equilibrar no avião em plena queda vertical pulando pela saída de emergência. Em poucos segundos penso na minha família, em como eu queria poder abraça-los. Lembrei-me de poucos amigos que eu queria poder estar junto agora. Veio à mente a minha ex e em como eu ainda gosto dela e besteiras nos separaram.

Ninguém está realmente pronto pra morrer. Eu não estou.

Mas, agora, entrego os pontos.

E foi nesse momento de desistir que a queda foi desacelerando. Como uma contra força agindo de forma suave enquanto a aeronave se horizontalizava novamente. As pessoas que ficaram dentro do avião rezavam, comemoravam, desconfiavam. Quando o avião estabilizou, as luzes acenderam de vez. As comissárias de bordo ajudaram os passageiros a se recompor e uma chegou até mim calmamente e me ajudou a levantar e sentar em um dos acentos vagos que não foram retirados.

– Acho que a sua dose de sedativo foi um pouco mais forte. Acontece isso com as ampolas que ficam em cima do lote – explicou mais para ela mesma do que para mim.

Eu não consigo ver o rosto dela de fato. Sei que há algo de artificial nessa mulher e que o perfume dela diminui a vontade que eu tenho de vomitar, o ritmo dos meus batimentos cardíacos e a sensação de medo.

– O senhor pode aguardar aqui que logo o ajudaremos a sair – terminou a aeromoça.

Funcionários varriam e arrumavam agilmente o interior do veículo. O que seria essa merda toda? Procuro ainda trêmulo nos bolsos o tíquete com o meu destino. Talvez isso me ajude a lembrar de algo. Encontrei um papel com o número da cadeira e uma embalagem de papel metálico dessas de remédio. XyP. Apenas uma unidade e já fora consumida. Eu nem sei que porra de comprimido é esse.

– Com licença, senhor – disse um comissário de bordo. – Precisa de ajuda para se retirar?

Respondi em afirmativo com a cabeça, ainda sem conseguir falar. Não importa muito desde que eu saia desse pesadelo.

– Não por essa porta, senhor. Ela é de entrada.

A informação fez com que eu parasse um pouco e olhasse ao redor. Como esse avião estaria apto a funcionar? Nos setores do meio para o final algumas pessoas se acomodam. Comissárias de bordo davam uma cartela de XyP como a que eu tenho, um copo com água e aplicam uma injeção nos passageiros. Ao fazer isso, ela passou para a fileira de trás. Ao chegar perto da saída, alguns já dormiam em seus acentos. Nas caixas de som, uma música com flauta doce e uma voz suave. “Não importa o que aconteça agora, tudo vai ficar bem”, era o que repetia a melodiosa vocalista.

Na porta do avião já havia uma escada e abaixo de toda a estrutura do aeroplano uma espécie de cama elástica. Fui descendo devagar, segurando no corrimão, já sem a ajuda do rapaz que trabalha para a companhia. Acho chegar ao solo, minhas pernas ainda tremem muito e têm dificuldade em me sustentar com equilíbrio. Ao olhar para trás, me deparo uma estrutura de vários e gigantescos braços metálicos fixados abaixo da nave em posição de repouso, que está intacta. Seria impossível ele decolar com isso. E com tanto pouco espaço. Ao redor, tomada uma distância de uns dois quilômetros, eram visíveis espécies de imensos galpões.

Olhei para a escada dos setores de trás. Uma fila para subir. Um comissário de bordo verificava o bilhete e destacava uma parte. Peguei o meu para olhar.

Havia escrito “voo da morte”, “29A” e um carimbo de inteira.

a professora

Minha farda ainda tinha shorts; meu material escolar, lápis de cor; minha mochila, uma lancheira. E claro, meu coração, uma professora. Ela não era gorda como a coordenadora, nem mal humorada como a minha mãe.

Ela era muito linda. É difícil saber se as coisas são realmente lindas quando você é criança porque não se viu ainda muitas coisas realmente lindas para comparar, ou então por se ter um critério diferente de quando se cresce, afinal, nessa idade a gente percebe o mundo diferente. Daquela época eu lembro que achava bonita a bola de couro do meu colega lá da rua, algumas ximbras que eu colecionava, o mar, algumas conchas que eu até guardava (mesmo sem conseguir ouvir o mar como diziam que eu poderia fazer ao encostá-las ao ouvido), o jardim da tia Glória – com aquele monte de flores coloridas – e a professora.

O cabelo dela era bem grande, quase na cintura e fazia ondas que nem o mar. Ela sempre o colocava atrás da orelha quando caía na frente do rosto e de vez em quando pegava ele todo, enrolava e colocava de lado ou atrás do ombro. A cor parecia chocolate ou o tronco de uma árvore bem marrom. Ela tinha um rosto bonito também com bochechas salientes e um sorriso bastante grande e verdadeiro como aqueles que se dá ao ganhar presentes no natal.

Eu era um bom aluno porque gostava de responder as perguntas, para ela me olhar sorrindo e falar “muito bem, querido”.  Minha mãe e minha tia me chamavam de querido em situações boas, mas era melhor quando a professora falava. O sorriso dela era o melhor de todos e a turma inteira gostava dela. Depois, quando a gente fazia as atividades, ela passeava por entre as carteiras da sala. Ela tinha um perfume muito cheiroso. Parecia o jardim da tia Glória. Quando chegava ao meu lado, passava a mão na minha cabeça. Eu gostava e olhava pra ela sempre. Ela sorria novamente e os olhos dela eram brilhantes.

Eu pensei que poderia dar de presente a ela alguma coisa. Então resolvi pegar duas ximbras que parecessem os olhos dela. Procurei no meio da minha coleção, mas só encontrei uma. O Julinho tinha uma igual. Entreguei três minhas que ele queria por aquela e não me arrependi da troca. Demoraria uma eternidade até ver outra assim. Em casa, à noite, eu segurei as duas e fiquei pensando na hora de entregar a professora. Desisti. Devia ter alguma outra coisa legal que servisse. Eu queria as ximbras mais que ela, que nem deve jogar.

Decidi levar as conchas. Guardei as mais bonitas numa caixa de sapatos nova e levei para o colégio no outro dia. Quando a aula terminou, todo mundo saiu correndo da sala e eu chamei a professora. “O que foi, querido”, disse que tinha um presente e fui entregar na mesa dela. Dei-lhe a caixa e fiquei olhando os meus tênis. “Pra mim? Que lindas!”, olhei o sorriso e devolvi outro, “você que pegou na praia?”, afirmei corajosamente, “muito obrigada, querido”, e me abraçou forte ainda sentada e me deu um beijo no rosto. Pude sentir o seu hálito, sua maciez e o cheiro do seu cabelo.

Era bem melhor que o jardim da tia Glória.

 *                           *                             *

Quando eu tinha uns catorze anos, minha professora de inglês era minha musa. Os caras do colégio olhavam as garotas da sala e comentavam sobre elas. Eu pensava só nos dois dias da semana em que iria pra aula de noite lá perto de casa. Eu nem gostava de inglês de verdade, mas não perdia uma aula dela.

Ela era nova. Parecia com qualquer aluna das turmas mais avançadas, inclusive. Era bastante raro uma professora de inglês que não tivesse por Abba nem Madonna seus eleitos supremos. Bastante bonita, pronunciava o th de um jeito que sempre me fazia sorrir. Mas não era isso que eu mais gostava nela.

O mais legal era que, por ter seios pequenos e firmes, ela não costumava usar sutiã, o que, geralmente, ficava aparente. A teacher só ia assim com camisas escuras, pude notar. Quando a veste era um pouco mais justa às suas formas a deixava mais bonita. Mas o legal mesmo era quando ela ia com uma camisa de tecido mais fino. O condicionador de ar sempre me presenteava (as outras quatro pessoas da minha turma eram mulheres e talvez não aproveitassem tanto quanto eu, que achava aquilo o máximo e desconsiderava qualquer outra turma para qual ela também lecionasse). Também tinha essas camisas de malha fina tinham seu ápice com um decote grande na frente. Ela tinha duas assim. Uma verde escura e outra preta. Ambas com aquela gola meio grande e caída. Quando ela ia com uma dessas, eu sempre entrava um pouco atrasado na sala, porque ela estaria debruçada sobre a caderneta e eu poderia ver os seios dela um pouco. Também eram os dias que eu tinha mais tinha dúvidas.

E os dias que, depois da aula, ao chegar em casa e ir para o quarto, seria a imagem dela na minha mente a conduzir minha mão. Quase sempre do mesmo jeito. Ela me via espiando seu decote e ao fim da aula me mandava esperar, pois eu seria punido. A teacher perguntava se eu gostava de ficar olhando os seios das moças por aí e eu dizia que só os dela. Então dizia que tinha algo pra me ensinar enquanto tirava a roupa. Eu tirava a minha também e a gente transava ali na sala com ela apoiada na carteira ou no chão. A minha mão corria urgente entre os say my name, oh yes, don’t stop, Jesus, God e ninguém fora da sala ouvia ou interrompia. Maravilhas do mundo das ideias.

As garotas da turma começaram a reparar em mim, mas eu não me importava. Até o dia que a professora foi com a camisa verde e elas começaram a tirar piadas sobre isso. Eu, claro, queria sumir, mas a professora olhou pra mim e disse sorrindo que eu nunca tinha faltado o respeito com ela e que na nossa idade era comum ter interesse por pessoas mais velhas. Ela começou a perguntar pra todos na sala experiências assim, tudo em inglês, claro. Ela mesma contou que gostava de um professor e que o achava muito atraente.

Não sabia se ficava aliviado por ela me livrar ou triste por ela gostar de um cara mais velho, com o qual eu não tinha a intenção de competir, mas que feria meu platonismo. O que me intrigou naquele dia foi o sorriso dela. Sempre sorria para todos, mas terminava na minha direção. Como a situação foi revertida, eu não saberia dizer se era cumplicidade, pena, carinho por um garoto que tinha um sentimento mais tátil em troca, se era impressão minha ou se, ainda que remotamente, ela queria tanto como eu.

Ao final da aula, saímos da sala e eu fui logo para o banco em frente ao portão esperar a carona do meu pai. Ela passou por mim e me cumprimentou. Disse que eu não precisava ficar acanhado nem nada, mas que ia se sentir desconfortável se as garotas continuassem com piadinhas. Eu entendi e disse que ia parar com aquilo. Ela respondeu thank you, babe e sorriu doce. Eu sorri de volta um pouco culpado, um tanto aliviado. Ao ouvir um carro parando em frente à escola ela atravessou a rua e entrou. Era um daqueles carros que quando abre a porta acende a luz interna. Antes de apagar eu a vi beijando o cara mais velho que dirigia.

Na aula seguinte ela foi com a camisa preta.

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Eu estava realmente nervoso, afinal, era o dia de apresentar meu trabalho de conclusão. Engraçado como as coisas mais legais do momento não importam tanto quando se está prestes a ter uma crise de nervos, um ataque cardíaco, uma diarreia ou tudo isso ao mesmo tempo. Pelo menos é isso que o corpo faz você pensar (e às vezes até conseguir) ao invés de se deter à informação de estar prestes a me livrar dessa pressão, o foco era a falta de ar e o suor que enchia minhas mãos e marcava a camisa nas axilas. Eu não havia conseguido dormir direito esta noite e tive um pouco de medo de arriscar usar a moto. Paguei uma nota de taxi, para evitar qualquer imprevisto e cheguei bem mais cedo do horário na faculdade; era melhor fazer hora por lá. Minha orientadora disse que, já que eu não queria pessoas assistindo a defesa, conseguiu marcar com a banca na sala de reunião da pós, que ninguém usa neste horário. Perfeito.

Eu a conheci quando me matriculei em uma eletiva. Era realmente linda. Tinha luz própria em qualquer jeans e camiseta. Não conseguia deixar de prestar atenção em nada da aula. Acho que por isso era natural que ela demorasse mais o olhar no meu durante as explicações. Para completar, a matéria era melhor do que eu pensava.

Um dia cheguei junto dela com seu perfume inconfundível no corredor e pedi para falar por dois minutos. “Só dois?”, com aquele sorriso arrebatador que me desmanchou lentamente como o sol faz a uma bola de sorvete napolitano ou de qualquer outro sabor. Sorri de volta e disse que gostava muito das aulas dela, “acho você um ótimo aluno também, não é bom?”, aí eu já estava pensando em como eu queria apenas falar mais para ser interrompido assim. Continuei dizendo que a matéria era a minha favorita, “acho que você seria um ótimo professor”, os olhos dela brilhavam bastante, talvez por conta das lisonjas. Completei a chamando para ser minha orientadora, apesar de não ter uma ideia que fosse de como abordar o tema ainda nem qual seria, pra ser mais sincero. Então ela marcou uma reunião comigo.

Desde então foram alguns encontros. Primeiro após a aula, com algumas indicações de leitura. Depois na sala dos professores um rápido debate sobre o que eu tinha lido. Daí, marcamos algumas vezes num café, pois poderíamos ficar mais a vontade. Era melhor, já que assim ela mostrava um lado não conhecido por mim e ainda mais encantador. Dona de um senso de humor sensacional, sua sagacidade me deixava fascinado. A melhor reunião era a menos produtiva. A menor parte dela era sobre o trabalho, que andava bem.

Ela tinha um riso fácil e bonito, o rosto também. O longo cabelo preso num tipo de coque com aqueles pauzinhos que facilmente seriam trocados por canetas num futuro próximo. Desse jeito eu podia ver-lhe muito bem o pescoço, os ombros e o colo. Ela tinha uma pele bastante bonita, que valorizava mais a região. Que charme de mulher! Geralmente ela usava jeans e camiseta e já era deslumbrante. Eu gosto muito da bunda dela, que não era grande, mas especialmente bonita. Algumas vezes, quando o calor vencia a modéstia, ela aparecia de vestido. O que é um absurdo por ser exceção, já que deveria ser regra por nascimento. Geralmente tinham uma malha fina, modelando bem em seu corpo delgado. Quando as alças eram finas, valorizavam a região das saboneteiras; ela tinha belas saboneteiras. E eles sempre realçavam a proporção perfeita entre sua cintura fina e seus quadris. Uma mulher magra e absolutamente mordível.

Ao chegar à porta da sala, ela estava esperando. Usava sapatos pretos de salto alto (a primeira vez que a vejo usando) o que a deixava deslumbrante e quase da minha altura. Uma saia também preta de cintura alta que descia até os seus joelhos e estava presa num cinto discreto que devia ser conjunto do calçado. A camisa era rosa e de botão, dobrada na manga até acima dos cotovelos, desabotoada nos três últimos botões. O cabelo preso naquele coque, solto na frente. Ela me cumprimentou e disse que eu fiz bem em chegar um pouco antes. Abriu a porta com a chave e eu entrei. Disse que era a sala da próxima porta e pediu para eu ir preparando o computador com a apresentação. A essa altura eu já devia estar transpirando um rio. A sala tinha uma mesa comprida, com várias cadeiras em redor, menos na ponta onde ficava a parede do telão e o computador junto com o projetor. Ao lado da porta um filtro com porta-copos e uma cafeteira. Na parede da direita, janelas, e abaixo delas um grande sofá e ao seu lado um criado-mudo com várias revistas acadêmicas de diversas linhas de pesquisa. Do outro lado havia quadros com figuras ilustres que fizeram parte da história daquele setor na universidade com um móvel que deveria guardar papéis e material de escritório.

A professora entrou logo em seguida e puxou uma cadeira de trás da mesa e sentou-se. Apesar de todo o nervosismo do mundo, não pude deixar de notar aquela cruzada de pernas. Pediu para que eu pegasse um assento e me acomodasse. Obedeci dizendo que em quinze minutos chegariam os outros e eu estava a ponto de ter um treco. Ela descruzou as pernas, levantou e foi até a porta com a chave na mão. Deu duas voltas e a deixou na fechadura. Ao voltar, soltou o longo cabelo balançando-os num movimento – que meu olhos acompanharam involuntariamente – e disse que eu usasse esse tempo para tentar relaxar. Passou por mim e se demorou um pouco. “Fique calmo”, suas mãos massageavam meus ombros e eu quase pude esquecer o trabalho, “quem vai avaliar você hoje sou apenas eu”. Como assim?, ainda era difícil de entender. Nesse momento, percebi as persianas fechadas e a luz do sol fraca conseguia dar o tom da tarde na sala. “Sua apresentação é apenas semana que vem”, disse ao meu ouvido roçando levemente a língua nele, “Agora eu quero avaliar seu melhor trabalho”. A frase terminou com a língua dela percorrendo o meu pescoço e dissipando a anestesia do meu corpo. Com mãos ágeis, ela desabotoava minha camisa depois que eu a puxei para o meu colo e senti o gosto de sua língua. Com menos precisão, comecei abrir-lhe a blusa enquanto a professora desafivelava o meu cinto. Ela já abrira o zíper da minha calça e levantou-se para tirá-las, mas eu levantei-lhe a saia e me ergui da cadeira, segurando-a forte pela bunda. Sua resposta foi o cravar das unhas nas minhas costas. Fui até o sofá e me sentei com ela ainda em cima de mim, de um modo agachado, roçando no meu pau enquanto oferecia-me a língua.

Ela terminou de tirar minha camisa e eu também tirei a dela. Soltei seu sutiã e apertei-lhe os seios. Enquanto eu beijava-lhe o pescoço e as saboneteiras, testei um pouco os mamilos entre polegares e indicadores, depois com a língua. Minha professora parecia gostar de tudo. Ela segurava minha cabeça contra seu colo e aumentava a fricção ao se esfregar em mim voluptuosamente. Então, afastou-se um pouco. Toquei-a por sobre a calcinha que já estava bastante molhada. Sorri e o sorriso dela em resposta era diferente de qualquer um dos que eu esperava ela dar durante o dia. Era insinuante como cada olhar de agora. Fui tirá-la, ela segurou minha mão impedindo. “Agora é a hora da minha aula”, e levantou abaixando minha calça e cueca com minha pronta ajuda. Ajoelhou-se ali mesmo, na sala de reunião da pós. Sua língua e suas mãos passearam livres e lascivamente espalhando sua saliva. Quando comecei a pulsar em sua boca ela levantou: “Acho que você voltou a ficar tenso. Vou buscar um copo d’água”, e seguiu para o bebedouro. Fui atrás dela, segurei-a pela cintura e a encostei na mesa. Curvei seu corpo deitado sobre o tampo e tirei a calcinha encharcada. Aproveitei e a tateei um pouco. Rocei meu pênis de leve antes de colocar e as pernas dela tremeram de leve.

Ritmei meus movimentos e tinha a resposta em cada gemido. Quando ela tentava levantar eu a forçava contra a mesa de novo e puxava-lhe pelos cabelos. Aquilo era muito bom. Então ela me afastou sutilmente com a mão, e disse “hora da prova oral”. Enquanto ela caminhava de volta para o sofá e deitava nele, senti que explodiria junto com toda a realidade. Comecei beijando-a na parte interna das coxas, o que a fez arrepiar. Fui sem pressa à virilha e aos grandes lábios, o que a fazia gemer um pouco mais. Coloquei um dedo, depois o segundo, ainda a lambendo e sugando. Ela se contorcia bastante. Passeei com língua precisa, dando velocidade aos poucos. Fui acelerando até ela gemer deliciosamente alto demais para uma universidade, trazendo meu rosto para perto dela até desfalecer um pouco. “Aprovado”, ela disse. Subi o caminho do seu corpo ao passo leve dos beijos. Barriga, peito, pescoço. Quando cheguei ao ouvido disse que ainda precisava de reavaliação enquanto a penetrava devagar. Ela fechou os olhos como se o prazer fosse uma dor e abriu a boca muda que pedia aquela punição. Em seguida, me enlaçou com as pernas e me arranhava nas costas; em resposta acelerei. Sentia seu aperto com mais força e devolvia em ímpeto. Senti seus dentes e sua boca em meu peito e então ergui as pernas dela colocando-as nos meus ombros, enquanto pressionava nossos corpos um contra o outro. Ela gemia mais alto e eu segurava o quanto podia. Já eram quase gritos quando eu não pude adiar mais.

Suor. Saliva. Gozo.

Não havia mais diferença entre o meu e o dela.

Ficamos deitados ainda num mesmo laço por um tempo. Conversando e rindo. Depois nos vestimos, arrumamos a sala o melhor possível entre um pouco de diversão, e fomos para uma lanchonete da universidade. Durante a conversa, ela perguntou sobre o projeto, se eu ainda estava muito ansioso para apresentar. Tudo entre flertes. Ela pediu croissant de frango e suco de laranja. Fui de folheado de queijo e refrigerante. Comer e conversar amenidades me fez pensar que aqueles momentos atrás, aquele cheiro que não era o perfume dela, aquilo tudo fosse algo já distante. Terminamos a conversa e ela me ofereceu carona até um ponto relativamente perto da universidade, com mais opções de ônibus.

Achei que seria demais pedir outra aula no carro.

vaidade

Téo sempre quis ser uma pessoa importante. Sempre quis emprestar seu carisma para o entretenimento das pessoas e, claro, ganhar dinheiro com isso. Ele sempre puxava as resenhas na turma, os discursos engraçados nas festinhas, até algumas falas na paróquia. No colégio, sempre se deu bem apresentando os trabalhos. Ele não fazia os trabalhos e em troca os apresentava. Lia o conteúdo na aula anterior, no intervalo ou até mesmo enquanto os outros grupos apresentavam e desenrolava bem. A mãe dizia que ele tinha que estudar e o pai acreditava que ele deveria ser apresentador de televisão, com seu próprio programa. E ele queria sair da pequena cidade em que morava para o mundo.

Os anos passaram e não foi bem assim que ocorreu.

Ele começou dando voz a promoções do varejo, num trabalho de temporada numa dessas lojas. Conseguiu ficar no emprego até que um radialista o chamou para trabalhar no seu programa. Não era o serviço na televisão, mas já lhe sustentava e, depois de um tempo, começou a satisfazê-lo. Ele fez um curso de radialista pelos anos oitenta e ficou por lá. As pessoas conheciam sua voz e repetiam seus bordões na rua. Ele gostava daquilo. Reconhecimento na sua terra e sustento do seu dom. Téo não queria mais nada.

Os ossos do ofício começam quando a empresa para qual Téo trabalha decide patrocinar um evento famoso na pequena cidade em que ele mora. Ficou feliz ao ser escalado para apresentar o evento, pois captaram em seus programas aquilo que ele trazia desde a infância. Mas ele não pensou que seria tão desagradável.

Lá estava Téo, usando botas um número maior que seus pés e cobertas de lama, com uma calça jeans surrada, uma camisa de botão coberta por um colete de couro e um chapéu de vaqueiro. Uma mão trazia o microfone, na outra uma pequena cola com nomes de patrocinadores escritos a bic. O calor deixara a camisa grudada ao corpo, sua testa cheia de gotas de suor e a folhinha de papel molhada.  Suas costas doíam e a barriga reclamava. Comeu feijoada mais cedo e exagerou no bacon, lombo e pernil. Precisava apenas ir pra casa. Mas quem estava lá jurava que ele apenas queria estar ali sendo parte do espetáculo. Pecuaristas, moradores e até algumas pessoas das cidades vizinhas estavam ali. Os mais jovens queriam saber apenas do show que ocorreria depois. “Eles que estão certos”, pensou Téo. Limpou a garganta, ergueu o microfone e começou a falar.

Juliana estava sentada num banco de cimento debaixo de uma tenda. Era um camarim improvisado para as candidatas. Algumas ensaiavam uns passos de dança, outra pintava as unhas. Duas conversavam baixinho entre si. Uma comia biscoito recheado de morango. Juliana passava creme nas pernas. Ela sabia que logo não adiantaria muito, mas esconderia suas varizes em um momento crucial. Suas pernas estavam parcialmente cobertas por uma bermuda jeans que chegava aos joelhos, logo seu trabalho se concentrava nas panturrilhas. Era um martírio para a sua coluna fazer isso em meio a uma luta com os seus cento e vinte e quatro quilos, mas ela venceu bravamente. Ao terminar bebeu um gole generoso de água e pediu a concorrente um biscoito, tendo como resposta o pacote entregue generosamente em sua mão junto ao sorriso franco. Devolveu-lhe o sorriso e o pacote três biscoitos mais leve. Os comeu rapidamente e limpou o farelo na camisa verde estampada.

Aquela era uma das suas. Alcione trabalha como merendeira numa escola pública. Ela se inscreveu no concurso Garota Leitoa sem saber bem o porquê. Parecia nervosa, mas não falava nada. O sorriso fora tão sincero que ela retribuiu. Havia até um pouco de respeito nele, afinal, Juliana venceu a primeira edição do concurso. Empatado com outra moça que só competiu naquele ano. No ano passado ela ficou em segundo lugar, perdendo para Maria de Lourdes, que estreara naquele ano com cento e quarenta quilos, e que dessa vez se dizia mais magra. Estava lá, com uma camisa justa de listras horizontais, que realçavam seu corpanzil robusto e uma daquelas calças de academia. Tudo para parecer mais gorda. Ela estava cochichando com a irmã, Tonha, que também competiria com seus noventa quilos. “As vadias querem agradar a todo mundo pra levar o prêmio pra casa”, pensou.

Ela ganhou uma vez, mas não foi sozinha. Na segunda perdeu para a Lourdes. A mulher ficou famosa na cidade com o concurso e todo mundo a chamava de Garota Leitoa ou Dona Leitoa. A mulher gostava, via com carinho. Seu marido dizia que gostava de ter carnes onde pegar, mas tinha os olhos um tanto tristonhos. Seu olhar avivava-se um pouco mais seguindo carnes mais magras. Os amigos dele gostavam dela, mas a tratavam como parte do folclore da cidade. Eles desejavam as mulheres dos outros, menos Juliana, e ele sentia. Nem mesmo ele a desejava. Das últimas vezes que fizeram sexo, além de apagar as luzes como sempre, ele fechava as cortinas e certificava-se de que os vizinhos já estavam dormindo. Fazia com o mínimo de barulho e se demorava no banheiro depois, voltando para a cama apenas quando Juliana já tinha dormido.

Até o dia que seu marido disse que sairia de casa se ela não emagrecesse. Estava farto de ser o marido da leitoa da cidade. De não sentir vontade das formas da mulher nem de vê-la sem roupa. Ela chorou e disse que participaria do concurso uma última vez e que depois mudaria. O prêmio poderia até ajudar a pagar uma cirurgia. Mas Juliana fazia aquilo mais por ela do que por ele. Mais do que ser magra, ela gostava de biscoitos, refrigerante, sanduíches e pizza. E mais de que isso, gostava de ser a garota leitoa. Ela já havia decidido deixar de participar porque o concurso estava ficando um pouco mais sério. Ainda era uma coisa de família, mas moças bonitas envelheceriam e engordariam. Gordinhas da capital se interessariam e seria mais difícil. A chance que ela teria de ganhar era agora. Usou isso para ganhar pontos com o marido também.

– Pesando noventa e oito quilos, Antôniaa Souzaaaa!!! – A voz de Téo Souza chamou a primeira candidata. Juliana começou a repetir o mantra na sua mente. “Desfilar, sorrir, falar, dançar. Desfilar, sorrir, falar, dançar.”, várias vezes na mente. Todas desfilariam e falariam algo individualmente, depois dançariam juntas e um júri elegeria a vencedora.

– Com cento e quarenta quilos de puro charme e elegância, Cristinaa Siiilvaaa!!! – Ela levantou e ficou a espera. As cinco que sobraram trocavam comentários sobre o concurso desejando boa sorte umas as outras. Juliana também o fez, mas via tudo como falsidade. Ela queria apenas ganhar.

– Trazendo cento e vinte e quatro quilos de bacon de primeira, nossa primeira Garota Leitoa, Julianaa Castrooo!!! – Os gritos da plateia trouxeram seu melhor sorriso. Cada um daqueles olhares era o melhor que ela jamais teria novamente. A emoção queria lhe fugir pelos olhos, mas ela a segurou na garganta e caminhou descalça para o lamaçal.