o amor em 10 faixas

Love Reign O’er Me 

O Amor é maior que eu e você. Ele é essa força que nos atrai em dias nublados. Tão certo quanto a ressaca do mar o faz querer a praia, eu te procuro e essa certeza é o Amor. É o que me faz querer ser melhor e me dá a vontade de criar uma vida de nós dois apenas para amar.  Só o Amor pode trazer a chuva que faz você desejar o céu. É o que me faz querer te dar esse céu para que você O reconheça em mim. O Amor é o que me faz conseguir.

Something 

“Porra, cara! Ela é incrível! É como se deus tivesse construído a versão dele pro Taj Mahal. Com peitos!”, falou tragando a bebida quente em seu copo de uma só vez. Ele bebeu muito hoje. “Ela é tipo… ela é…”, “Eu sei, cara”, “sabe?”, “imagino”, isso acaba comigo qualquer dia. “É que ela tem um lance… uma coisa… alguma coisa que, sei lá, porra.”, em meio a dúvida ele chama o garçom que lhe serve mais uma dose. “Dupla”, “ela tem disso mesmo”, “de quê?”, “sei lá, disso que você diz”, melhor parar. “Ela é a melhor de todas. Conhecer a perfeição faz a gente não querer viver a mediocridade. Sério. Se dependesse só de mim, isso tava mais que resolvido”, ele tentou virar o copo de uma vez de novo, mas parou em meio a uma careta. “Eu penso que não dá pra amá-la mais do que eu já amo, mas aí ela faz aquela parada dela, sabe? Ela sorri e todo amor que eu tinha antes já parece pouco. E funciona quando eu penso no sorriso dela também… o que é basicamente sempre”, “sei exatamente como é”, “exatamente?”, “é… de uma maneira geral”, parei. Se eu ficar mais bêbado que ele é capaz terminar morto. “Sabe, eu não quero deixá-la agora”, “eu sei, cara. Pode ter certeza.”, chamo o garçom e peço a conta.

Tarde Vazia 

Tô cansado disso tudo. Todo dia esse cinza, a neblina, o frio, o metrô, o busão, o outro busão, aquelas pessoas e carros e de novo e de novo e de novo. Mesmo que um dia faça sol e no outro chova, mesmo que sejam outras pessoas, tudo faz parte do mesmo ciclo que repete e repete e repete.

– Alô?

– Oi!

– Liguei na hora errada?

– Acredite, nunca é.

– Que bom! Na verdade eu só liguei pra saber como tu tá.

– De verdade? Tô ótimo!

– É… Eu causo esse efeito.

– Acredito.

– Que barulheira! Tu tá onde?

– No ônibus.

– Que altura?

– Osvaldo Aranha, passando pela Santo Antônio. Voltando pra casa.

– Sentado do lado direito ou esquerdo?

– Isso importa?

– Muito. E dependendo da sua reposta é urgente.

– Esquerdo.

– Levanta e vai pra uma janela da direita.

– Eu vou perder o-

– LOGO!

– Ok, ok! Tô aqui!

– Vendo o quê?

Pela janela vejo fumaça, vejo pessoas

– E…

– A mulher mais linda da cidade segurando uma cartolina.

– Que diz…

– “Te amo”.

– Eu também te amo, lindão. Não precisa chorar.

– Tá ouvindo? Pessoal no busão gostou de você.

– Sempre gostam hahaha. Olha, tenho que ir. Ligo mais tarde.

– Ligue mesmo!

– Beijo.

– Bei- Ei!

– Oi?

– Só pra dizer que de todas as garotas, você é diferente.

– E é?

– Sim, se houvesse um bilhão delas no mundo, você seria a melhor. Mas só tem você.

– Hahahaha tá certo.

– Beijo!

– Beijo. Até mais.

Agora eu sorria. As pessoas em volta sorriem também. O cinza era menos cinza. Hoje é um dia especial e o mundo um bom lugar pra viver.

Chorando e Cantando 

foram os melhores dias que tive. ele foi uma loucura em minha vida. o conheci naquele carnaval. logo de cara ele mentiu para mim, dizendo que estudava pra médico. quando eu perguntei no segundo dia, disse que era pintor, que não tinha onde cair morto. chamou-me pra uma volta pela cidade. entramos no seu carro do ano. perguntei como poderia acreditar nele. ele disse que o amor era paradoxo constante, que mentia pra todo mundo e ninguém prestava queixa. o suor era frio; o dia, noite; e que amar para ele era assim. e ele mentiria para mim todos os dias. eu estava apaixonada. assim que era Maurício. no bar, subia na mesa e cantava os berros. fingia de morto no meio da rua. era intenso e radiante. até o dia que acordei e Fernando não estava mais lá. um sorriso quando acordar, pintado pelo sol nascente, era o que eu esperava. mas só uma tela sem autor que retratava um sol em plena noite. desde então eu procuro Ricardo em cada pessoa que me olha indiferente. foi então que todo mês virou fevereiro. cada olhar poderia sê-lo, mas nunca é.

Meu Sol 

Eu sou mala feita, alma pronta, casa aberta. Vejo-te chegada, meu coração, meu lar. A gente passou muitas noites juntos pensando as mesmas coisas, bolando planos impossíveis, sonhando nossos filhos. Era o amor que ninguém vê. E os dias, lembranças e o cochilar feliz de um simples instante. Hoje eu sou esse agora e você o aqui. É o nosso tempo. A noite foi uma ideia que surgiu para o dia trazer a certeza. A escuridão me seguia com seus temores, mas, se milhas nos separaram, as horas nos uniram. Mais do que eu poderia querer foi sua voz dizendo “não esquece, o sol renasce amanhã”. E ele veio. Atravessou o dia prometido e chegou naquele instante, no meio da noite. Compartilhar um banco de praça ou uma janela, um sofá ou uma cama. Uma vida pra nós dois. Tudo que eu quero olhar, tudo que eu vejo, a parte boa do que eu sinto. Sou a mesma resposta pra cada dilema. O seu sorriso é o lugar. Seu abraço, o segredo. Esse amor, o sagrado.

Um Girassol da Cor de Seu Cabelo 

É triste quando tudo termina antes mesmo de acabar. Quando a gente não sabe o motivo que levou ao fim e isso faz com que questionemos a nossa própria existência. Ainda bem que não choveu. A chuva seria algo muito bom para o momento que só merece esse mormaço. Eu sei que a gente não tava bem, que tivemos que adiar alguns planos. O que me dói é que não tem mais como a gente se acertar. Eu sei que tudo não estava tão ruim assim, não é? Eu sei que a gente discutiu por conta da minha pergunta fora de hora e que você não tinha certeza sobre essas coisas. Passar uns dias sem se ver parecia uma boa ideia pra por as coisas no lugar, porém não sei mais quando irei te ver. Pra mim nada mudou.  Ainda gosto das mesmas coisas bem como das suas coisas. Queria cantar pra você agora. Assim eu teria você para cantar. Depois de alguns dias, você quis saber de mim. Mandou uma mensagem perguntando se eu estava bem. Eu só vi a noite e resolvi ligar, mas você não atendeu. Quando meu telefone tocou não era você, mas a notícia de que você se foi. Agora o vestido roubou a cor da terra, a cor da alegria e transformou tudo em azul. Será a cor do meu pensamento, vai ser o azul que tingirá minha pergunta sem resposta para sempre.

“Você ainda quer morar comigo?”

Bonita 

A gente se encontrava no terreno perto da casa dela. Teve uma vez que ela caiu e ralou o joelho. Foi indelicado da minha parte rir, mas eu tava meio chapado. Não precisava jogar um pedaço de tijolo em mim. Fiquei muito puto, mas ela abaixou minha bermuda ali mesmo e me pediu desculpas com a boca muda. A parte ruim foi o mertiolate depois, que não era nada perto de estragar aquela lembrança. Tudo o que a gente queria era se pegar loucamente, mas éramos jovens demais pra um lugar apropriado. Minha casa era impossível, na dela não podia passar do sofá. A gente deve ter visto Simplesmente Amor umas quinhentas vezes depois do colégio. A irmã pentelha estudava à tarde. Quando seu pai saía e sua mãe ia para o quarto, ela sentava no meu colo e eu a mordia e apertava. Ela tirava o sutiã por baixo da camisa e eu abria a calça. Ela colocava a calcinha pro lado e a gente enlouquecia com todo o silêncio possível. Mas ela foi embora. O tempo passou e umas coisas mudaram. O terreno lá perto virou um prédio grande. Gente nova foi morar na casa dela. Cresceram o muro, pintaram a fachada e puseram uma cerca elétrica. Até que ela me achou na internet semana passada. Disse que era tarde pra eu estar aquela hora. Fiquei feliz e perguntei se ela lembrava disso tudo. “Impossível esquecer” foi a resposta, acrescida de que foram bons tempos. Eu disse pesaroso que mertiolate não ardia mais. Ela falou que não era ruim pra gente e que quando voltar vai ser melhor. Agora faltam poucas horas pra gente se encontrar num sonho bom. Mas ninguém vai dormir.

Razorblade 

A cozinha estava quente e ninguém ligara o forno. Era só o domingo de sol e a TPM. Ele rezava – a todos os deuses de que ouvira falar – para que fosse o ciclo. Ela disse que ele tem que aparecer sempre. “Mas eu sempre apareço”, ele respondeu.

– A questão não é essa – a resposta veio cercada de convicção.

– Mas era o que a gente tava falando – ele soltou o primeiro “mas”.

– O que eu estava falando. Você nunca fala nada! – ela era uma garota esperta, ganhava mais espaço.

– Você fala por nós dois – quando foi que isso tudo virou um jogo?

– Agora é assim? Não precisa aparecer mais, então. – Sentenciou pegando raivosamente uma faca suja na pia que apontou para ele.

Ele olhou a lâmina que, naquele momento, cortou limites.

– O que você vai fazer com essa merda? – as palavras saíram sabe-se lá como.

Ela jogou a para a própria mão e jogou a faca longe, incrédula. Ele se virou e foi abrindo a porta que dava pra o corredor.

– Desculpa, amor! – a consciência trouxe um pranto sadio. Triste era que aquilo era a parte mais saudável daqueles dias.

– Calma, calma – apaziguou o rapaz. – Tá tudo certo.

Ele não fazia ideia do motivo dela fazer aquele tipo de coisa, mas não se importava enquanto a quisesse. Parecia loucura, mas ele se achava vacinado para o que fosse. Lembrou que aquilo era um jogo desde o começo. Eles eram perfeitos um para o outro.

Thank You 

Quando você me acorda o dia é mais especial. É lembrar da beleza do sol, mesmo por trás das nuvens, só pra ter certeza que você é mais bonita. Acordar com o seu sorriso faz o dia parecer feriado. Você é pura inspiração. Não como dizem os poetas, mas um ímpeto de viver mais, de largar o trabalho e fazer algo totalmente diferente para descobrir o mundo contigo. É vontade de ter mais um filho. Mesmo que bobagens interfiram nesse sentimento às vezes, até elas servem pra lembrar que meu amor é forte, com você não existe erro. Quando eu vejo seu sorriso ao acordar, sei que o fim do mundo não vai ver o fim do nosso amor.

Obrigado.

Mesmo que Mude 

Passa um tempo sem se ver, evitando ligar e coisa e tal. Quer saber como o outro tá, mas não quer que ninguém saiba que quer. Só que todo mundo sabe. Mesmo assim é de se iludir. Fica mal se outro tá bem, se tá mal também. Aí é se ocupar com outras paradas. Coisas que façam a gente melhorar e que também mudam um pouco a gente. Lembra um pouco menos; dói um pouco menos. Aí o acaso faz um encontro. Todo mundo de boa, ainda que não. Diz que não esperava que tivesse curtindo isso, não que não fosse legal. Diz que não pensava ver essas roupas, não que fosse ruim. O “até mais” talvez venha com aquele “a gente se vê” inocente ou o “vamos marcar” automático. Engraçado como cada um seguiu a vida e o coração de repente lembra que é sempre amor, mesmo que mude. Será que só para um dos dois? Não tem mais o número na agenda, mas sabe de cor. Deveria?

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Ideia descaradamente copiada de Marden, entretanto, devidamente creditada. Pra ouvir a minha lista na moral, é só clicar aqui.

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a primeira colheita

É noite no sertão. As estrelas estão especialmente belas hoje e o frio da noite nessa terra que é tão castigada pelo sol, trás lembranças de outro lugar a Luiz. Ele mesmo não parece vindo da vila onde se formara o arraial espontâneo ao som das notas que ele executava.  O cabelo loiro, a pele que parece nunca ter se acostumado em batalhar diariamente com o sol, os olhos claros da cor do próprio humor traiam a primeira vista. Apesar de tocar o instrumento com certa suavidade, Luiz tinha mãos calejadas de enxada. O traço do sotaque nas palavras era a certidão de nascimento.

O local é uma praça modesta em frente à igreja e cercada por casas de alvenaria, madeira e taipa, num desordenado que não impedia transito de cavalos e carroças mais do que o próprio chão de barro batido.

Sua sanfona segue uma melodia que não lembra em nada a aridez em que se encontra, nem nenhuma outra que ele compôs. Ele toca no meio da rua, em frente a uma fogueira. As pessoas param ao som da valsa e foram se aproximando cuidadosamente para que os passos de botas, chinelos e pés descalços não chamassem atenção. O público a sua volta se aquietou para ouvir a melodia. O dedilhado do sanfonar era respondido com a respiração cautelosa de todos para não atrapalharem o caminho da canção. Ela era escutada não só com os ouvidos, mas o coração ficava leve à vibração de cada acorde. As mentes de todos valsavam sem que nunca tivessem escutado algo assim na vida. As crianças repousaram e deixaram que o suor das brincadeiras secasse no mesmo vento que lhes trazia o som e levava a atenção. As moças suspiravam o amor e deixavam que lhes transbordassem aos olhos. Alguns rapazes sorriam para o longe, outros procuravam um olhar perto e até os que não admitiam, deixavam a calma tomar conta e o que é pensamento se perder. Os mais velhos lembravam seus melhores dias e os jovens fugiam do amanhã. Os mais brutos, amoleciam dentro de seu orgulho. Os mais céticos pensaram – por um raro momento – terem encontrado algo para acreditar que já estava em suas vidas a mais tempo do que lembravam e não conseguiam precisar exatamente o que era.

A melodia foi repetida algumas vezes. Encorajou casais já feitos se beijarem, os mais tímidos se abraçarem. Mãos que ainda não pertenciam a casais partilhavam o mesmo toque; olhares se pertenciam em cumplicidade. Alguns mais bem-aventurados resolveram dançar. Eles seguiam a música em pares respeitando o ritmo que os conduzia. Outros se afastaram para trocar carinhos e juras ao compasso em que seus próprios corações dançavam. Mas não se distanciaram muito para poder ouvir a melodia. Eles não queriam que ela acabasse. Na verdade, não queriam que aquele momento terminasse. Ele surgiu sem ninguém esperar, e poderia muito bem ir embora do mesmo jeito. Porém ninguém queria que fosse assim. Eles se agarravam aos seus amores e às promessas. Seguravam-se em braços e mãos e carícias. Queriam se prender naqueles olhos que miravam, na respiração que sentiam. Havia uma saudade muito grande do presente. O agora estava fugindo deles e aproveitar ao máximo era indescritivelmente bom e suficiente. Aquilo não podia acabar.

Mas acabou.

Ao final, as pessoas não bateram palmas. Continuaram em seus silêncios, seus abraços. Estavam todas em um lar recém-descoberto ou no regaço que procuraram há anos. A música ainda ecoava em cada um, trazendo uma saudade boa e uma felicidade que não acreditavam que pudesse florescer nem na caatinga, quanto mais no solo rochoso em que viviam.

O silêncio inquieto que era lembrado pelo crepitar da fogueira, ensaiou seu adeus no burburinho dos pequenos que estavam ali, porém, só partiu daquele meio quando a voz de navalha o cortou.

– Só ouvi essa música uma vez, Luiz. Tu deve tá inspirado – o tom jocoso traia-lhe a calma que sentia agora. – Ou bastante saudoso. – Não conseguiu sustentar por muito tempo.

– Além de mim e do vento, você foi o único presente que a ouviu mais de uma vez, Carcará. Talvez nem a toque de novo – ponderou.

– Tu com esse papinho afrescalhado de sempre – mas fora interrompido por uma profusão de vozes.

“Por que não tocar uma música tão bonita?”, “toque novamente amanhã!” e “toque de novo agora!” eram apenas algumas das frases escutadas. Questionamentos como “Onde tu aprendeu isso?” e “e que é esse som?” se intercalavam com “isso não é forró” e “o pé não arrasta com essa música, quer flutuar” o bombardeavam a todo instante. Por fim ele decidiu falar e todos se calaram.

– Eu aprendi dentro de mim –, ao seu lado, Carcará fazia uma expressão e um floreio de mão bastante afetado, mas que ninguém notara. – Embora tenha tido uma professora.

– Sua professora deve tocar muito bem, então. E conhecer música de outros lugares – quem falava era Rosinha, filha mais velha de seu Sebastião, dono do armazém. Ela estava prometida para Getúlio, um jovem valente, que vivia de desafiar e vencer a seca, ano após ano, cuidando do próprio gado.

– E namorar muito bem também – riu Maria Tereza junto com meia dúzia. Ela lavava roupas com suas irmãs para ajudar a mãe, dona Geni, e se engraçava para as promessas de vários rapazes da região.

– Não duvido que você tenha um repertório pra ensinar ao nosso sarará do acordeão – dessa vez Carcará fora ouvido e teve risos afirmativos em resposta. – Mas acho que só ia dar muito rala bucho. – As pessoas concordavam como Maria Tereza não estivesse lá. Ernesto, quem agora prometia à moça (por assim dizer), não gostou de ouvir aquela verdade, nem de ser pressionado por ela a tomar uma atitude em sua defesa. Disse a ela, baixinho, que teria com o homem depois, rezando para que ele não escutasse.

– Se você só tocou a música uma vez antes – quem desafiava o burburinho era irmã Graça, serva ordenada na capital e que tinha sua missão de evangelizar com outras da ordem neste lugar – o que a fez tocar de novo? E o que faz com que você não a queira tocar mais. – o burburinho já não falava das saias de Maria Tereza, mas na razão dos argumentos da irmã.

– Bom, já que você perguntou ela tem uma história-

– Queria que a lua tivesse mais piedade de mim que o sol – atravessou Carcará, que acomodava-se em sua falsa relutância para escutar.

Tudo começou quando o padre José disse que precisava ter com sua família. Ele tinha direito a um dote que seu pai lhe negara quando o filho escolheu a vida sacerdotal. Em meio a injúrias, disse que não haveria de precisar já que escolhera viver na pobreza. José disse que entendia aquilo, afinal, seu pai era um homem da terra. O trabalho que não fosse braçal para ele não tinha tanto valor. Um médico poderia salvar-lhe a vida, mas o que ele plantou na terra e ela lhe deu, salvou a vida do homem todos os dias para que ele pudesse aprender o ofício da medicina e ser útil. Ele só era grato a terra e só respeitava quem pensasse igual. Para ele, o filho era uma decepção ao ter largado o exército e tentado a medicina quando jovem, mas se tornou uma desonra ao deixar os estudos e seguir a vocação do sacerdócio.

De fato, José não tinha interesses nas posses do pai, a igreja lhe dava tudo o que precisava, que era pouco até para o menos abastado dos homens. E, em troca, ele dava tudo de si e o que tinha para a sua missão. Sua determinação consegue realizar milagres e quem era abençoado ou testemunhava o via como um verdadeiro arauto da fé. O fato é que ele deveria ter direito a uma parte do que era do pai e, vendo as dificuldades do povo de Belo Forte, pensou em usar isso para construir um reservatório de água para a região de sua igreja.

Como a família mora em um local ao extremo sul do continente, ele convocou uma pequena comitiva para que seguissem o caminho. Carcará foi o primeiro. Não conseguiria se perder em lugar nenhum. Mesmo se não o conhecesse ou se quisesse se perder. Sempre acha qualquer trilha – humana ou não –, consegue ler a vegetação e o céu. Calçava botas, vestia roupas algodão com proteção de couro curtido e reforçado para as mãos, antebraço e o troco. O pequeno chapéu de couro lhe protegia o juízo do castigo do sol.

– As pessoas estão me vendo, fresco – interrompeu Carcará. – Não precisa me dizer pros que me conhecem.

– Eu conto a história e faço como quero. – A reprovação de Luiz fez coro com a do público, que abandonou o silêncio para fazer Carcará se calar. Argumentaram que ele parecia alguém melhor na história do tocador e ele protestou mais para si mesmo que em retaliação.

Genaro, por sua vez, era bastante alto. Magro, usava os dedos finos para o tratamento com pistolas e o rifle. Ágeis e longos, serviam não só para o manejo com a pólvora, também a punga. Escondia a calvície em um chapéu de palha, que lhe assegurava uma mira melhor, já que qualquer luz atrapalhava por conta das lentes redondas de seus óculos. O rosto comprido e moreno parecia mais jovem do que realmente era. Apesar da aparência paterna, o homem podia ser letal e acompanhava o grupo para cobrir qualquer confronto a distância ou limar qualquer possível desgaste causado por um animal selvagem.

Para auxiliar no projeto do reservatório, José conversou com representantes da população e elegeu Preto para ajudar na jornada. Mesmo ele sendo de uma Religião distinta, vivia a natureza de sua terra e a conhecia como ninguém. Apesar dos modos rústicos e de evitar o contato com a população de Belo Forte, preferindo o convívio com os animais, o velho era sábio e conhecia o melhor local para a construção do reservatório. José aprendeu a respeitá-lo, ainda que não visse sentido em seus rituais (o que já era símbolo de grande tolerância, pois, em sua ordem a crença do velho era considerada – ainda que extraoficialmente – profana). Ele andava vestido em peles de animais que ele comera e entalhara suas armas e utensílios em seus ossos e presas. Segundo a própria palavra, nada deveria ser desperdiçado na natureza. Toda a vida tinha seu propósito.

Por fim, eu estava lá para cuidar das praticidades. Assumi as negociações por comida, consegui cavalos para todos, uma mula para carregar as provisões e ainda oferecia conforto para os espíritos dos viajantes, o que ajudava também com a fadiga e as dores. O melhor remédio para isso é a música. Como não podia levar a sanfona em uma viagem tão longa, optei pela flauta e uma pequena viola de nome engraçado que consegui no porto.

*             *             *

Foi uma semana sem problemas, já que todos estávamos acostumados com o calor. Na última cidade do sertão, os homens do rei Lampião, autorizaram nossa viagem. Era uma missão santa e o Homem respeitava isso. As fronteiras do reino são todas protegidas por uma muralha recente feita às pressas. Cada cidade foi fazendo seu pedaço, que depois foi sendo reformado. Alguns trechos ainda possuíam tamanho diferente. O material em todos variava, mas o rigor da defesa e vigilância era igual. Todas eram protegidas pelos cangaceiros.

O Cangaço é uma guilda de batedores que não tinham pena de matar. O couro curtido e bem trabalhado era a proteção que tinham ajustada ao corpo sobre tecidos de lã nobre. Todos usando grandes chapéus de couro adornados com desenhos interpretados por eles como títulos e patentes. Eram marcados pelo sol e sujos pela areia, o que dizia que qualquer luxo que eles tivessem era um direito conquistado por uma vida de enfrentamentos. Sua lei era sua força. Pistolas, rifles, punhais e pexeras estavam entre as peças mais comuns do arsenal dos cangaceiros.  O chefe deles recebia o título de Lampião.

O atual lampião só tinha seu nome conhecido pelos membros da própria organização, que serviam seu líder com lealdade extrema. Após uma excursão pelo vasto Sertão (maior e mais mortal região árida do reino), o homem decidiu cercar o território e conquistou o poder político de todas as cidades envolvidas. Matou alguns prefeitos, desarmou algumas tropas, fez crescer sua lenda. Quando a renúncia era amigável, ele apenas colocava alguém de sua confiança para representar os interesses da região ou negociava com o atual representante, se este lhe oferecesse obediência (sempre vigiada). Ao invés de gerar revolta da população, Lampião conquistou o respeito e a admiração do povo, porque tomou para si o comando, mas também as responsabilidades.

A gente sertaneja prosperara.

Quase todos os ricos tinham suas posses tomadas pelo Cangaço e aquilo era distribuído entre os pobres. As poucas famílias que mantinham seus bens, pagavam tributos ao rei e empregavam gentes. Os que foram abastados nunca haviam lutado e não saberiam fazer agora. De resto era satisfação. Alguns trabalhadores eram recrutados pelo próprio regente para a guilda ou escavações. Dizem que ele sabe de um grande tesouro escondido no Vasto Sertão, onde ele faz buscas incessantes.

Tirano ou benfeitor, o rei possuía suas crenças, por isso, respeitava os homens santos e até mesmo os colocava como prefeitos de algumas cidades. Por isso a missão de José foi aceita e bem vista. O padre, por sinal, usava uma cota de malha acima da roupa e abaixo de uma túnica com o símbolo de seu deus, uma flor de lótus. Trazia o mesmo símbolo em um escudo preso ao antebraço esquerdo por tiras de couro. A flor é de aparência frágil mas cultua o Sol, que castiga a todos sem nenhuma distinção e premia os fortes. Os sertanejos viviam pela lei do Sol que, pela fé de José, não era cruel, mas justo. Por isso o Lótus, porque havia beleza na força e na vida. O julgamento do sacerdote ficara por conta da espada que trazia presa às costas.

*             *             *

Era um grupo improvável, mas seguimos viagem por quase um mês. Os desafios não eram tantos durante a viagem. O clima seco ficou atrás da Cordilheira das Nuvens, que atravessamos em uma semana, dando lugar à Floresta Morta. A cordilheira tem esse nome porque é muito alta e recebe mais chuva do que o Sertão sonharia. Carcará nos guiou por uma trilha natural em meio as grandes copas de árvores. Ele havia dito que grandes animais deveriam usá-la, mas que era melhor arriscar um encontro com eles do que com os mortos. Já desses, José cuidou com suas bênçãos.  Evitamos quaisquer animais que não comeríamos e tivemos poucos problemas com batedores. Também não cruzamos com criaturas inteligentes – que são o real perigo por trás dos mortos. Vencemos a floresta em poucos dias e avistamos os planaltos.

– Assim que subirmos pelo primeiro, minha cidade aparecerá no horizonte – avisou José um pouco saudoso.

– Se as moças daqui forem galegas como você e Luiz, eu vou deixar uns filhos meus por esse lugar – Genaro entre risos. – É bom tirar férias das morenas.

– Pensei que estava me cortejando, Genaro. – A indagação do padre tirou risos de todos.

– Respeito sua santidade – atalhou o atirador puxando a mula enquanto arrumava os óculos no rosto. – Mas se Luiz tiver problemas, eu resolvo sem preconceito.

– Largue de ser fresco, homem – disse sem olhar o homem. – Só piora pra você.

Algumas trocas de amabilidade enquanto alcançávamos o topo. Descemos das montarias para comer e nos preparar melhor para o frio que não nos era comum. José não parecia temê-lo. O homem não sofria com baixa temperatura, calor ou medo que fosse, mas se comoveu ao ver sua terra.

Era sertão também.

– Que arrudeio da porra que tu desse, Carcará – Genaro estava mais piadista que o normal, mas dessa vez ele arrancou alguns risos tímidos. – Leve logo a gente pras temperâncias galegas, homem. Luiz já tá começando a ficar irresistível.

– Aquela é a minha terra – a voz do homem não parecia dele.

– É como se fosse minha tam- interrompi a anedota de se formar no diafragma com uma cotovelada nas costelas de Genaro que, finalmente, entendera.

– Quando chegarmos lá, descobriremos o que houve – apaziguou Carcará.

Comemos e decidimos não dormir até cobrir a distância que era menos de um dia sem paradas. Descemos o monte e ao começar a subir as terras do homem santo, vimos o chão rachado que é mais quente que areia. Árvores mortas, a água que corria monte abaixo das nascentes não conseguia se impor à vontade da terra.

– Parece piada – Genaro ao tirar o casaco de couro.

– Isso não é normal – Carcará constatou. Os cavalos ficavam um pouco arredios.

– A natureza serve outro senhor agora – Preto não falara nada até então. Ao olharmos para ele, já havia apeado de um salto e trazia presas raivosas grandes demais pra sua boca.

Sem tempo de entender aquilo, saltamos dos cavalos que corriam em disparada. O velho conjurava espíritos de animais em um balbuciar misterioso. Genaro tinha o rifle em mãos. A prece de José iluminava a sua espada. Saquei meu facão.

– Chibata! – Era Carcará com as duas pexeras em mãos. – Saiam do chão! – O chão batido de súbito era um redemoinho de areia, que nos tragava lentamente e deixava os movimentos devagar. Genaro conseguiu subir uma pedra. Preto era agora um homem lagarto, movendo-se sobre a areia macabra. Eu, Carcará e José presos. Estátuas de pedra começaram a levantar.

– Use sua reza! – Gritei ao paladino.

– Não são mortos – respondeu-me prontamente. – Use sua música!

– Não são vivos! – alertou Carcará. – São apenas estátuas! É uma sereia da pedreira!

Então, no centro do redemoinho, surgiu a criatura. Um elemental de terra que mata suas vítimas e as transforma em estátuas de pedra para roubar-lhe as riquezas. Sereia da pedreira é uma triste analogia que os homens usam para aquelas que os enterram vivos e fogem com seu mais precioso bem. A criatura não tinha bem sexo, mas todos os elementais têm formas femininas. As estátuas podiam ser controladas por ela, e ela as usava para puxar as presas para dentro da terra ou simplesmente para perto de si. Uma delas agarrou meu pescoço por trás, mas logo perdeu a força perante um estampido.

– Suba nessa porqueira! – Genaro berrou por trás do cano fumegante da sua pistola.

Subir no resto da estátua me daria mais algum tempo para agir. José despedaçava todo corpo de pedra que se aproximava dele com sua grande espada. Carcará subiu em uma que tentou lhe atacar e arrancou-lhe as partes enquanto ainda se movia, para criar uma trilha por onde lutar. Preto batia de frente com a criatura usando seu poder primal. A natureza original mostrava sua revolta perante o inimigo enviando sua força intempestiva para Preto. Os construtos fechavam o cerco em José.

Cortes horizontais davam-lhe perímetro. Corpos de pedra dos oponentes era piso para seus pés. Carcará lutava perto, mas não fazia costa a costa por temer que ambos afundassem mais depressa. Genaro conseguia cobrir ambos. Eu saquei a viola. E toquei. Acordes rápidos num compasso ligeiro. Os que estavam comigo agora eram mais ágeis. Usei uma trilha de destroços de inimigos para sair da área de alcance do encanto da sereia enquanto tentava impor o meu mais alto. Genaro parou de atirar e pegou uma pequena bolsa. Jogou-a para junto do elemental e pediu que Preto fizesse seu movimento. Ele se afastou e criou chamas  no perímetro do inimigo.

A pólvora na bolsa explodiu.

A criatura já decepada e chamuscada perdera quase toda sua força e mal conseguia se mover. Não controlava mais as estátuas para aguentar ficar viva. A magia perdera força também e grande parte do chão queimado era mais sólida. Foi o suficiente. Carcará cortou-a descendo as lâminas em um corte cruzado. José tirou sua vida de um golpe vertical que dividira o resto da sereia em dois.

Não havia mais areia, mas um chão batido e sem vida de antes que agora servia de cemitério para pessoas de pedra.

– Desculpem não lembrar antes, mas, se serve de consolo, temos um tesouro aqui em qualquer lugar – o acanhamento mal disfarçado traia a voz de Carcará.

*             *             *

Após procurarem por um tempo considerável para o cansaço e a fome, conformaram-se de que não havia riquezas escondidas por ali. Carcará disse que era estranho que a sereia não guardasse os tesouros em sua área e reforçou que eles não procuraram direito. Decidiram seguir o resto do caminho e foram recebidos nas muralhas do feudo pela guarda da Colina de Greenland. Eles usavam armaduras com partes de metal protegendo as pernas, peito e os ombros. Elmos protegiam-lhes a cabeça e manoplas revestiam as mãos que empunhavam suas lanças. E cada armadura, o brasão daquele feudo: uma águia marrom em pleno voo com um carvalho verde ao fundo.

– Queremos falar com Dário, o senhor dessas terras – bradou José, emendando antes de qualquer palavra por parte dos homens. – Diga que é o seu filho – terminou mostrando um anel.

Os guardas conversaram entre si e um deles foi olhar a joia. Ao confirmar que tinha o brasão desenhado no ouro, avisou ao outro e entrou. Voltou em três minutos com o chefe da guarda. Um senhor com uma armadura um pouco mais pomposa que os outros e que, por sua vez, sofria com o calor mais que eles. A barba grisalha e bem aparada cobria-lhe o rosto. A calvície começara a atacar, mas ele não a escondia. Ao se aproximar ele confirmou um sorriso que já era mal contido à distância.

– José, filho de Dário! Seu pai ficará feliz em vê-lo agora! – O ânimo daquela voz carregada de idade e respeito não o convencera muito.

– Grande Marcos! Ele não parecia feliz quando anunciei minha partida – o guerreiro coçou a cabeça como se fosse um jovem. Marcos o havia ensinado o básico sobre combate e outras coisas que seu pai não tinha tempo. – Ainda mais quando souber meus motivos.

– Nenhum assunto desagradável será pior que o mal que os ventos trouxeram para cá – um pouco de amargura ao homem.

– Impossível não perceber, embora eu ainda não saiba a causa – José.

– É um dragão, filho – o silêncio durou tempo suficiente para que os viajantes se olharem perplexos, os anfitriões fitassem o chão e todos quererem que ele acabasse. – O dragão trouxe a seca.

[NOTA]

Um ano depois, desafio dado pela Ludmila foi realizado. O texto foi baseado na música do tal do Dave Thomas e tomou um rumo bem inusitado. Em trinta dias sairá a parte dois. Tive que dividir porque o texto tomou proporções grandes demais pra o que eu considero agradável de se ler no pc. Desculpem-me por isso. De verdade. MAS NÃO DEIXEM DE LER SÓ PORQUE EU ME DESCULPEI. Não sei se completo o texto aqui mesmo ou se faço outro post, mas quem ler a primeira parte, saberá quando sair o desfecho.

Grato pela atenção.

céu

Eu pensei se era o que eu estava vendo, quando soube o que era firmamento. Imagino se esse tudo é uma imensidão repleta de cor pura e que muda a cada instante que a luz dura, ou se é apenas um vazio de estrelas.

E as constelações são luzes em canto nenhum? Ou faróis de mortos, de longes ou até de nada e o mundo as toma por guia em cada estrada? Tantas colheitas e mares… Talvez o plano do Céu fosse seduzir o mundo assim, com pequenos segredos e levá-lo (trazê-lo?) ao fim. E se a luz que as estrelas emanaram de um tempo tão distante não fizerem com que estejamos todos orgulhosos do progresso e presos no passado?

Nuvens são condensação de céu ou de água? O ar é feito de céu ou a abobada celestial se firmou em gás? Se o efeito dessa base etérea é o nada que o céu faz? Mas e os raios? Costuram o firmamento de energia pra ele não escapar? Acho que não. Nada parece ser mais libertador do que o alto. Mas os raios devem saber algo que só quem mora conhece, porque descem ao chão na primeira chance com a fúria de trovões, num desejo de ter firme ou na angústia de ser livre.

E toda oração de silêncio e voz que se ergue para que a fé tome o que é forte e leve, nesse caminho de aviões e de preces. Pergunto se existe um Céu além do céu, onde moram os anjos e julgam-se réus.

Também não sei se ir acima das nuvens é estar em algum lugar. Se o voo do homem é estar no céu ou em um aeroplano e se o contato da pele é ar ou alcançar. A montanha, que é chão, e vence o mais ordinário horizonte, é céu? Chegar ao topo e ver firmamentos diferentes desafia vários homens. Mas, se a profundeza do azul é tão perto do pico mais alto quando no nível do mar, é certo querer sempre subir mais para aproximar?

Se o céu é ar, é o redor. Se é vazio, também. Se não é nada, seria ideia, como já é. Se substantivo, concreto ou abstrato?

Vejo um céu de um azul radiante de sol que só se acinzenta de uma intensa tristeza, mas já chove e devolve um arco-íris a cada olhar. Ainda sem saber se era o que eu estava vendo, eu quis ser a estrela maior e estar sempre no firmamento como seu maior espólio. Ser o calor de todas as manhãs, a luz de todos os momentos e o azul violento do céu dos seus olhos.

passeio

Carlos estava cansado de sua rotina. Estava cansado de uma dinâmica que envolvia agregar valores subjetivos em algo aparentemente inútil e criar em potenciais clientes a necessidade de possuir esses atributos. Carlos manipulava pessoas; vendia ilusões. Ao menos era isso que pensava durante suas crises existenciais. Quando estava feliz, ele costuma se gabar de fabricar verdades e presentear as pessoas com ela. Ele se vangloriava com certa ironia de fazer o marketing parecer algo nobre. Havia uma espécie de consolo também. Nada de certo ou errado – coisas não muito consideradas por ele –, mas apenas perspectivas sem julgamento para demonstrar o estado de espírito.

A rotina o saturava há tempos. Gerar necessidades em um público alvo potencial – que busca preencher possíveis lacunas em suas existências por meio de um produto ou serviço novo – é algo que até consegue o divertir, na maioria das vezes. O consumidor precisa daquilo desde sempre, embora tenha surgido na última semana. O fato é que ele não seduz essas pessoas somente pelo prazer de mexer com elas, de interpretá-las como um coletivo carente e então atraí-las e educá-las através do fascínio. Carlos fazia isso pela pressão de receber um salário. Ele se sentia um prostituto. Achava que, no fundo, todo mundo era um prostituto. “A diferença é que as putas são mais honestas”, costumava dizer. Elas precificavam o corpo e lucravam tudo desse aluguel, ou dividiam uma parcela para sanar possíveis riscos. Em sua entrega, Carlos vendia algo dele. Era o dom que ele descobriu que poderia usar pra se realizar e viver dele. Ainda é assim, porém ele sustenta os sonhos e realizações das pessoas para as quais ele trabalha, que lucram do seu valor e pouco atendem suas necessidades. Carlos precisava viver uma sensação nova, um emprego desafiador, empreender uma nova jornada em sua carreira, realizar projetos que, a cada ano, olhava de mais distante. Carlos queria uma revolução na sua vida. Contudo, Carlos se contentou em tirar férias.

– E foi assim que eu vim pra cá – revelou à moça que sentava ao seu lado no piso superior do ônibus panorâmico, que revelava o belo fim de tarde no litoral. – Foi isso que tirou o Carlos do frio do sul. E você?

– A Viviane vai a um casamento em Pernambuco. Resolveu parar aqui uns dias antes para conhecer um pouco – ela desviou o olhar para o mar. – Meu trabalho não é tão estressante, mas depois da cerimônia eu não terei tempo de descansar da família.

– Eles conseguem ser mais estressantes que o trabalho, às vezes – em resposta a afirmação de Carlos, Viviane concordou com a cabeça. Ainda olhava em direção a praia. O ônibus começava a estacionar em frente a um dos grandes hotéis da cidade.

– Bom, eu devo fazer esse passeio de novo antes de ir embora. Talvez a gente se esbarre.

– Quando você vai embora? – a pergunta de Viviane veio despretensiosa, porém ainda era doce.

– Em uma semana – procurou na mente.

– É sempre bom ter alguém para conversar. Poderíamos fazer algo que fosse menos turístico antes disso – assim que ela falou, veio uma necessidade de não dar margem a qualquer ideia de que ela pudesse estar se insinuando. – Digo, algo que as pessoas daqui façam. Não esse tipo de passeio.

– Sim, claro – a resposta de Carlos veio com um sorriso franco. – Terça, depois do almoço, no shopping da praia. Leve roupa de banho. Se não der certo, pensamos em outra coisa – ele acenou rapidamente em partida e saiu do ônibus sem dar tempo para que ela concordasse ou não. Enfim, não faria mal mesmo.

Viviane não sabia muito bem porque conversara com Carlos, mas o achava uma pessoa agradável. Riram de um italiano bastante vermelho do sol que tentava conseguir alguma explicação sobre qualquer coisa e se olharam durante o riso. Aquele momento a deixou a vontade com o marqueteiro que veio de Porto Alegre. Não como se ele fosse um amigo de longa data ou o seu grande amor e tal. Aquele momento só serviu para ambos compartilharem um momento de pequena cumplicidade que rendeu meia dúzia de palavras simpáticas sobre amenidades e a vontade de conversar coisas amenas. Ela mal conversavam com ninguém em Brasília por não ter tempo. E sua família em Recife não se contentava apenas com a suavidade de um momento. Ela queria interagir com pessoas com quem não tivesse responsabilidades ou das quais não recebesse cobranças. Carlos era um bom exemplo. A barba cultivada era bem desenhada e dava um aspecto sério. Mas a fisionomia ruiva e jovem transmitia tranquilidade no falar até sobre as frustrações do trabalho. Ela queria uma companhia mais agradável que ela poderia ser para si mesma.

Nos dois dias que passaram até o passeio com Carlos, Viviane aproveitou como uma turista praticante, mas não fervorosa. No primeiro dia ela visitou um interior histórico onde tirou várias fotos das quais gostou muito e que faria uma exposição – se tivesse um interesse um pouco maior (ou mais duvidoso) pela fotografia. No dia seguinte ela resolveu curtir as dependências do hotel e vagueou entre piscina, espreguiçadeira, restaurante e a excelente cama, que se refugiava do calor no ar condicionado que estava incluso na diária.

Eis que chegou a terça. Viviane foi comer no shopping para aproveitar a carona do ônibus turístico. Ao chegar à praça de alimentação, procurou um lugar para comer. Estava na fila da comida japonesa quando viu de relance Carlos aguardando a vez para pedir uma massa. Foi até ele e o cumprimentou. Decidiu comer ali também.

– Como macarrão quando não quero comer nada – disse Carlos soprando o garfo com penne e molho branco. – Desce rápido e indolor.

– Eu não queria também, mas achei mais prático – Viviane atalhou o raciocínio.

– Eu tanto quis que pedi igual a você – Carlos mastigou as palavras entre uma torrada e a massa. – Não estou em um dia de muito apetite.

Continuaram comento silenciosamente aproveitando a vista que o shopping tem da praia naquela parte. Ao terminarem, já que haviam se encontrado antes do horário previsto, resolveram gastar um tempinho. Não havia nada que eles realmente quisessem lá, mas Viviane, como um bom exemplar feminino da espécie, encontraria algo de seu agrado em alguma loja com algum esforço. Carlos foi pra área de fumantes digerir seu almoço. Ambos se encontraram em uma hora no ponto de ônibus.

– Eu pensei na gente atravessar até a praia e ir caminhando até alguma parte sossegada pra tomar banho. Enquanto isso a gente vê se bola alguma programação pra mais tarde – as ideias saiam de Carlos com uma sensatez bastante cortês.

Ela aceitou tranquila, mas avisou que eles não poderiam ir muito longe, já que ficaria tarde para voltar e poderia ser perigoso dar pinta de turista por ali. Eles caminharam pela praia em direção ao norte e foram conversando sobre a bela cidade que estavam. Apesar de lá não ser tudo bonito como realmente se prega, deles poderem visualizar muito da desigualdade. Embora o circuito tenha sido feito de modo a isolá-los em partes privilegiadas da cidade, eles puderam observar que não muito distante aquilo era como em todo lugar. Daí eles compararam com o lugar do qual cada um veio e compararam seus lugares também. Falaram das coisas boas a se fazer e de suas reclamações. Deram sugestões de entretenimento, mas sem qualquer bairrismo exagerado. Depois Carlos falou um pouco mais do trabalho, Viviane falou brevemente de suas lamentações como bancária enquanto pararam em um canto que pareceu bom por ser tranquilamente deserto, fora da vista até dos poucos pescadores que avistaram logo no início da caminhada. Havia um carro ao alcance da visão; um prisma prata bem conservado. Não parecia ter ninguém nele, mas já era bom saber que estavam em um lugar isolado, mas habitável.

– Bem, vamos deixar essas coisas pra lá por enquanto – disse Viviane se livrando da roupa excedente para expor sua brancura, um tanto já queimada, em um biquine azul. Ela não era especialmente bonita. Cabelos pretos na altura dos ombros que sentiam o mar, cloro e sol desses dias emolduravam um rosto fino, sem nenhuma expressão de destaque.

– O mar é ótimo pra deixar essas coisas pra lá. É uma terapia – a fala de Carlos saia atrapalhada enquanto ele tentava se desvencilhar das roupas e ficar com uma sunga amarela duvidosa. – Qual a graça? – perguntou.

– Essa sunga não passa muita credibilidade – riu Viviane enquanto terminava de passar filtro solar no corpo.

– Hm… Minha sunga da sorte? – entre caretas, Carlos transpirava de forma notável. Cofiava a barba nervosamente de um jeito engraçado.

– Não, cara – e emendou um pouco sem graça – você poderia passar nas minhas costas? – Carlos prontamente pegou o tubo e colocou um pouco na mão. Começou a esfregar uma na outra enquanto ela virava para o caminho do qual vieram.

– Ah! Não sou daqui nem vim pra ficar. Não vamos nos preocupar com isso, né? – pesou as mãos sobre os ombros de Viviane e logo subiu para o pescoço. – Além do que só você vai ver isso. Espero que possa levar esse segredo com você para o túmulo.

– Se é um segredo, eu levo – avaliou Viviane. – Não é como se eu conhecesse alguma pessoa para qual a informação tivesse um valor equiparado ao potencial latente que possui.

– Fico mais aliviado – confessou ao terminar o serviço e tirar o excesso de creme no próprio rosto. – Se for tirar mais fotos hoje e quiser que eu saia nelas, só da cintura pra cima.

– Tudo bem, cara. Agora vamos para a água.

Deixaram as roupas e bolsas em uma cavidade escondida pela restinga e foram para o mar. A maré estava enchendo, então não precisaram ir muito longe. Eles pareciam ter intimidade com o vai e vem das ondas salgadas. O banho durou pouco menos de uma hora e Carlos parecia bem mais a vontade. Viviane se sentia tranquila naquele lugar que o som do mar era o silêncio entre as poucas palavras que trocavam.

Ao sair do mar, os dois se encaminharam para onde deixaram as coisas. Viviane viu que ali perto estava o mesmo carro sem ninguém. Carlos pegava a camisa desbotada enquanto olhava o carro.

– Aposto que quem quer que esteja nele tá aprontando alguma sacanagem – falou divertido.

– Acredito que seja mais coisa de gente perigosa. Ou sacana mesmo – Viviane sorriu pegando a câmera.

Enquanto a ligava, sentiu de súbito sufocar. Sua garganta trancou-se violentamente em um nó bloqueando a respiração. Percebera as mãos firmes de Carlos apertando a camisa pelas costas com uma força que ele não parecera ter em nem um momento. Ela tentou folgar o pano desbotado em busca de uma lufada de ar, mas Carlos a derrubou com uma rasteira e caiu por cima dela. Nesse tempo houve uma brecha para buscar fôlego, mas a respiração veio com areia, que também entrou em seus olhos e boca. Tentou usar as mãos para arranhar Carlos, mas não conseguia alcançá-lo direito. Espernear também não adiantava. Ela agora torcia secretamente – entre lágrimas – para que apenas morresse. Qualquer outra violência seria demais.

Quando as forças de Viviane estavam se esvaindo, Carlos afrouxou o aperto em seu pescoço sem sair de cima dela. Ela lembrou-se do carro e tentava gritar, mas todas as suas forças não pareciam ser suficientes. Se ela pudesse se ouvir, saberia que mal tinha mais voz.

– Duas coisas sobre mim, Viviane – começou Carlos ofegante em uma excitação doentia. – Eu não vou embora semana que vem. Vou hoje. Aliás, já tinha vindo aqui antes. Sempre procuro lugares que já visitei para aliviar o estresse da vida.

Viviane ensaiava um choro convulsionado. Queria saber o que a fez ser a escolhida desse sujeito. Queria saber porque não foi direto a Recife ver a família que tanto lhe dava apatia. Pareceu estúpida a ideia de interagir com estranhos, mas queria que aquilo lhe movimentasse um pouco a vida. Não pensava que o rumo desenhado a levaria inercialmente para o fim.

– E segundo – continuou falando baixo agora, ao ouvido de Viviane, o que a fez sentir náuseas do que poderia ocorrer. – Meu nome não é Carlos – ele cheirou o cabelo molhado de mar da moça desfalecida que buscou em um alto soluço forças para novamente gritar. Até-então-Carlos forçou novamente o aperto até que os olhos de Viviane mirassem o nada.

Calmamente, não-mais-Carlos levantou-se e pegou a máquina fotográfica. Caminhou até as coisas dos dois e guardou-as todas na própria mochila (incluindo a camisa desbotada) e vestiu a bermuda. Caminhou uns cinco minutos até o prisma estacionado. Tirou a chave do bolso e o destravou. Ao sentar-se ao volante, vestiu uma nova camisa e deu a partida. Sentia-se satisfeito, renovado. Seduzir alguém a ponto de ter-lhe a vida era uma recompensa por viver seu dom para os outros. Agora estava pronto para voltar ao mundo que lhe roubaria novamente o que ele sabia mais que nunca que ainda tinha.

mau tempo

O sol estava de rachar a cabeça pelas nove da manhã. Bem antes desta hora eu já estava de pé, com meu chapéu, botas e esporas. Coldre e revolver a postos. Stanwyck estava bem alimentado com feno e ração. Agora eu já estava enrolando meu fumo em um cigarro enquanto mastigava o excesso, sentado em minha velha cadeira do lado de fora da delegacia, onde eu podia colocar meus pés sobre o parapeito da varanda. Era um bonito parapeito. Trabalhado em uma madeira escura, ele tem resistido há muito tempo. Desde que os primeiros ingleses chegaram deste lado. O xerife antes de mim, não me deixava colocar os pés deste jeito. Rio só de lembrar aquele velho cheio de velhices. Rio ao recordar de quanto parecidos somos e de quanto tempo levei para perceber.

A comitiva era formada por um grupo de cinco. O chefe, com sua estranha cicatriz que ia do canto da boca até a orelha esquerda, foi quem nos convidou no bar para um empreendimento financeiro; Olhos Azuis já estava com ele e nada disse; Pavio disse que sabia manejar pólvora e explosivos muito bem, o que comprovou logo após em uma demonstração. Era agora o negro do grupo; Touro-Sentado era a alcunha carinhosa que o chefe arrumou para o latino, que ele julgava parecido com um índio; e eu era o Doutor. O chefe perguntou se eu era médico, disse que não, mas que minha mãezinha teria gostado que me chamassem assim e se sentiria orgulhosa. Ele riu e disse que estava bem.

Depois do meio-dia, quando almocei e voltei para a minha cadeira, uma nuvem chata pairou na cidade. Tenho observado o tempo e a avenida enquanto tento lapidar um cavalo em um pequeno toco de madeira. O canivete não está tão amolado, por isso a tarefa está desinteressante.  Apesar do tempo, as pessoas estavam vivendo suas vidas normalmente, ou algo próximo disso. Joey McCrea, da estalagem, que diariamente manda sua bela mulher tirar do varal as roupas dos hóspedes e os lençóis limpos, foi ele mesmo fazer o serviço. A roupa ainda não tinha a aparência seca e brilhosa de quando a senhora McCrea o fazia, mas pouco importava se o lavado ainda estivesse úmido. Para McCrea se prestar a fazer o trabalho de sua esposa, era sinal de mau tempo.

Uma chuva pegou nosso acampamento desprevenido e nos fez perder a maior parte da pólvora. Isso atrasou nossos planos e nos deixou em desvantagem. A locomotiva passou pelo trilho em que Pavio armou o explosivo, mas não surtiu efeito. O chefe olhou-o em um silêncio enfurecido, o qual o negro corpulento tentou justificar desesperadamente com a precipitação (rara àquela época do ano e, principalmente, nessa região, em que é rara em qualquer época). Ele só não morreu ali porque era o único que sabia fazer aquilo direito. Provavelmente, o trem deve ter levado notícias ao seu destino. Nossa vantagem acabara aí. Antes iríamos atacar um trem no deserto, agora era caso de invadir uma cidade. Era pequena e no meio do deserto, mas que nos esperava.

Spencer, do saloon, colocou seus bêbados para fora mais cedo e os bêbados ficaram sóbrios mais cedo também. As únicas cadeiras que não estavam sobre a mesa eram as poucas ocupadas por clientes que, constantemente, consultavam seus relógios de bolso. Até as dançarinas ajudavam nos serviços matinais. Eu vi um rápido reflexo de luz do sol. Havia uma ansiedade no ar.

O plano já estava definido e cada um tinha o seu papel nele. O trem levaria equipamentos tipográficos ou qualquer coisa assim para a cidade, coisa cara. O chefe não tava interessado naquele trambolho todo. Seria muito difícil de carregar. Da estação para a cidade, com pessoas e meios adequados, levaria praticamente um dia inteiro. A jogada envolvia o prefeito. Ele teria ido à capital tirar a quantidade necessária do banco para comprar o maquinário. Agora nos confiamos que ele pague o serviço apenas com a entrega concluída, ou nossa viagem teria sido em vão e Pavio não teria mais dedos para manusear explosivos.

O prédio do telégrafo, fechado desde a morte do senhor Pecks, será a sede do primeiro jornal da cidade. Mas, aconselhei senhor Brennan, prefeito e interessado no negócio, a tocar o empreendimento quando arranjarmos, pelo menos, um novo telégrafo; afinal, não se faz um jornal sem notícias. Vira e mexe recebemos algumas pessoas que querem crescer na vida e acham nossa cidade um bom lugar. O reverendo Greene veio com meia dúzia de fiéis e está construindo uma Igreja. Os servos moram na antiga casa do senhor Pecks, enquanto o padre vive sozinho em um acampamento a uns dois quilômetros daqui buscando orientação espiritual. Maluco.

Montamos acampamento bem próximo à cidade e, antes de dormir bem cedo, revisamos o plano. Enterramos o corpo do dono do acampamento que, só após Olhos Azuis matar, soubemos que se tratava de um padre. Touro Sentado, o único católico, disse que era mau presságio e – a pedido do Chefe – fez uma oração para o homem morto. Chegamos na cidade ainda sem sinal do sol. Olhos Azuis e Touro Sentado subiram no telhado de duas casas de segundo andar – cada uma de um dos lados da rua – para ficar de tocaia em locais com boa visão para dar cobertura. Eu e o Chefe iríamos fazer o prefeito de refém. Pavio criaria uma distração explodindo a maior casa que houvesse por lá para nos dar brecha. Se fosse a do prefeito, melhor. Forçaria-o a procurar abrigo em outro local e nós o pegaríamos em movimento. Não sei como me meto nesse tipo de plano.

De resto, as casas estavam de portas fechadas. Poucas e corajosas janelas olhavam o movimento. Acendo um fósforo no chão para fumar meu cigarro e começo a colocar as balas no tambor dos revólveres. Foram duas as vezes que carreguei mais de um revólver num dia e a apenas uma que cheguei a usar pelo menos um deles. Acendo mais um cigarro. Queria que o novo telégrafo tivesse chegado mais cedo. Hoje é um dia de notícia. Talvez ele relatasse a morte de uns bandidos, talvez ele fizesse um anúncio à procura de um novo xerife. O relógio marcara três da tarde.

Faltavam cinco minutos para as três da tarde. Eu e o Chefe estávamos escondidos em um estábulo próximo à estalagem. O homem que tomava conta dos cavalos pela manhã teve seu último dia de serviço. A ansiedade me deu dor de barriga e o Chefe, mesmo reprovando, deixou que eu me aliviasse rapidamente. Voltei na hora, mas as carruagens atrasaram uns 3 minutos. Quando elas chegaram, o chefe mandou um sinal com um espelho para Olhos Azuis, que mandou para Pavio. Em minutos as coisas iriam pelos ares e nós tínhamos que pegar tudo antes que caíssem no chão.

Foi tudo bastante rápido.  Uma parte da comitiva que chegara parou em frente ao antigo telégrafo para descarregar o maquinário enquanto o pessoal de negócios seguiu sentido a casa do prefeito. Uma explosão mandava a casa toda pelos ares. Os cavalos ficaram loucos, incluindo Stanwyck. O prefeito gritou para que fossem rápido ver sua família. Cinco dos doze homens foram correndo. Ainda estava atrás do parapeito, sob a marquise da delegacia quando mandei os homens que sobraram abrigarem o prefeito no prédio aqui no prédio, mas dois deles foram baleados na hora.

Quando Pavio explodiu a casa os cavalos se assustaram, mas nosso entretenimento foi assistir os homens se desesperarem. O Chefe sorria e eu via graça naquilo também. Senti-me meio maníaco por compartilhar aquela sensação com ele e isso não me fez bem. Cinco homens correram para a casa do prefeito. Não mandaríamos reforço para Pavio, mas ele havia armado uma explosão a mais e pegou os seguranças desprevenidos. Ainda ouvimos tiros de lá. O prefeito foi levado para a delegacia. Dos homens que sobraram com ele, um dos nossos se livrou de um e o Chefe de outro. O xerife conseguiu achar um dos nossos atiradores e o acertou. Ele era bom.

Estávamos eu, o prefeito, o responsável pela entrega do maquinário e mais três homens armados na delegacia. O prefeito pediu uma arma e eu a entreguei. Ele serviu junto do antigo xerife. O outro engravatado choramingava e eu o apaguei com uma coronhada para poder pensar melhor. Coloquei o homem na cela junto com a maleta de dinheiro e guardei a chave comigo. Havia pelo menos mais três deles, mas eram mais e eu não ainda não saberia dizer quantos. Não era seguro esperar muito aqui porque eles tinham alguém que mexia muito bem com pólvora e sair seria loucura por conta dos atiradores.

A cidade parecia deserta agora. O Chefe me chamou e foi andando ao ar livre até a carruagem do prefeito e me chamou para que a virássemos a fim de nos servir de proteção. Ele era louco, mas um louco que sabia que teríamos aquele tempo hábil. Como suspeitei, o Touro Sentado foi quem confirmara o mau presságio. Pavio chegou ao nosso abrigo sorridente e o chefe perguntou se havia pólvora suficiente para explodir a delegacia. Ele disse que nada como a obra prima que fizera com a casa, mas poderia abrir uma parede ou causar um reboliço dentro. Ele concordou que abrir uma parede só seria válido se houvesse estrago dentro também e pediu que o homem agilizasse os preparativos. Nós e Olhos Azuis o cobriríamos.

Enquanto discutíamos o melhor a fazer o prefeito ficou calado. Pediu que continuássemos a discussão, mas saiu pela porta de trás dizendo que iria tirar água do joelho, que na idade dele era perigoso segurar. Um dos homens notou que a carruagem estava sendo colocada numa posição diferente no meio da rua. Pedi que apenas observasse. Poderia ser uma armadilha ou eles realmente tiveram a ideia estúpida de fazer daquilo um abrigo. Ouvimos um tiro. Corri para verificar esperando que fosse da arma do prefeito, mas tinha a sensação que não. Deparei-me com o velho caído junto a um negro com a garganta cortada e rapidamente voltei. Ouvi um disparo e senti que passou perto. Disse aos homens que o prefeito matara um e morreu. Havia um atirador que não sabíamos onde estava. O que observou a carruagem disse que dois estavam atrás dela, que poderiam ter ido a outro lugar, fugindo pelo ponto cego que o veículo fornecia.

Simplesmente não dá pra entender a bravura dos homens que beiram a morte. Quatro homens saíram de dentro da delegacia em nossa direção e estacionaram no parapeito. Começaram a atirar contra a carruagem. Nós revidávamos. O chefe acertou um na cabeça. Olhos Azuis também, o que foi suficiente para o xerife achá-lo e presentear o braço direito do Chefe com uma bala no ombro ou pescoço, não pude ver direito. Um dos homens me acertou no lado esquerdo da minha barriga e o Chefe deu cabo dele. Eu estava caído no chão e o Chefe mandou que eu olhasse.

O cara da cicatriz foi para a linha de fogo e me desafiou para um duelo. Disse que agora seríamos apenas os dois e que eu poderia matá-lo ali, nessa hora, mas ele tinha mais gente. Ele desdenhou ainda, dizendo que eu teria que me ver com os homens dele se tentasse uma gracinha, mas que, se eu ganhasse limpo, haveria uma trégua para cuidar dos mortos e a caça continuaria amanhã. Deixei que ele falasse o que quisesse enquanto carregava minha arma, saí de trás do parapeito consideravelmente danificado pelas balas e fiquei frente a frente com o homem. Já tinha visto aquela cicatriz em cartazes de procurado, mas você não se apega a nomes de bandidos em cidades pacatas. Olhei para o céu enquanto me preparava e notei que agora, perto do pôr do sol, o tempo abrira novamente. Era um bom dia para morrer.

O xerife encarava o Chefe tranquilo, mas com muita concentração. Eu estava atrás do Chefe e não pude ver sua expressão. Tentei estancar o sangramento com a camisa de um dos seguranças mortos e estava parado, assistindo e poupando energias. O silêncio pairou por alguns segundos de eternidade até que os dois em um rápido movimento sacaram as armas e dispararam. Quando o xerife caiu morto, o Chefe deitou no chão da rua com a mão no braço e ficou a gargalhar. Olhos Azuis apareceu e eu já fui me preparando para levantar na hora em que ele atirou no Chefe três vezes. Continuei imóvel. Ele olhou para todos os lados e depois entrou na delegacia. Saiu direto em direção ao corpo do xerife e pôs-se a revistá-lo. Levantei como pude e sorrateiramente apontei a arma para ele de uma distância à prova de erros.

“Era sua ideia desde o início?”, perguntei. Ele parou, virou devagar para mim e sorriu nervosamente.

“Tem importância?”, dei três tiros e peguei a chave na mão dele. Olhei o curativo improvisado e já estava quase totalmente tingido de sangue. A dor era lancinante e dificultava o andar e a respiração. Tentaria fazer um melhor na delegacia e iria para a próxima cidade com o dinheiro para conseguir assistência de verdade. Era só uma questão de chegar.

a pessoa mais odiada do mundo e seus sentimentos

Ela chegou ao bar às 20h27, três minutos antes do combinado. Eu estava lá há uns 35 ou 40 minutos. Sempre chego atrasado, mas dessa vez resolvi jantar lá mesmo para ser pontual. Acabara a refeição há uns 10 minutos e pareceu ser uma decisão bastante acertada.

– Como você é pontual! – Disse sorrindo quando eu levantei para beijar-lhe o rosto duas vezes. – Não vai dizer que não aguentou de ansiedade e abriu o bar pra me esperar?

– Ficou tão na cara assim? – Respondi dando um riso fácil enquanto nos sentávamos. Esses segundos foram repletos de informação. Ela usava um vestido com várias flores bordadas. Tudo em vários tons de amarelo e laranja. Cores quentes como aquela noite. Noite escura como seus cabelos curtos e cacheados. A pele dela era queimada de sol. Ela não era dessas moças de academia, tinha um corpo de curvas belas e sutis, e tão bem sabia disso que o vestido pareceu uma escolha premeditada para a ocasião. Seus lábios finos estavam pintados com um batom vermelho que viciaram meu olhar e pareceram perceber isso, me entregando um sorriso. “Como você é pontual!”. Ainda bem que fui dessa vez. Dificilmente ela não me sorriria se eu tivesse chegado depois; não tão dificilmente se eu atrasasse, mas o sorriso foi esse e nessas condições. Não subestimo os outros que ela ainda tenha a oferecer, mas esse foi o que foi e, pra mim, é o que está. “Não vai dizer que não aguentou de ansiedade e abriu o bar pra me esperar?”. Quando afastei o meu rosto do dela ainda pensando na maciez da sua pele e em como foi rápido sentir isso agora e como eu queria novamente por muito mais tempo, e o cheiro, que eu senti brevemente e combinava roupa recém-lavada, xampu de alguma fruta, perfume de flores, sabonete… Podiam usar todos esses ingredientes numa mesma fórmula e produzir um perfume com o nome dela. Talvez não fosse a mesma coisa, mas seria uma ótima intenção.

– Nem tanto. – Falou ao sentar a minha frente. – Talvez mais ninguém tenha percebido. Eu mesma só pude ver mais de perto essa baba aqui. – Respondeu enquanto limpava o canto da minha boca e barba com um guardanapo. Por um momento eu gelei, até perceber que era uma brincadeira e torcer pra ela não sacar que eu tinha cogitado isso. – Pronto! Não vai dar bandeira por aí, rapaz.

– Vou me esforçar. – Foi tudo o que eu consegui dizer até que o garçom providencialmente chegou. Pedi para que assim que a moça que eu esperava sentasse, ele oferecesse o cardápio. “Um chopp”, “dois, por favor”, e ela perguntou porque eu escolhera aquele bar em especial, se já tinha frequentado, pois ela queria uma opinião sobre o cardápio. Eu só o escolhi porque um colega do trabalho sempre toca aqui e eu nunca tinha visto, porém havia descoberto enquanto a esperava que, especialmente hoje, não seria ele.

– Ah. Ele toca o quê? – No que respondi que MPB e umas versões acústicas de músicas de pop e rock, ela devolveu – Uma pena, não? Gosto desses repertórios variados – e pareceu totalmente sincera e interessada.

– Eu também. Até quando é ruim, eles acabam acertando em alguma coisa. – a risada veio de ambas as partes.

– Seu amigo é bom mesmo? Do jeito que você fala e o fato de nunca tê-lo visto tocar sinalizam certa desconfiança… Obrigada. – Insinuou levemente. Esqueci o que eu disse sobre o primeiro sorriso.

– Obrigado… Nada disso. Não falei dele especificamente, mas de um modo geral. – pegamos os copos e eu propus – que tal brindarmos aos músicos de bar com repertório variado, então?

– Parece justo pra você se redimir. – Ela ergueu o copo em uma menção que eu acompanhei.

– Um brinde aos músicos de bar com repertório variado. Até porque sentiremos falta deles hoje.

– Você acha?

– Na verdade não. Estou muito bem acompanhado. Só acho que a música que eles fazem vai fazer falta quando a atração da noite chegar. – Apontei um panfleto impresso todo em preto num papel rosa que estava na mesa.

– Nem sei pronunciar esse nome. Ele toca o quê?

– Também não ouso tentar. O garçom disse que é um artista “local”, apesar de ser do sul. Que ele toca músicas próprias e faz sucesso com o pessoal da universidade.

– Preconceitos à parte, já vi tudo.

– Eu também! Você faz o que na universidade? – hora de demonstrar um pouco de interesse não físico.

– A Carol não contou?

– Não. Falou bem pouco na verdade. Só que eu tinha que conhecer uma amiga dela muito bonita.

– Na verdade estudo em uma particular perto da catedral. Faço pedagogia. E a Carol nem me acha tão bonita assim. – Achou essas palavras enquanto procurava outras no cardápio.

– O muito você bota na minha conta. – Sustentei a fala com o olhar, que ela encontrou por um tempo desses que não estão em nenhum relógio.

– Tá, mas o filé com fritas a gente divide. – As mãos na mesa me fizeram perceber as unhas pintadas de uma cor clara que deve ser vendida como “cor de unha”, mas que é bastante bonita. Chamei o garçom e fiz o pedido. “Uma chapa de filé com fritas e mais dois chopps”, “as fritas podem demorar”, “traz os chopps logo e se elas demorarem muito, a gente pega mais”.

– Então, você e seu amigo músico trabalham com o quê?

– Serviço sujo. Telemarketing. – Falei e mal prendendo o riso, entreguei – Na verdade é com TI. Prestamos serviços pra uma empresa de eletrônicos. – a expressão que ela fez foi indescritível.

– Ah… – ela riu no que pareceu uma expressão aliviada. – Achei que você também fosse um dos enviados do inferno.

– Também? Você é operadora de telemarketing?… Obrigado.

– Obrigada… Não, não trabalho com telemarketing. Achei que você também fosse como eles. Seria estranho saber que você poderia ter me tirado a paciência por conta de um cancelamento de telefone ou algo assim. Sempre teria um pé atrás com você…

– Eu entendo… Acho que minha reação seria a mesma. Ou eu ligaria pro seu telefone pessoal pra resolver qualquer problema relacionado ao seu trabalho e pular as partes da atendente eletrônica e da musiquinha.

– Você ia querer me usar como password? – a pergunta veio acompanhada de um olhar insinuante.

– Também, digo, claro.

– Como também? – Ela morde o lábio de um jeito que faz caras em movimento tropeçarem por aí.

– Assim mesmo. – Não sei como eu pude dizer isso, mas precisava completar com qualquer. coisa – Como operadora de telemarketing e como professora, se um dia eu tiver filhos.

– Ok, ok…

– E você? Trabalha na área de educação mesmo? – Perguntei na tentativa de que qualquer assunto pudesse me levar a outro.

– Não – respondeu bebericando – Trabalho no banco.

– Bem diferente da área, né? Faz o que lá? Foi Concurso?

– Se eu contar, vou ter que te matar. – Ela respondeu sorrindo. É uma frase besta, dessas clichês, mas o sorriso me fez entrar no jogo.

– Gosto de alguns segredos. Deixam tudo com mais emoção.

– Alguns no geral ou um grupo específico deles? – A pergunta vinha em tom de aprovação quanto ao rumo da conversa. Também sorri.

– Segredo. – Agora o papo caminhava de um bom jeito. – Obrigado. – A chapa veio acompanhada de mais dois chopps.

– Obrigada. – O silêncio durou um pouco enquanto ela olhava o telefone. Disse que não valia uso de Whatsapp e ela concordou, mas que era apenas uma mensagem. Aproveitei pra olhar o meu e o fiz antes que ela terminasse. Podia ser uma mensagem de qualquer pessoa. Possivelmente de Carol. Eu só olhei o telefone pra não ficar moscando. Fazia uma hora que estávamos ali e nem senti. Mas agora, esse lance de mistério me deixou sem um assunto que não seja o tempo pra comentar.

– E esse tal cara da universidade? Será que tem alguma chance dele surpreender positivamente? – Pareceu que ela estava lendo meus pensamentos. Isso já facilitaria muita coisa.

– Espero que sim. Eu ainda tenho fé na humanidade.

– Temos um romântico aqui?

– Apenas mantenho pensamentos positivos. É ruim pensar no que pode dar errado o tempo todo, porque o universo já cuida disso pra gente. Chamem de caos, acaso, imprevistos, lei de Murphy… O futuro já está nos esperando pra surpreender e virar tudo de ponta cabeça. Se pudéssemos calcular todos os imprevistos, viver seria chato. O que podemos fazer é esperar passar a montanha russa enquanto nos agarramos no que temos ou soltar os braços e curtir todos os loopings, descidas e subidas.

– Uau! Um filósofo entre nós! Menos romance e mais filosofia, por favor! – ela ria e batia palmas. “Mais dois chopps”, o garçom respondeu em afirmativo com um sinal de cabeça enquanto recolhia a chapa. – Esses são por minha conta.

– Sabe uma coisa? Você falando assim, acho que realmente deveria escrever isso.

– Deveria mesmo. Bem… vou ao banheiro. – Ela levantou e passou por mim, mas ainda deixou um monte dela ali. A marca de batom no copo, o perfume, a imagem bem recente na minha mente e uma vontade na pele. Olhei o telefone novamente e havia uma mensagem de Carol. “Obrigado… sim, por favor”, o garçom trouxera os chopps e pediu para colocar a cadeira dela ao lado da minha, pois precisava do espaço quando o músico fosse começar e já estava preparando o ambiente. Li a mensagem:

‘Minha amiga tá bem? rs
Olha la o que vc faz’

Digitei o começo da resposta, mas apaguei e resolvi não enviar nada. Ela retornou, olhou a cadeira ao meu lado e só sorriu. Pareceu realmente capcioso e eu me culpei por não ter tido a ideia antes do garçom.

– Garotinhas querendo que você conserte o computador delas? – Ela era especialmente sexy fazendo piadinhas. Especialmente sexy de perto.

– Infelizmente não costuma ser assim na vida real, mas era a Carol perguntando se tava tudo bem.

– E o que você respondeu?

– Nada ainda. Mas, vou dizer que estou tomando cuidado.

– Cuidado, é?

– Com seus mistérios.

– Hmm… Isso o preocupa? – O que dizer sobre o olhar dela?

– Me preocupa não estar preocupado com isso.

– Já seria uma preocupação.

– Então eu não preciso me preocupar.

– Ou não… – Sério… O que dizer sobre o olhar dela?

– Ou não…

– Mudando um pouco de assunto – (ela realmente é boa nisso) –, você ainda estuda? – Ao que respondi sim, que estava concluindo análise de sistemas, ela prontamente pergnutou onde, e eu disse que na escola técnica. Ela sorriu e disse que era bom. Disse também que devia ser complicado estudar essas coisas, mas eu acho muito prático fazer contas e ler algo funcional e, comparado ao que ela deve estudar pra lidar com várias cabeças borbulhantes de curiosidade, isso era moleza.

– Por esse lado, realmente… Bom, Parece que o tal show vai começar a qualquer momento. Como anda sua fé na humanidade?

– É esperar pra ver, né?

Enquanto o tal cara descolado que ia se apresentar arrumava qualquer coisa no pequeno palco do bar, rolou um silêncio desses que esvaziam a cabeça no meio da multidão. Foi por pouco tempo, nada preocupante. “Mais dois”.

– Alguém aqui realmente gosta de beber, heim? – A provocação veio com mais um daqueles sorrisos.

– Pois é. Me surpreende conseguir acompanhar o seu ritmo. – Ela fez uma cara de falsa indignação e rimos um pouco. – E Carol falou o que de mim pra você? Ou isso é segredo também?

– Nada demais. Que você era um cara legal, bonito e mostrou seu facabook.

– Carolzinha sempre prática. Espero que tenha funcionado.

– Bem… Eu tô aqui, né? – Era o que eu estava esperando. Poder sentir-lhe os lábios e esse perfume o mais perto que eu podia. A língua, os dentes, saliva. Ter cada pedaço daquele universo que me fosse possível a cada instante que existisse até então.

O que veio depois foi um reconectar com o mundo aos poucos. Mais daquele silêncio de multidão entre os nossos olhares e sorrisos, até que o som contratado da noite irrompeu pelo bar. “Obrigado”, “Obrigada”. Uns beijos depois e ela me questionou:

– Já tem seu parecer?

– Minha fé foi abalada.

– Não precisamos realmente ouvir isso, né?

– Eu tenho em casa algumas músicas de MPB e pop e rock bem variadas.

– Acredito que você poderá acertar em algo. – Nunca gostei tanto de uma música que eu não gostei.

– Aposto que sim – “A conta, irmão” –, mas será que eles realmente pagam a esse cara pra tocar aqui? – Sussurrei pra ouvi-la rir e pedir baixinho para deixá-lo de lado. – Deixo.

A matrix chamou novamente com o garçom trazendo mais dois chopps. “Pô, cara. A gente pediu a conta”, “desculpem, entendi mais dois chopps”, “tudo bem. Deixa esses e pode fechar a conta”.

– Eu nem sei se vou beber mais. – Ela pousou a testa na mão e me olhou através dos cachos de seu cabelo que cobriam uma parte do seu rosto e do seu olhar.

– Essa vai na minha conta. – Atalhei.

Mal tocamos os copos. Principalmente ela. Assim que pagamos fomos direto a procura de um taxi e demos sorte de encontrar um disponível do outro lado da rua. Dei o endereço de onde eu morava do banco de trás ouvindo trilha de balada/academia que toca em uma rádio específica até chegarmos. Tiramos uma piadinha disso e o resto do caminho foi sem falar muita coisa – só umas indicações para o compreensível taxista – e chegamos ao prédio onde eu moro. Após vencer o portão, subimos rapidamente as escadas para o primeiro andar, e eu abri a porta do apartamento para ela com um gesto cavalheiresco, ao qual ela retribuiu com um agradecimento daqueles que as moças seguram a barra do vestido com as duas mãos e se curvam levemente com um dos pés para trás.

– Sinta-se em casa.

– Não precisa dizer – Acho ótimo isso. Fomos direto para o quarto. Liguei o ar condicionado como raramente faço e quando me virei ela estava lá, retirando as alças do vestido, mas ainda segurando-o nas mãos.

A música fica pra depois.

Acordei cedo e ele ainda estava deitado na cama. Sono pesado, mas ele deve acordar logo pra ir trabalhar, apesar de que eu não sei em que horário seria isso. Eu vou logo que ainda tenho que passar em casa antes de trabalhar. A cabeça lembrava levemente que eu bebi ontem, uma quinta. Foi realmente bom tê-lo em mim. Vou deixar um recado, vai que ele toma um susto. Seria engraçado, mas ele não merece. É legal, bonito, bem humorado, bom de cama… Espelho do banheiro e batom. Nunca falha.

ADOREI A NOITE. ENTÃO, RESOLVI TE DAR DE PRESENTE UM MISTÉRIO A MAIS. BEIJO

Assinei, tomei um banho rápido pra não sair com cheiro de ontem e me enxuguei com a toalha dele, que tinha o cheiro da pele que senti logo que entrei no bar. Sequei o corpo devagar ao imaginar ele enxugando o próprio corpo nela. Fui descobrindo as marcas da noite e torcendo para não ter nenhuma que ficasse visível com a roupa do trabalho. Ao me vestir, olhei-o na cama. Ele não tem a bunda grande, mas é bem firme e fica bem maior nas minhas mãos. Cobri seus pés e o as costas. Vi as marcas das minhas unhas e sorri. Passei as mãos rapidamente sobre elas e ele pareceu não reagir ao sono. Beijei-lhe a nuca e desci.

No térreo encontrei uma senhora simpática e pedi a ela que, por favor, pedisse um taxi pra mim. Ela disse que havia um ponto na esquina, mas que ligaria se eu quisesse. Achei melhor pegar no ponto para não ter que esperar. Minha casa era meio longe, mas como era bastante cedo ainda, o trânsito não tinha começado e o trajeto foi rápido. No caminho fui lembrando como ele parecia bobo quando eu disse que ele babou ao me ver no bar. E depois foi fofo e sutil quando me cantou. No começo fiquei em dúvida se ele passou no teste do ‘falar mal’. Quando falou do músico ruim, foi sincero sem ser boçal. Mas, quando ele falou do telemarketing eu fiquei com o pé atrás. Talvez ele tenha procurado só um lugar comum do humor, o que eu achei mais provável. Espero que ele não seja de desdenhar da profissão dos outros. Seria uma pena. Senti um arrepio leve lembrando a barba dele ao roçar nas minhas pernas, barriga, nuca, pescoço, virilha. “É aqui”.

Ao chegar em casa, me arrumei rapidamente e comemorei secretamente não ter marcas visíveis. Inventei um café da manhã, botei a farda na bolsa e já ia à rua quando encontrei minha mãe e minha irmã na mesa do café. “Dormisse onde?”, “na casa da Carol”, “por que não avisou?”, “te mandei mensagem”, “eu não recebi”, “tentou o tim?”, “não”, “dê uma olhadinha. Até mais tarde, beijo”, “beijo. Se cuide”.

No ponto de ônibus eu não precisei esperar nem cinco minutos e o meu chegou. Não muito cheio, mas com lugar pra sentar. Ativei a internet e já tinha Carol no Gtalk perguntando “e ontem?”, “foi massa :p”, “ai massa como? fala!!!”, “uma delícia :x”, “OEEEE já vi tudo!”, “:p”, “bom mesmo assim?”, “do que você me disse e do que eu tinha visto eu só confirmei. O resto foi surpresa boa”, “meu amigo tá com muita moral, então”, “num é só moral que ele tem de muito não” , “MINHA FILHAAA!!! IMPOSSÍVEL VOCÊ, SUA TARADA”, “muita disposição, calma ;)”, “seeei… pra aguentar você tem que ter, né?”, “tem mesmo, é o único exercício que eu faço. O único esporte que eu sou boa kkkk”, “devia ter olimpíada disso pra tu concorrer hahahaha”, “atleta pra ganhar dinheiro, só jogador de futebol”, “sexo já dá dinheiro sem ser esporte, bem”, “então vá você ganhar dinheiro assim, quenga”, “kkkkkkkkkkkkkkkkkk”. Desci do ônibus em frente à universidade.

Levam uns quatro minutos andando do ponto até a agência do banco lá dentro. Ao entrar, fui ao banheiro e troquei de camisa. Procurei à mesa com os formulários e olhei o Messenger novamente. “Prefiro manter como hobby, misturar profissionalismo com diversão é o sonho de muitos, mas poderia estragar muita coisa pra mim”, “kkkkkkkkkkk”, “mas ele é desenrolado sem ser na cama (ou seja lá onde)?”, “claro, sua nojenta. To precisada não. Ele é um charme, tem iniciativa e é bom de xaveco”, “mandei bem, né?”, “você só mandou uma, ele três”, “txaaaaaaaaa”, “kkkkkkkkkkkkk voltando, claro que meu interesse nele ajudou, mas ele até que é desenrolado”, “hmm vão sair quando de novo?”, “não sei. Ó, vou trabalhar, até mais”, “até”.

Saí da agência em direção à biblioteca do campus. Havia pouco movimento a essa hora. Achei legal que ele pareceu interessado não só na mina das fotos do Facebook, mas no que eu fazia. Mesmo assim, ele não foi chato a ponto de insistir em algo que eu não quis falar. Teria sido uma pena ter que mentir pra ele logo no primeiro dia. É pra rir mesmo que eu esteja pensando em ontem como um “primeiro dia” de próximos. Chegou uma mensagem dele no celular.

‘Meu amigo toca amanhã naquele mesmo bar.
Ótima chance. Bjo’

Sorri. Deixei para não responder na mesma hora. Gostei também de como ele mal pegou no telefone enquanto falava comigo e das mãos grandes dele me descobrindo. No taxi, ele arriscou bem tímido na parte interna da minha coxa. Quando ele viu que eu deixei e foi subindo aos poucos. Achei bonito. O taxista olhava às vezes pelo retrovisor, mas eu fingi não ver pra não arriscar deixá-lo mais acanhando. Chegou uma mensagem dele no celular. Bruteza é bom, mas assim também é gostoso e divertido. A noite toda ele se preocupou com o que eu gosto de ritmo, de força, de toque, mas tudo muito naturalmente. O devaneio acabou quando chegou meu primeiro cliente do dia.

– Bom dia, deseja abrir uma conta universitária?

vinte e seis mil dilemas (ou promessas de navegação)

Adeus. Agora, cada palavra é um suspiro. Cada silêncio é uma angústia, espera e toda a falta que a falta pode fazer. Saudades do desconhecido. Do porvir.

Estive em uma sala repleta de estranhos e você me fez companhia. Talvez por um minuto. Eu não sabia seu nome, você desconhecia o meu. Eu não vi o seu rosto; não mostrei o meu. Em meio ao barulho, as palavras se perderam. Não me orgulho desse laço, embora ainda não fossem tempos de verdades.

Pisei em lugares em que sua voz chegou primeiro. Eu não a conhecia nem a ouvi, nem me lembrava. Ainda não lembro. Talvez um eco desses ainda estivesse no ar e tocasse meus ouvidos com os dedos do vento. O ar separa chão do céu e todas as distâncias da terra. O vento é o movimento de tudo que quer se encontrar.

Como falar de uma lembrança que não se tem?

Com palavras.

Não fui a vários lugares e você estava lá. Passei perto sem ao menos saber. Todas as ruas pelas quais você caminhou e que poderia estar. Todas as casas que não são – mas poderiam ser – a sua. De todos os mares, poucos eu vi. Dos que naveguei, menos ainda. Em todas as praias, talvez pegadas suas estivessem lá e sumiram no vento ou no quebrar das ondas. Talvez o mar de que falam as conchas seja o seu, mas navegar um rumor é mais perigoso que todos os monstros dos oceanos. Não se prepara para o novo.

E como ir?

E como não ir? Apenas seguirei.

Conheci duas mil pessoas na vida e nenhuma era você. Cada uma dessas duas mil pessoas conhece mais duas mil pessoas e uma delas talvez possa ser você. Passei por tanta gente sem ver, sem apertar a mão, sem conhecer. Gente que evitei o olhar por preguiça, que ignorei os dizeres, neguei o abraço. Passei por pessoas que esbarrei nas calçadas e seções de supermercado. Passei por outras que não vi nos mesmos lugares. Poderia ser você aproveitando a falta de idosos naquele ônibus ou falando alto na fila da lanchonete.

Não se pode conhecer o mundo todo.

Mas quantas vezes se conhece uma pessoa?

Uma vida é pouco.

Duas podem ser suficiente. Um caminho diferente; o silêncio vira o mês. De repente já estava. Dentro de casa, a espuma de água e sal molhara meus pés. A mensagem dos ecos começara a chegar. São várias noites apenas contando estrelas, porém sem aprender a trilhar os caminhos através dos céus.

E eu vi. De todos os lugares, só tenho um. Só este onde pisamos no mesmo momento. Havia lá uma luz radiante que não vinha do fósforo e vapor de mercúrio das fluorescentes, nem da lua minguada. Era o sol dos seus olhos. É o que está gravado na retina da memória. De enxergar no fechar das pálpebras. De cores tão vivas que agora me surgem quando os abro também. Parece real e em todo lugar, mas é a imagem de uma estrela a anos luz do próprio adeus.

Então eu descobri a rota dos ventos. Era um espectro desse então agora. Mas o destino era longe. Construí meu barco de incertezas e de cada laço descoberto feitos em nós. Encarar alguns fracassos de frente ajuda a dissolver a tempestade na própria determinação.

Pra navegar é preciso viver.

A vida é cada risco.

E eu vi. Não calcei os seus sapatos, nem segui seus passos. Mas eu andei. Fui o mais longe que pude na linha do meu próprio horizonte. E você estava lá. Passei vários lugares, desbravando o desconhecido. Por todos os campos abertos, florestas, sertões. Todas as pontes, prédios e casas abandonadas. Pela trilha do asfalto; com o barro nos pés. Por toda rota única que vinte mil pessoas fizeram somente esta semana; mas meu caminho só eu fiz. Você também.

Foi de longe que eu pude ouvir mais claramente. O segredo das conchas. Não falavam a minha língua, porém posso jurar que entendi. Não era o canto das sereias, mas o chamado desse novo mar. Eram promessas de navegação que começavam no adeus.

Como ir sem certeza nenhuma?

Minha certeza é a morte e eu respiro.

Eu sou cada retrato de mim mesmo. Não importa de quando, nem o porquê. Eu não me orgulho de todos, porque vejo sempre uma pessoa diferente. Existem retratos meus que ainda nem conheço, pois não foram revelados. É um filme que espera você. É difícil arrumar convicção em tantos propósitos, mas que a luz de antes seja a de agora é minha mais nova crença. Não há candeeiros, postes, neon que vençam a noite e prolonguem o adeus até não se ver o fim. Apenas o sol e seu eterno amanhã.

Poderia ser tudo um sonho?

E o que não é?